André da Loba [ilustrador convidado, semana 2]

 

A coluna Ilustrador Convidado regressou na semana passada ao Cria Cria com nova duração – bimensal – e um novo nome para conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro: André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Acha que tem estilo? Ou acha que tem um estilo próprio? Acha que é “especial”?

André da Loba: Para mim, a palavra “estilo” devia ter sido removida do léxico dos ilustradores há muito, muito, muiiiiiiiiiiiiito tempo. É um termo redutor por reduzir (perdoem-me a redundância) a ilustração ao seu sentido mais imediato: o visual. A ilustração já não é o desenho com a intenção decorativa das iluminuras medievais, mas sim um desenho de exploração intelectual. É mais uma reflexão do que uma representação. Há mais de um século que o mundo da ilustração tem produzido imagens desafiantes, inteligentes e sofisticadas que propõem ao leitor mais dimensões do que o texto que suportam (ou pelo qual são suportadas…). Avaliar ilustração e ilustrador pelas cores e formas que usam é como julgar um livro pela capa.

Por isso, acho mais interessante a ideia de “voz própria”. Um conceito que, a meu ver, resume eficazmente o processo de crescimento de um ilustrador: “voz própria” propõe que cada artista (ilustrador, pintor, poeta, músico,…) tem uma maneira única de se exprimir. É tão único no seu discurso como é a sua impressão digital. Cada risco, cada curva, cada cicatriz são irrepetíveis… Mas encontrar uma voz própria requer acima de tudo horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas… e depois ainda mais horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas e horas de trabalho. Muita paciência, dedicação, perseverança, compromisso…

Eric Carle, ilustrou o seu primeiro grande livro aos 40 anos… José Saramago só começou a ver o seu trabalho reconhecido aos 60, com o “Memorial do Convento”… Entre 1960 e 1964, os Beatles tocaram ao vivo em Hamburgo, na Alemanha, qualquer coisa como 1200 vezes, e quando voltaram ao Reino Unido eram especiais… Bill Gates, quando tinha oito anos começou a interessar-se por programação Basic, e aos 20 fundou a Microsoft… Imaginem as horas de programação que ele escreveu nesse intervalo de tempo… Enfim… podíamos estar aqui infinitamente… Podemos argumentar que todos estes senhores são talentosos e inteligentes à partida. Mas foi o tempo que investiram que ajudou a dar forma às suas capacidades inatas; sem ele, não valeriam o que valem hoje. Não nos podemos esquecer dos fatores históricos e sociais que os ajudaram a medrar… Ninguém chega a lado algum sozinho!… Mas isso é outra história…

Grande volta para responder à pergunta… Mas aqui vai: não tenho estilo (nem próprio, nem emprestado) e de especial tenho o mesmo que vocês, que é muito! Tanto quanto a vontade de trabalhar! Picasso dizia qualquer coisa como: “Quando a inspiração vier, encontra-me a trabalhar”.

 

pormenor do cartão de visita de André da Loba (circa 2009)

 

André da Loba: Talvez o que distingue alguém especial de alguém normal é o amor que sente pelo que faz, que é o que lhe dá motivação para o fazer por muitas horas. Deixa de ser um trabalho para passar a ser um modo de vida…

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