“O Tio Elefante”, de Arnold Lobel, e “Correio para o tigre”, de Janosch

 

Os contos com animais são inequivocamente um dos sub-géneros literários mais significativos para os mais pequenos: por tradição (a presença marcante de criaturas animais na história da literatura) e por, psicológica e tematicamente, suscitarem imediata e simpática identificação com personagens e suas ações. Na senda fabulística, autores e ilustradores contemporâneos continuam a ceder ao fascínio pelos bichinhos, prevendo a fácil adesão por parte das jovens audiências, sabendo também que moralísticos fatores podem com ligeireza e diversão ser abordados por intermédio destes seres, encarnando caraterísticas e preocupações, virtudes e vícios, tão naturalmente humanos. Por esta razão, em terreno tão densamente povoado, nem sempre é fácil ser criativo e inovador, e mais difícil é não cair na repetição de estereótipos ou na moralidade de supermercado.

A Kalandraka parece apostada na edição de alguns dos mais emblemáticos clássicos do género, selecionando criteriosamente ilustradores que nas décadas de 60 a 80 do século passado foram mestres neste tipo de abordagem, que só mais tarde viria a assumir-se como uma das mais importantes no panorama editorial mundial. É o caso dos premiados, e hoje quase esquecidos, Janosch e Arnold Lobel, cujo trabalho é merecidamente reeditado.

Depois de “Oh, que lindo que é o panamá” (um original de 1978 com edição portuguesa de 2010, onde encontramos uma demanda acumulativa circular, que pela simplicidade e graça de cada personagem, ação e comentário, reclama resolutamente um lugar no coração do leitor, recordando a mensagem de “O feiticeiro de Oz”, de Franz Baum – afinal, “there’s no place like home”), “Correio para o tigre”, originalmente publicado por Janosch em 1980, é – dos cerca de cem livros deste autor nascido na Silésia – um dos que maior sucesso alcançou. As personagens, o Ursinho e o Tigrezinho, invencíveis na sua contagiosa e ternurenta simpatia e imbatível otimismo, conseguem a incrível proeza de nunca se tornarem enfadonhas – as suas aventuras são sempre imprevisíveis e bem humoradas. Na verdade, até os potencialmente irritantes diminutivos, longe de tornar as personagens excessivamente infantis, ridículas ou redutoras, se lhes adequam na perfeição.

 

 

Por seu turno, o artista norteamericano Arnold Stark Lobel (de quem a Kalandraka portuguesa havia já publicado “Contos de ratinhos” e “O porquinho”) consegue criar em “O Tio Elefante” uma equilibrada história, estruturada em breves episódios, atraente para leitores em processo de aquisição da leitura. Um humor sereno e delicado, uma narrativa afetuosa, bem cadenciada e didática, confluem numa obra sobre a perda e a aceitação, sobre a esperança e a força que se pode encontrar nos gestos simples e numa incondicional amizade intergeracional.

Com estas obras, a Kalandraka obriga-nos a repensar, a olhar para trás e a, já com alguma distância, recordar vozes e méritos, esquecidos por avalanchas comerciais; obriga-nos a repensar a história da edição para crianças; obriga-nos, em última instância, a refletir sobre quem nós somos e a valorizar o papel que na nossa formação tiveram artistas cujos nomes hoje quase esquecemos.

Talvez porque as ilustrações destes dois artistas rapidamente se tornaram clássicos, foram alvo de adaptações, alcançando relativo sucesso junto das audiências televisivas em formato de séries ou curtas metragens de animação. Relembramos o caso dos episódios de “O Tio Elefante”, da autoria de John Clark Matthews, mais especificamente a passagem em que, durante uma viagem de comboio, o protagonista presenteia o sobrinho com uma bizarra e contagiante canção sobre os números, “Count to ten”:

 

 

livro “Correio para o tigre”, de Janosch
Kalandraka, 2011
[a partir dos 4 anos]

livro “O Tio Elefante”, de Arnold Lobel
Kalandraka, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura, Televisão

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