Monthly Archives: February 2012

André da Loba [ilustrador convidado, última semana]

 

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria propôs dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

Ao concluirmos aqui esta série de artigos sobre André da Loba, deixamos-lhe um agradecimento público do tamanho do oceano que nos une, pela extraordinária riqueza das palavras e das imagens que conosco partilhou ao longo destes meses, mas também pela imensa disponibilidade que evidenciou em todos os momentos desta nossa proposta.

 

Cria Cria: Com o excesso de oferta no campo da ilustração que aconteceu em Portugal (e um pouco por todo o mundo) nesta última década, acha que o mercado ainda consegue ser justo para quem faz os trabalhos de maior valor artístico? O crescimento exponencial da oferta tem sido devidamente acompanhado pelo crescimento da procura? Um ilustrador com um talento como o seu pode viver apenas da ilustração? Tem alguns períodos de tempo sem trabalhos novos em mãos? Ou, por outro lado, recusa muitas propostas de trabalho?

André da Loba: O mundo da ilustração é complexo, às vezes amador e por isso cheio de imprevistos. Há muitas coisas interessantes e outras tantas desinteressantes; mas eu acredito que a teoria da evolução de Darwin se pode aplicar ao mundo das artes e que organicamente vai selecionando e mantendo o que de melhor se faz. Todos os anos passam aqui por Nova Iorque milhares de artistas, atores, escritores, músicos: vêm tentar a sua sorte. Gente com muitas ideias boas e sobretudo com muito boas intenções. Alguns com mais talento do que outros. Mas, do que posso observar, nem sempre o que à partida parece a Continue reading

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“Sobe e desce” e “Perdido e achado”, de Oliver Jeffers

 

É atualmente um dos ilustradores de maior sucesso internacional, premiado pela crítica, adorado pelo público. Nascido na Austrália, em 1977, vivendo presentemente em Brooklyn, Nova Iorque, Oliver Jeffers gostaria de ser um cirurgião arborícola (a desculpa perfeita para passar o dia a trepar às árvores). Tem por Tomi Ungerer uma admiração imensa, visível talvez na subtil e lacónica ironia que se vislumbra na simplicidade das linhas, nos jogos de sombras aguareladas, na complexidade minimal das Continue reading

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“Escreve o teu livro de histórias”, de Suzie Harrison e Katie Lovell

 

Quantas lendas do ciclismo terão dado as suas primeiras pedaladas em bicicletas com rodinhas traseiras de apoio? Incontáveis, certamente… E quantos ilustres romancistas irão assentar os seus primeiros esboços narrativos neste livro? Incontáveis, certamente… “Escreve o teu livro de histórias” é uma espécie de rodinhas traseiras de apoio para uma bicicleta literária que quer ser pedalada na fantasia de muitas crianças, mas que até aqui não sabia como garantir o Continue reading

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“Cavalo de guerra”, de Steven Spielberg

 

Com este drama épico sobre um heroico cavalo e a sua história de resiliência em tempos de adversidade, Steven Spielberg recupera o toque áureo e humanista do clássico filme de guerra de Hollywood. Com a eclosão da I Guerra Mundial, em 1914, Albert (Jeremy Irvine) e o seu fiel equídeo, Joey, são Continue reading

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“Ginástica animalástica”, de Isabel Minhós Martins e João Fazenda

 

Digam a uma criança de seis anos que ela é um animal e recebam de resposta uma boca aberta e dois olhos esbugalhados. É mais fácil acreditar num pai natal transportado por renas que voam. Este livro pode ser uma ajuda simples para introduzir o estranho tema da biologia e a origem das aulas de ginástica junto de quem acha que o leite vem do pacote e que os leões são aqueles animais que vivem no jardim zoológico. “Ginástica animalástica” usa as palavras de Isabel Minhós Martins e os desenhos de João Fazenda para contar a história de Continue reading

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André da Loba [ilustrador convidado, semana 8]

 

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria propõe dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Imagina-se a fazer o que faz agora para sempre? Se não, o que se imagina a fazer daqui a 20 ou 30 anos? Que objetivos ainda pretende atingir na sua carreira? Se pudesse formular um desejo profissional, qual seria?

André da Loba: Queria, se me permitem, não responder às vossas perguntas. Se responder, vou ter de negar tudo o que escrevi aqui até agora. Pensar no futuro, por mais irresistível que seja, estraga-o. Tenho por norma não embarcar nesta prática. Sou mais do presente. Do agora. Às vezes parece-me que a nossa geração vive demasiado no futuro, à procura das garantias do passado; mas como eu acho que temos mais Continue reading

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“The swan”, de Clara Rockmore

 

Escrito em 1886 pelo compositor francês Camille Saint-Saëns, mas divulgado apenas postumamente, o luminoso “Le carnaval des animaux” é uma das alegrias mais completas que a história da música legou às crianças para este período de folia estéril e histérica que invariavelmente atravessa Portugal nesta altura do ano. “The swan” é o penúltimo dos 14 andamentos que compõem “Le carnaval des animaux” e o único que o seu autor permitiu que fosse interpretado enquanto estava vivo, por se tratar do Continue reading

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2011 > essencial > literatura > livros > internacionais

 

Uma reflexão e sistematização do que a história fará perpetuar na produção criativa de determinado ano não é, em nosso entender, tarefa que possa ser devidamente cumprida ainda no decurso desse período ou, sequer, nos dias que se seguem ao seu fim. Por isso, sem as precipitações e as obsessões normativas que regem a quase totalidade das publicações culturais por este mundo dentro, optamos por deixar as obras que mais nos enriqueceram em 2011 assentar um pouco da sua intemporalidade nesta primeira meia dúzia de semanas de 2012 – e resumimos, desde ontem e nos próximos dias, o que nos parece ser a essência dessa colheita, os trabalhos aos quais o ano passado merece ficar efetivamente associado. Ao segundo passo desta pequena sequência de balanços, a produção literária infantojuvenil de autoria estrangeira que Continue reading

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2011 > essencial > literatura > livros > nacionais

 

Uma reflexão e sistematização do que a história fará perpetuar da produção criativa de determinado ano não é, em nosso entender, tarefa que possa ser adequadamente cumprida ainda no decurso desse período ou, sequer, nos dias que se seguem ao seu fim. Por isso, sem as precipitações e as obsessões normativas que regem a quase totalidade das publicações culturais por este mundo dentro, optamos por deixar as obras que mais nos impressionaram e emocionaram em 2011 assentar um pouco da sua intemporalidade nesta primeira meia dúzia de semanas de 2012 – e resumimos, nos próximos dias, o que nos parece ser a essência dessa colheita, os trabalhos aos quais o ano passado merece ficar efetivamente associado. Para inaugurar esta pequena sequência de balanços, a produção literária infantojuvenil de Continue reading

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Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

Nesta precoce primavera, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian recebe exposições de dois dos nomes mais relevantes do cenário das artes plásticas brasileiras das últimas décadas. “Quatro estações” e “Strange fruits” é a proposta combinada de Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó, naturais do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, respetivamente. Artista que se diz apologista de uma “liberdade ordenada”, Milhazes apresenta uma série de quatro volumosos quadros, “representando” as quatro estações do ano. “Love” é a palavra comum aos títulos das obras, cujas dimensões são proporcionais à Continue reading

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“A invenção de Hugo”, de Martin Scorsese

 

Curiosidade insaciável e infantil acerca de um “novo” recurso tecnológico e artístico? Necessidade ou obsessão pela desafiante experimentação, o desejo de se saber capaz e de se provar capaz? Dono de uma longa e abrangente carreira, povoada de géneros diferentes (musical, comédia, drama, épico, biopic, religioso, documentário, familiar, gangster,…) e com diferentes níveis de sucesso comercial, Martin Scorsese manipula agora o 3D com a sensibilidade feita paixão, com a experiência feita homenagem, com as memórias do passado feitas oferenda familiar, pessoal, do Continue reading

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“Solid and strong”, de Kimya Dawson

 

A entrada na realidade parental na primeira pessoa altera, em qualquer adulto com um mínimo de sensibilidade, todas as suas relações sociais e profissionais – os criadores (alguns dos quais também adultos com um mínimo de sensibilidade…) não são, obviamente, exceção. A lista de músicos que – de forma menos ou mais regular e menos ou mais assumida – enxertam sintomas das suas rotinas de pais ou mães nas respetivas obras é infindável, mas uma das nossas “mães songwriters” preferidas dos últimos anos merece sempre um destaque muito particular nesse quadro, pelo menos tão particular quanto é o seu universo de referências: a norteamericana Kimya Dawson. Depois de ter dado à luz a Continue reading

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André da Loba [ilustrador convidado, semana 7]

 

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria propõe dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Considera ser mais difícil desenhar para crianças ou para adultos? Ou desenha sobretudo para si próprio? Que conselho daria a uma criança que se lhe dirigisse exprimindo o desejo de se tornar ilustradora?

André da Loba: Desenhar é difícil (ponto!). E desenho para o desenho, pelo desenho. Quando estou a desenhar-desenhar, deixo de ser o protagonista: sou uma espécie de servente, um personagem secundário. Sinto-me impelido pelo que estou a desenhar, de tal forma que me esqueço de mim e trabalho como se estivesse num transe, tentando encontrar aquela Continue reading

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As cirandas free jazz do duo FLAC

 

O baterista e percussionista Flávio Lazzarin é um dos mais ativos e promissores talentos do cenário musical de São Paulo delimitado entre os léxicos do free jazz e da improvisação eletro-acústica. Uma obra mais ou menos recente mas que vai proliferando por via dos seus incontáveis cruzamentos criativos com instrumentistas de idênticos interesses formais e posicionamento ético perante a arte sonora de vanguarda, muitos deles registados em disco (e sabiamente disponibilizados para download gratuito) pela sua editora, a Zumbidor. Publicado no ano passado em nome do seu principal projeto – o duo FLAC, que mantém com o saxofonista André Calixto -, um desses álbuns é uma desafiante releitura, plena de liberdade especulativa, de algumas cirandas conotadas com o universo infantil. “Cirandas brasileiras – Estudos e outtakes, parte 1” não é tão amigo das crianças mais Continue reading

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“Fernando Pessoa – Plural como o universo”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

“Sê plural como o universo” surge escrito no topo de uma folha branca de papel, máxima-título de texto por escrever ou tantas vezes escrito, cujas continuidades se adivinham e concretizam em toda a obra que hoje conhecemos de Fernando Pessoa. A folha original está exposta na última sala, e nela figura esta frase que, despojada do verbo imperativo, (des)apropriada portanto, serve de mote da exposição. As mesmas palavras surgem também, escrita negra em espelho deformante, marcando a entrada numa das salas. Outro topo de folha, desta vez pedaço rasgado, figura num dos painéis: “O universo é Continue reading

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Giffoni Film Festival

 

Fundado em 1971 por Claudio Gubitosi, o Giffoni Film Festival – sedeado na pequena cidade de Giffoni Valle Piana, junto a Salerno, no sul de Itália – é considerado o mais importante certame internacional de cinema dedicado a jovens e adolescentes. Uma das suas bandeiras é uma frase que François Truffaut, provavelmente o mais completo dos grandes realizadores da história do cinema francês, sobre ele proferiu: “Di tutti i festival, quello di Giffoni è il più necessario” (ou seja, “De todos os festivais, o de Giffoni é o mais necessário”). Outra das suas imagens de marca é o facto do júri das diversas secções competitivas ser formado exclusivamente por jovens das idades a que os filmes se destinam, provenientes dos quatro cantos do mundo, que poderão ver, debater e votar as obras selecionadas. As candidaturas para essa função na edição deste ano, marcada para 14 a 24 de julho sob o mote “Happiness”, já estão abertas a todos os Continue reading

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“Mel”, de Semih Kaplanoglu

 

Poder-se-ia dizer que “Mel” nos conta uma história. De facto, ela está lá. O pequeno e doce Yusuf (Boras Altas), de seis anos, é o filho de dois pobres camponeses que vivem nas belas e frondosas florestas da Turquia rural. Certo dia, o pai – apicultor e seu grande amigo e confidente – não regressa de um trabalho que o filho e a mulher sabem muito arriscado. “Mel” poderia ser apenas isso. Mas, felizmente, não é. O realizador Semih Kaplanoglu faz da câmara um tocante elogio à sensibilidade, às sensações e aos afetos. Filma a vulnerável ternura do olhar de uma criança, a sua íntima relação com o Continue reading

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Centro de Segurança Familiar do Google

 

Apresentado ontem – Dia da Internet – em Portugal, o Centro de Segurança Familiar é uma página concebida pelo Google para promover medidas de consciencialização, proteção e educação dos menores durante o tempo em que estão ligados à internet. Alertas, esclarecimentos e métodos de prevenção reunem-se aqui com a supervisão especializada de Continue reading

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André da Loba [ilustrador convidado, semana 6]

 

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria propõe dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Qual foi a coisa mais interessante que aprendeu com a ilustração até hoje? Com quem? Quem é o seu ilustrador favorito? Por que razão? Quem é que imita mais? Fica irritado com isso?

André da Loba: A coisa mais importante que aprendi na ilustração é que é difícil dizer a verdade. Perceber a verdade, em toda a sua profundidade, do que estou a desenhar/pensar, é uma coisa complexa. Não por questões meramente técnicas, mas porque não é uma verdade visível, é qualquer coisa que não está à superfície. Uma singularidade. Tenho de fazer um esforço: às vezes, é-me mais fácil não pensar. Deixar-me invadir pelo medo de Continue reading

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Celebrando 200 anos do nascimento de Charles Dickens

“Charles Dickens in his study”, de William Powell Frith (1859)

 

A mãe ensinou-o a ler. O pai, rapidamente descobrindo as prodigiosas capacidades do filho, instalava-o numa cadeira alta e incentivava-o a recitar baladas populares, a contar anedotas e histórias para uma divertida plateia de colegas de trabalho. Mas foi num quartinho no sótão do pai que Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 – 9 de junho de 1870) encontrou os seus Continue reading

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