“A invenção de Hugo”, de Martin Scorsese

 

Curiosidade insaciável e infantil acerca de um “novo” recurso tecnológico e artístico? Necessidade ou obsessão pela desafiante experimentação, o desejo de se saber capaz e de se provar capaz? Dono de uma longa e abrangente carreira, povoada de géneros diferentes (musical, comédia, drama, épico, biopic, religioso, documentário, familiar, gangster,…) e com diferentes níveis de sucesso comercial, Martin Scorsese manipula agora o 3D com a sensibilidade feita paixão, com a experiência feita homenagem, com as memórias do passado feitas oferenda familiar, pessoal, do presente.

Nos anos 50, ainda criança, assistiu às primeiras experiências fílmicas com 3D. Ainda estudante, aprendeu com o agora quase ridículo “Jane Russell in 3D – It’ll knock both your eyes out!” (da comédia musical “The french line”, 1953) e com o sempre genialíssimo “Dial M for murder” (1954), de Alfred Hitchcock. Mais tarde, já um ícone, Scorsese partilhou o entusiasmo de James Cameron por “Avatar”. A técnica não é artifício, recurso, ferramenta, acessório. A técnica incorpora e amplia a narrativa.

 

 

Para quem leu “A invenção de Hugo Cabret” (2007), do americano Brian Selznick (edições portuguesas da Gailivro e da Asa), a maravilhosa e inclassificável obra ilustrada, ou ilustração narrada, ela própria fílmica, que deu origem a “Hugo” de Scorsese, há uma natural sensação de estranhamento – passagens e pormenores que desaparecem, outros que são substituídos, muitos ampliados. Mas se desaparece o barulho dos sapatos (os saltos eram feitos de películas derretidas de filmes) e, logo, a explicação para a tormentosa irritação que causavam a Papa Georges, por exemplo, exploram-se novas relações entre personagens meramente figurantes, surgem detalhes cómicos e sequências humorísticas memoráveis. Tal é o caso do guarda da estação, que é redimensionado, açambarcando literalmente alguns dos melhores momentos do filme, graças à fisicalidade slapstick do polémico Sacha Baron Cohen, num misto de Inspetor Closeau e de guarda francês de dicção sui generis da série “Allo allo!”.

 

 

Veja-se ainda a presença de uma profunda paixão pelos livros e pelo “sítio mais maravilhoso da terra”: a livraria, a biblioteca, trazida por Isabella, leitora inveterada; pelo próprio Hugo, que recorda as leituras que ele e o pai faziam de Jules Verne; e pelo velho livreiro Mr. Labisse, que “envia livros para boas casas”. Descobre-se num livro que os filmes têm o poder de agarrar os sonhos: “Se alguma vez te perguntaste de onde vêm os sonhos… olha à tua volta. É aqui que são feitos.”, afirma no filme Sir Ben Kingsley, como George Méliès, dirigindo-se ao menino, visitante fascinado com o ambiente desse primeiro e mágico estúdio.

 

 

Esta obra de Scorsese obriga-nos a refletir, entre tiquetaques mecânicos de engrenagens, no topo da torre do relógio, sobre as dimensões ontológica e filosófica do homem, do mundo, da arte, numa lógica argumentativa dedutiva pura: “Se o mundo é uma máquina, então eu não sou uma peça sobresselente. Estou aqui por uma razão.” Este filme de Scorsese é uma dádiva e uma paradoxal homenagem múltipla: aos pioneiros, aos mestres, à literatura e ao cinema, à arte e à tecnologia, do passado, do presente e do futuro. Mas é também um irresistível convite, guiando-nos num extraordinário retorno aos olhares recônditos e esquecidos da infância: “Dirijo-me a vós como sois, feiticeiras, sereias, aventureiros, viajantes, mágicos. Venham e sonhem comigo”.

 

16 fevereiro [estreia nacional]
filme “A invenção de Hugo” [“Hugo”], de Martin Scorsese, com Asa Butterfield, Ben Kingsley, Chloë Grace Moretz, Sacha Baron Cohen,…
Zon, 2011 / 2012
[a partir dos 12 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Cinema, Ilustração, Literatura

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