“Neighbours” e “Synchromy”, de Norman McLaren, na Cinemateca, Lisboa

 

Houvesse motivação e disponibilidade pedagógica para fomentar nas crianças, desde a mais tenra idade, um respeito absoluto pelos clássicos dos diversos campos criativos, e Norman McLaren (1914 / 1987) seria um nome tão recorrente como infelizmente são os de mediocridades como as tais Winx ou o tal Panda. A realidade, contudo, é consideravelmente diferente, assaz mais ingrata: por estes dias, a percentagem de crianças que efetivamente têm uma noção mínima do que foi capaz o génio seminal de McLaren deve drasticamente rondar os zero. A internet pode ajudar a colmatar o essencial dessa escandalosa lacuna, dando a ver – ainda que sem as condições de visualização ideais – algumas das obras que garantem o estatuto todo poderoso do deus da animação experimental. A Cinemateca Portuguesa complementa hoje um pouco dessa possibilidade ao exibir, a partir das 7 da tarde, um importante documentário sobre o realizador (“Né en 1914, Norman McLaren”, de 1972, de André S. Labarthe), antecedido por duas referências paradigmáticas e bem distintas dos limites conceptuais do seu trabalho: “Synchromy” (1971), brilhante exemplo tardio da sua mestria na conceção de música visual, ou seja, de animação como som como animação, onde o resultado é uma entidade que despudoradamente se autonomiza dessas linguagens; e “Neighbours” (1952), uma das suas mais (re)conhecidas curtas metragens (vencedora de um Oscar, p.ex.), protagonizada por uma flor em “stop motion” que envia uma peculiar mensagem de paz e amor pelo próximo aos seus secundários de carne e osso, numa película igualmente histórica pelo seu caráter técnico amplamente inovador (quem é que, depois de ver estes oito minutos de revolução delineada cerca de 35 anos antes, ainda se atreve a declarar que o videoclip de “Sledgehammer“, canção de 1986 de Peter Gabriel, é tão pioneiro como se faz crer?). A oportunidade de potenciar estas pérolas no grande ecrã da Rua Barata Salgueiro é de rigoroso luxo. Mas para quem não pode ter tudo, aqui ficam as versões de ver por casa de “Synchromy” (aconselhável para todas as idades a partir dos 12 ou 14 meses de vida) e “Neighbours” (pela arriscada ironia belicista dos dois minutos finais, não o aconselhamos a crianças com menos de sete anos nem a quaisquer outras pessoas particularmente impressionáveis…), bem como outras três provas cabais da aprilina relevância de Norman McLaren para o coração do cinema animado (“Dots”, um videoclip de hip hop feito em 1940, “Canon”, um jogo de computador feito com atores em 1964, e “Le merle”, uma lenga lenga infantil surrealista feita em 1958 – todos aconselháveis para crianças a partir dos 18 meses…):

 

 

19 março, 7 pm
filmes “Neighbours” e “Synchromy”, de Norman McLaren
filme “Né en 1914, Norman McLaren”, de André S. Labarthe
Cinemateca Portuguesa, Lisboa

 

Moreno Fieschi

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Filed under Cinema, Ram Ram, Televisão

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