“Os animais estavam zangados”, de William Wondriska

 

Durante os anos 80 do século XX, o trabalho do designer gráfico e publicitário, professor, empresário, autor e ilustrador americano premiado William Wondriska encontrava-se um pouco por todo o lado: em logotipos e em posters, em montras e edifícios. Formado em Yale e Chicago, Wondriska funda a Wondriska Associates Inc., em 1961. A Walt Disney Company e a Children’s Television Workshop contam-se entre os clientes famosos, juntamente com a The National Gallery of Art, a Boston Symphony, bancos, fábricas e universidades. Graças à capacidade prática de redução drástica de custos, mas sobretudo devido ao talento para a reinvenção, a empresa sobrevive longas décadas, contribuindo para tornar o seu fundador numa das referências mundiais do design.

As obras para crianças que Wondriska publicou durante as décadas de 60 e 70 parecem não envelhecer – o minimalismo concentrado, a precisão do traço e percurso da linha, a paleta monocromática, reconvertendo o vintage, de moda passageira, em atemporal preciosidade: recorde-se os inolvidáveis “Puff” (1960), “A long piece of string” (1963) ou “Stop” (1972), e espreite-se ainda “1, 2, 3 – A book to see” (1959) ou “All by myself” (1963).

A publicação deste “Os animais estavam zangados” (“All the animals were angry”, um original de 1970) na coleção Orfeu Mini da editora Orfeu Negro indicia talvez que é chegada a hora de Wondriska assumir o merecido lugar de autor de referência junto das crianças portuguesas. Aprender a ver, a apreciar e a criar vintage a partir do estilo de Wondriska pode vir a ser uma proposta desafiante, sobretudo porque “Os animais estavam zangados” não oferece apenas um texto simples, acumulativo, simultaneamente sério e divertido, ótimo para ser lido ou visto pelos mais pequenos. É um facto que a linearidade tradicional do encadeamento de animais, entediados e, em sequência, contagiosamente zangados uns com os outros sem outra razão que não seja serem como são, torna a narrativa suficientemente expressiva e interessante na sua exemplaridade. A originalidade dual da paleta cromática (negros-cinzas e laranja-açafrão) congrega no traço negro a principal força estética e emocional da obra.

Atente-se, por exemplo, nos olhares carrancudos e posturas provocatórias de cada um dos animais, na primeira parte do livro, e observe-se a sua gradual transformação. Os dois grandes momentos em que se divide (antes e depois da chegada da pomba, a construção circular e crescente de tensão, a passagem da zanga ao contentamento graças às palavras de afeto e aceitação daquela voadora mensageira da paz) revelam uma técnica de planificação matemática e inteligentemente pensada – o ritmo de texto e o ritmo visual em equilíbrio, o “antes” e o “depois”, desde o retrato de grupo zangado da capa até ao retrato do grupo “satisfeito” na contracapa (integrando já a benfazeja pomba). Será precisamente a presença harmoniosa desse pássaro que marca a mudança da técnica composicional das ilustrações – na segunda parte desaparecem os cinzentos aguarelados, criando-se um livro ilustrado que pode ser também um livro para colorir. O convite ao preenchimento, real ou imaginário, daqueles animais e cenários finais, com as cores que o leitor desejar, afigura-se-nos quase irresistível…

 

livro “Os animais estavam zangados”, de William Wondriska
Orfeu Negro, 2012
[a partir dos 2 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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