André da Loba [ilustrador convidado, semana 3]

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria tem agora uma nova duração – bimensal – e um novo nome para conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro: André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Tem segredos ou técnicas especiais no seu método de trabalho que nos possam ajudar a desenhar melhor? Como é que trabalha a imaginação?

André da Loba: O segredo? O segredo é mais um vício: desenhar sempre que posso. É que desenhar é, mais do que tudo, um processo de memória mecânica, uma coisa que se aprende como a ler e a escrever: para se fazer bem, temos de treinar muito, ou seja, repetir muitas, muitas, muitas vezes… Já sabem a rotina: estudar e experimentar até se chegar ao ponto em que esse gesto é um processo natural de comunicação, como é escrever, falar, dançar,…

Como cresci na era digital, trabalhar a imaginação é muito mais fácil: a minha biblioteca de recursos é virtualmente infinita e posso instantaneamente aceder a informação que me estimula a imaginação. Quando não estou a trabalhar, estou a pesquisar, ler ou desenhar. É basicamente o meu dia a dia. Agora, o que leio e o que pesquiso não é necessariamente ligado à ilustração. Tenho outros interesses: história, matemática, astronomia, física, circo, poesia, filosofia, música, teatro, cinema, o Calvino, outros ilustradores… hmm, e também gosto muito de flores. Pode parecer estranho que as minhas escolhas sejam tão variadas, mas, para mim, elas funcionam como satélites onde posso ir buscar inspiração para resolver problemas. Não seria a primeira vez que encontraria uma solução para um artigo do New York Times num livro de flores ou numa imagem que havia desenhado anos antes enquanto estava num café ao pé da Sé em Lisboa… É a parte mais bonita da nossa profissão: faz-nos mais sábios e articulados de projeto para projeto. Se fizermos, por exemplo, dez projetos por ano e a nossa carreira durar 40 anos, ficamos a saber muito sobre 400 assuntos diferentes! Isso é muita coisa, não é? Espero ter essa sorte…

 

ilustrações concebidas para o projeto “O gabinete de curiosidades” (2007 – 20??)

 

André da Loba: A ideia da interdisciplinaridade é criar espaço para ter conversas como esta:

KUBLAI –  Não sei quando tiveste tempo para visitar todos os países que me descreves. Eu acho que tu nunca saíste deste jardim.
POLO – Cada coisa que vejo e faço toma sentido num espaço da mente onde reina a mesma calma daqui, a mesma penumbra, o mesmo silêncio percorrido pelo estalar das folhas. No momento em que me concentro a refletir, dou comigo sempre neste jardim, a esta hora da tarde, na tua augusta presença, embora continuando sem um instante de pausa a subir um rio verde de crocodilos ou a contar barris de peixe salgado que colocam num porão.

Italo Calvino in “As cidades invisíveis”

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