André da Loba [ilustrador convidado, semana 7]

 

A coluna Ilustrador Convidado do Cria Cria propõe dar a conhecer melhor ao longo dos meses de janeiro e fevereiro o nome e a obra de André da Loba. Apesar do seu trabalho ainda não ter alcançado o merecido reconhecimento aqui em Portugal, já atingiu níveis de excelência e prestígio mundial praticamente inéditos na história da ilustração nacional. Dotado de um talento e de um estilo singulares, André da Loba é um imenso motivo de orgulho criativo em qualquer parte do mundo.

 

Cria Cria: Considera ser mais difícil desenhar para crianças ou para adultos? Ou desenha sobretudo para si próprio? Que conselho daria a uma criança que se lhe dirigisse exprimindo o desejo de se tornar ilustradora?

André da Loba: Desenhar é difícil (ponto!). E desenho para o desenho, pelo desenho. Quando estou a desenhar-desenhar, deixo de ser o protagonista: sou uma espécie de servente, um personagem secundário. Sinto-me impelido pelo que estou a desenhar, de tal forma que me esqueço de mim e trabalho como se estivesse num transe, tentando encontrar aquela singularidade de que falava na semana passada: é quase como se estivesse a desenhar sem saber que o estou a fazer. Mas ao mesmo tempo é um trabalho consciente, de eliminação constante, em procura da claridade e rapidez das ideias. É como trabalhar numa escavação arqueológica: normalmente, só depois de limpar toneladas de terra encontramos um fragmento de algo interessante. Mas seguindo o fio da imaginação (que às vezes nos leva por caminhos inesperados) encontramos depois outro bocado, e depois outro… e no fim, em vez de um caco, temos um vaso com mais de mil anos. Lembra-me a Xerezade, que conta uma história em que se conta uma história e assim por diante – a sua eficácia reside em ter a presença de espírito para saber encadear uma história na outra e saber exatamente onde parar. Como se costuma dizer: cada um sabe as linhas com que se cose. Por isso é que digo que desenho pelo/para o desenho. Pelo exercício. Mental: sou por uma mensagem simples com sentido forte. Forte o suficiente para chocar, mas delicado o suficiente para cativar. Faço-o por/para mim e para todos. Para quem quiser ver. Pelo estímulo da criatividade. Por tudo o que antes não existia ou pelo menos eu não conhecia. Pela produção de memórias. Pelas odes à inteligência. Pela fantasia do (ir)realizável. Pelas sandálias aladas do Perseu que nos levam a voar até pontos de vista diferentes, outras lógicas, outros métodos de conhecimento e análise. Em suma, desenho para ser leve.

Nunca fui muito de dar conselhos… mas acho que se desse seria: não sejam como Tristram Shandy, que não queria nascer, porque não queria morrer; ou como o dinossauro de Augusto Monterroso, que quando acordou, depois de muito sonhar, ainda estava no mesmo lugar.

 

ilustrações originalmente concebidas para a performance “Zeitgeist” (2009)

 

Manifesto

 

O meu trabalho?
O meu trabalho será sempre sobre ti. Sobre mim.

Sobre anarquistas,
videntes e
padres ateus.
Romeus.
Blasfemos e amotinados.

É também sobre incendiários,
iluminados e outros artistas.

Ladrões,
biólogos e sexólogos.

Poetas (e) pintores,
mas não tanto como:
anões altos,
gatos pretos,
sobreviventes de um naufrágio.

Pessoas mancas,
pó da estrada.

Vagabundos profissionais e
mudos espontâneos.

É sobre leve(r)za das coisas estranhas.

É sobre ser secretamente.
Secretamente feliz.

(André da Loba)

Advertisements

Leave a comment

Filed under Ilustração

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s