“Fernando Pessoa – Plural como o universo”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

“Sê plural como o universo” surge escrito no topo de uma folha branca de papel, máxima-título de texto por escrever ou tantas vezes escrito, cujas continuidades se adivinham e concretizam em toda a obra que hoje conhecemos de Fernando Pessoa. A folha original está exposta na última sala, e nela figura esta frase que, despojada do verbo imperativo, (des)apropriada portanto, serve de mote da exposição. As mesmas palavras surgem também, escrita negra em espelho deformante, marcando a entrada numa das salas. Outro topo de folha, desta vez pedaço rasgado, figura num dos painéis: “O universo é o sonho de si mesmo”. Poderiam juntar-se. Frase para si próprio, frase chave da estética pessoana da multiplicação heteronímica? Frase para nós, para todos, também “pessoas múltiplas”, em constante devir.

 

 

Com a cenografia de Hélio Eichbauer, o design gráfico de Heloisa Faria, sob a coordenação geral de Júlia Peregrino, “Fernando Pessoa – Plural como o universo” tem como curadores um brasileiro, Carlos Felipe Moisés, e um americano residente em Portugal, Richard Zenith. Tradutor e exímio pessoano, Zenith não esconde o orgulho e a paixão pelo trabalho, embora se vislumbre alguma frustração pelo facto de figurarem tão poucos originais – há sobretudo facsimiles e manuscritos digitalizados. A escrita rodeia o visitante, em diferentes suportes (papel, madeira, digital, sonoro, tinta sobre espelho, ultravioleta, projeção em areia). De facto, há um certo grau de interatividade, nomeadamente na disposição labiríntica ou não estritamente direcionada do percurso, na criação de elementos cenográficos e multimedia, na seleção de excertos. Na primeira sala encontram-se cabines, cada uma delas dedicada a um dos mais conhecidos heterónimos e a Pessoa ortónimo. Dentro de cada cabine, um projetor, dotado de sensor de movimento, apresenta textos que se desfazem e recompõem em novo texto, respondendo ao gesto do visitante. Os ambientes sonoros (da responsabilidade dos técnicos criadores do software) atribuídos a cada cabine são de funcionalidade e qualidade musical discutível, questão que poderia ter sido mais cuidada. O mesmo se passa com as gravações de poemas, às quais falta alguma vibração emocional, apesar da voz sempre profissional de Luís Caetano.

 

 

A última sala é desconcertante, no seu melhor e no seu pior. Referindo apenas o melhor: o excerto de um dos filmes mais extraordinários da história do cinema brasileiro, “Limite” (1930), de Mário Peixoto; uma imensa mesa de leitura, com exemplares diversificados de edições da obra pessoana; e as seis vitrinas, cheias de preciosidades, inéditos e originais, cartas, bilhetes postais, cadernos, registos, mostras e treinos caligráficos, listas e um dos jornais fictícios de Pessoa: O Palrador. Nesta publicação, que o poeta inventou em 1901/2, com 14 anos, quando visitou Portugal pela primeira vez com a família, encontramos notícias reais e outras imaginadas, charadas, artigos (como o delicioso e informativo “Monstros da antiguidade”) ou poemas humorísticos, já assinados por uma equipa de poetas, jornalistas e colaboradores imaginados.

 

 

Evidentemente, um dos pontos altos da exposição, misto de fascínio e incredulidade, funéreo emblema e inesgotável fonte de tesouros e polémicas, é a “famosa arca” (arrecadada em leilão por um particular anónimo, que a cedeu para a exposição), impiedosa e sobranceiramente exposta, num jogo de indecisão abre-não-abre, fechadura aberta, mas hermeticamente fechada (no fundo, um papelinho secreto e sorrateiro ainda por catalogar?).

Apesar de os curadores reafirmarem que “Fernando Pessoa é um poeta para todos e para todas as idades, o que é uma coisa ótima”, a mostra em si, lamentavelmente, não chega a cumprir por completo a sua função didática na captação eventual de públicos mais jovens, o que será com certeza compensado pelas atividades do serviço educativo da Gulbenkian. Esta é uma exposição para quem conheça pouco acerca de Fernando Pessoa. Sabe a pouco, para quem já conheça alguma coisa, mas vale decerto a visita.

10 fevereiro > 30 abril
exposição “Fernando Pessoa – Plural como o universo”
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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1 Comment

Filed under Artes plásticas, Literatura, Ram Ram

One response to ““Fernando Pessoa – Plural como o universo”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

  1. Fernando Pessoa será sempre o melhor poeta português.
    Obrigado e continuem com o bom trabalho.

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