Celebrando 200 anos do nascimento de Charles Dickens

“Charles Dickens in his study”, de William Powell Frith (1859)

 

A mãe ensinou-o a ler. O pai, rapidamente descobrindo as prodigiosas capacidades do filho, instalava-o numa cadeira alta e incentivava-o a recitar baladas populares, a contar anedotas e histórias para uma divertida plateia de colegas de trabalho. Mas foi num quartinho no sótão do pai que Charles Dickens (7 de fevereiro de 1812 – 9 de junho de 1870) encontrou os seus verdadeiros mestres e heróis inspiradores: Robinson Crusoe, Tom Jones, Dom Quixote ou Roderick Random. Interpretava as obras e encarnava as personagens durante meses a fio, com uma convicção e fulgor raros numa criança.

Com o pai preso por dívidas, cedo começou a trabalhar num armazém fabril sujo e decadente, de soalho podre e infestado de ratos. Trabalhava durante dez horas por dia, aninhado num recanto escuro, embalando e colando rótulos em frascos de graxa. Mais tarde, esgueirava-se de madrugada ou ao anoitecer para o British Museum – aí, no aconchego providencial, lia avidamente e treinava estenografia. Semelhante treino transformou-o, aos 19 anos, num dos mais rápidos, eficientes e rigorosos repórteres de Londres. A ambição e a vivacidade, aliadas a uma insaciável curiosidade e à invulgar capacidade de observação, fariam dele um escritor. O alcance criativo e variedade emocional da sua escrita, o humor especialíssimo, as extraordinárias capacidades de comunicação e de resistência, juntando-se à comercial preocupação em agradar ao leitor, torná-lo-ão num escritor popular. Mas serão o seu dom de identificação autobiográfica com as personagens, bem como as invulgares e tocantes preocupações sociais que revela nos retratos realistas e dolorosos da época vitoriana e dos seus habitantes, que farão de Charles Dickens um dos autores canónicos da história da literatura. Para os leitores da época, os capítulos mensais ou semanais, publicados em jornais, constituíam fonte de fascínio e de revelação. Ainda hoje assim é – que o atestem as incontáveis adaptações, filmes, peças de teatro, documentários e séries televisivas, museus, festivais, congressos, associações e até parques temáticos que no seu trabalho têm origem. Ainda hoje, as obras permeadas por experiências de infância e os inesquecíveis jovens protagonistas David Copperfiled, Oliver Twist ou Pip fazem crescer a vontade de reler as traduções portuguesas na saudosa Colecção Azul, de saber o que dizem sobre ele nos congressos que por aí vêm, de atentar na iniciativa do Centro de Estudos Anglísticos da Universidade de Lisboa, de espreitar as exposições comemorativas na Biblioteca Nacional ou na Hemeroteca Municipal.

As suas últimas palavras terão sido: “Be natural my children. For the writer that is natural has fulfilled all the rules of art.”

 

Paula Pina

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