André da Loba [ilustrador convidado, semana 5]

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria, agora com duração bimensal, propõe dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: É ilustrador a tempo inteiro, 24 horas por dia? Desenha mentalmente tudo o que vê, estando acordado ou a dormir? E toma notas ou faz esquissos sobre essas visões? O que é que tem de ter sempre consigo para o poder fazer?

André da Loba: Não acho que desenho tudo o que vejo… acho que vejo tudo o que vejo; às vezes com olhos de ver, outras vezes com olhos só de olhar. Olhos de ver são os que também cheiram, apalpam, degustam e ouvem. Daqueles que criam memórias… Saber escrever não faz de ti escritor, da mesma maneira que saber desenhar não faz de ti ilustrador. Por isso, há que treinar este músculo da memória. Nada do que foi depositado na memória se perde. O cérebro funciona como um mega arquivo de toda a nossa vida. O problema é que normalmente não prestamos muita atenção a esse processo: somos como um navio de cruzeiro que parte com uma só cabine ocupada. Há que fazer um esforço para estarmos conscientes desta informação, recombiná-la e introduzi-la no circuito dos nossos pensamentos para a podermos usar mais tarde. Mais ou menos como aquele cheiro a barba do meu pai, depositado na minha memória há muitos, muitos anos, e que me faz lembrar de uma série de imagens de livros que tínhamos quando era pequeno. Da mesma maneira, palavras, cores, números,… servem geralmente como iniciadores de ilustrações. Lugares deixam de pertencer à geografia para passarem a pertencer ao tempo. Tem sido para mim a maneira mais eficiente de resolver muitas ilustrações. Às vezes até memórias que eu nem sabia que tinha. Por isso, o que tenho de ter sempre comigo são: olhos, boca, nariz, ouvidos, pele (sem ordem específica). Se tiver um lápis e um sítio onde possa escrever, ótimo. Porque eu não me lembro de tudo…

 

 

ilustração originalmente publicada no livro “O que fazem os vizinhos em Conimbriga?” (Tugaland Edições, 2007)

 

André da Loba: “Interessa-me muito a época antes de eu ter nascido, e tenho pena de não a ter visto. Tenho a sensação de que se fizer um esforço mental sou capaz de a ver. É um tempo tão próximo de mim que sinto que o conheço muito bem, e emociono-me quando penso nele. Talvez porque os meus pais eram jovens e não se conheciam ainda.” Saul Steinberg (1977)

Advertisements

Leave a comment

Filed under Ilustração

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s