André da Loba [ilustrador convidado, semana 6]

 

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria propõe dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Qual foi a coisa mais interessante que aprendeu com a ilustração até hoje? Com quem? Quem é o seu ilustrador favorito? Por que razão? Quem é que imita mais? Fica irritado com isso?

André da Loba: A coisa mais importante que aprendi na ilustração é que é difícil dizer a verdade. Perceber a verdade, em toda a sua profundidade, do que estou a desenhar/pensar, é uma coisa complexa. Não por questões meramente técnicas, mas porque não é uma verdade visível, é qualquer coisa que não está à superfície. Uma singularidade. Tenho de fazer um esforço: às vezes, é-me mais fácil não pensar. Deixar-me invadir pelo medo de que o desenho vá revelar as minhas falhas ou partes da minha personalidade de que tenho vergonha. Aí, a solução é copiar (outros e a mim mesmo!). Preciso de tempo até criar um conhecimento profundo do que estou a ver. É tempo para criar cumplicidade e intimidade com o objeto que me permita perceber o que quero representar: a tal singularidade de que falava há pouco. E, então, o desenho é melhor. As respostas que fui obrigado a encontrar para as perguntas que foram surgindo fazem-no melhor. Também tenho que deixar de parte banalidades e piadas fáceis. Truques. Lugares comuns. Vícios. Saberes antigos. É impossível descobrir alguma coisa nova sem deixar algo para trás. O processo de auto descoberta passa também por saber onde estou no mundo. A minha posição relativa pode ser calculada de muitas maneiras: uma delas é por comparação aos meus pares. E passo muitas horas a olhar para eles. E para aqueles para quem eles olharam. Com tantas coisas boas que andam por aí, não posso ter um ilustrador favorito, tenho muitos, mas isso são segredos meus. Imitar, imito-os a todos – e, por consequência, aos que eles imitaram. Nasci no fim do século XX: não resta nada por inventar, nenhuma palavra por dizer. Jim Jarmush disse: “Nada é original. Rouba de qualquer lugar que te dá inspiração ou abastece a tua imaginação. Devora filmes antigos, filmes novos, música, livros, pinturas, fotografias, poemas, sonhos, conversas aleatórias, arquitetura, pontes, sinais de rua, árvores, nuvens, luzes e sombras. Escolhe para roubar apenas as coisas que te falam diretamente à alma. Se fizeres isto, o teu trabalho (e roubo) será autêntico. Autenticidade não tem preço; originalidade não existe. E não te preocupes em esconder o teu roubo – celebra-o, se quiseres. De qualquer maneira, lembra-te sempre do que Jean-Luc Godard disse: ‘Não é de onde roubas as coisas – é para onde as levas.’” Depois disto, como posso ficar irritado?

 

ilustração originalmente publicada no livro “Bichos faz-de-conta” (Porto Editora, 2007)

 

André da Loba: Quando os outros já pensam tão bem, por que é que eu não hei de usar o pensamento deles como trampolim para outros pensamentos? “Nani gigantum humeris insidentes”, como escreveu Bernard de Chartres.

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