“O autocarro de Rosa Parks”, de Fabrizio Silei e Maurizio A. C. Quarello

 

Da autoria dos italianos Fabrizio Silei (texto) e Maurizio A. C. Quarello (ilustrações), “O autocarro de Rosa Parks”, editado em Portugal pela Dinalivro, com a chancela da Amnistia Internacional, relata o extraordinário episódio de 1 de dezembro de 1955, protagonizado por uma frágil costureira afroamericana de 42 anos, cujo gesto de digna recusa em ceder o seu lugar no autocarro a um passageiro branco – apenas porque era branco – viria a mudar decisivamente a história do movimento pelos direitos civis dos negros norteamericanos. Depois de ter sido presa, depois do recurso, depois do apoio da comunidade (que deixou de andar de autocarro) através da ação não colaborativa e não violenta, ao fim de 14 meses de luta jurídica, liderada por Martin Luther King, o Supremo Tribunal declarou finalmente como inconstitucional a segregação racial nos transportes.

 

 

No Museu Henry Ford, em Detroit, um avô conta ao neto como esse pequeno gesto mudou tudo, embora, na realidade, este livro nos ofereça bastante mais do que apenas uma história: o neto que recorda o que o avô lhe contou; o avô que recorda episódios, histórias dentro de histórias (como o trágico exemplo de Jeremy, o bagageiro que sobrevivera à fúria do Ku Klux Klan), que ajudam ao neto a entender o que era a vida de um negro num tempo não tão distante assim – recorde-se que só em 1964 é que o presidente Lyndon Johnson assinaria a nova lei dos direitos civis.

 

 

Contudo, se o texto se carateriza pela fluidez e realismo (por vezes até médico, como é o caso da referência frequente aos problemas de próstata do avô), cabe ainda destacar que a ilustração, igualmente realista, densa na sua expressividade emocional universal, confronta o leitor com a óbvia presença estética de um outro artista americano icónico: Edward Hopper (1882-1967). O universo imagético e claramente narrativo de Hopper, integrado no contexto cultural do pós-guerra, reflete a tremenda desolação das paisagens urbanas, perturbadoras nos seus imensos silêncios e abandonos inquietantes. A luz artificial ou o estranho tratamento das sombras e as figuras humanas realistas anónimas, surgem aqui reconfiguradas por Quarello, em referências composicionais espaciais, tonais, ou mesmo numa reprodução livre e atualizada do clássico quadro de Hopper “Chop suey”, de 1929, no final da obra: desaparecem as duas mulheres brancas, solitárias, e nele se incluem as personagens, avô e neto – o avô segurando um jornal, no qual se vislumbra parte do rosto do presidente Barack Obama.

 

 

“É verdade que me doíam os pés, e que num primeiro momento foi isso que me levou a ficar sentada. Mas a verdadeira razão por que não me levantei foi por achar que tinha o direito de ser tratada como outro passageiro qualquer. Já tínhamos sofrido demasiado tempo aquele tratamento desumano”, afirmou décadas depois Rosa Parks. “O autocarro de Rosa Parks” é uma justa homenagem à coragem de uma mulher indefesa, certamente. Mas é sobretudo, simultaneamente, lição e aviso: “Compreendi que os músculos e a força não interessam. O importante está naqueles olhos grandes e naquele sorriso sereno. O importante é vencer o medo e estar sempre do lado daquilo que é justo.” Ou, ainda nas palavras deste avô, “Julgava que ela [Rosa Parks] era louca e, pelo contrário, os loucos éramos nós, habituados a baixar a cabeça e a dizer sim a tudo. Foi por isso que te trouxe aqui hoje. Para te lembrar que há sempre um autocarro que passa pela vida de cada um de nós. (…) mantém os olhos bem abertos e não percas o teu.”

 

livro “O autocarro de Rosa Parks”, de Fabrizio Silei [texto] e Maurizio A. C. Quarello [ilustrações]
Dinalivro, 2011
[a partir dos 9 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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