“Nunca vi uma bicicleta e os patos não me largam”, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso

 

João dos Santos, grande (imenso!) pedopsiquiatra português, foi um dos primeiros a insistir na questão das competências iniciais que todas as crianças deveriam ter oportunidade de desenvolver para que, mais tarde, consigam ser bem sucedidas nas aquisições formais escolarizadas, como a leitura, a escrita, a matemática, sempre alvo de constantes preocupações parentais e origem de tanto “stress” pedagógico. Falava ele na “leitura do mundo”, tridimensional, real, natural. Só depois de identificados, nomeados, manipulados, interiorizados estes “objetos”, do tamanho real à miniatura, estará a criança mais disponível para a passagem para leituras bidimensionais (fotografias, ilustrações, silhuetas e contornos, e escrita). Sylviane Rigolet, outra prestigiada professora e psicolinguista suíça, a trabalhar desde há longos anos em Portugal, explica bem esta questão ao falar numa “ordem de desenvolvimento das sucessivas leituras do mundo”. Não se percebe pois “certa pseudo-educação”, que obriga classes de bebés a escrever, em linhas e sobrelinhas, penosamente milimétricas, e depois arrepela os cabelos quando esses mesmos bebés, agora aprumados e desiludidos meninos de 1º ciclo, se debatem com dificuldades de numeracia e literacia.

Pode ser desafiador e divertido construir desenhos ponto-cruz nas quadrículas, como faz a ilustradora Madalena Matoso, que brinca com inúmeras possibilidades técnicas, sempre com resultados inesperados, do simples ao complicadíssimo, do literal ao autorreferencial.

 

 

Escrita de um fôlego e com a subtil profundidade a que Isabel Minhós Martins já nos habituou, a mais recente obra da Planeta Tangerina, “Nunca vi uma bicicleta e os patos não me largam”, consegue a proeza de convidar a olhar e ver para além dos imediatismos, a ler e ouvir para além das linhas escritas por um jovem narrador de primeira pessoa que nos conta as suas desventuras e desgostos: nunca viu um pato nem uma bicicleta (mas sabe tudo sobre patos e bicicletas). O livro, apresentado na Feira de Bolonha, lembra-nos que é preciso ver bicicletas e patos, e com eles voar para lá das contagens matemáticas e definições enciclopédicas. A subtileza do humor e crítica às falácias das supostas “educações” e “sistemas” que nos rodeiam transformam este volume em algo mais do que um livro de prateleira com um título bizarro: é um espelho, panfletário até aos limites do absurdo em que nos tornámos, em que nos tornam e/ou querem tornar (durante quanto tempo mais?).

Convém talvez recordar o sentido etimológico da palavra “escola”, cujo significado a Ana Madalena, do alto dos seus seis anos, nos ofereceu já: “A escola é ir ao recreio” (página 84 dos volumes X/XI de “Cancioneiro infantojuvenil para a língua portuguesa”). E deveria ser mesmo. Ou deveria ser mais. E nesse recreio haveria bicicletas e patos. “Para que o melhor da escola não seja só ‘ir ao recreio’. Para que na sala de aula mais se valorize o que no recreio se faz e o que no recreio, recre(i)ando-se, se aprende.”

 

livro “Nunca vi uma bicicleta e os patos não me largam”, de Isabel Minhós Martins [texto] e Madalena Matoso [ilustrações]
Planeta Tangerina, 2012
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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2 Comments

Filed under Ilustração, Literatura

2 responses to ““Nunca vi uma bicicleta e os patos não me largam”, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso

  1. Rita Cavaco

    De há uns anos para cá a disponibilidade dos livros de João dos Santos não tem sido a maior. Em sua substituição, mas também porque é essa a tendência da procura, são cada vez mais os livros disponíveis de autores (cuja especialidade nem são as ciências da educação) que pressionam a urgência do “brilhantismo” das crianças, e que defendem uma geração indigo (seja lá o que isso signifique).
    É apenas um desabafo, com a esperança de que mais livros como este – livres – nos continuem a chegar às mãos.

    Paula, obrigada pela sinceridade!

    Rita

    • Op.

      Rita,

      Que bom saber que João dos Santos não andou por cá a tentar semear utopias em vão – os valores incondicionais de respeito, humildade, sinceridade, autenticidade, concretizados numa forma única de comunicar afectos e inspirar, dia a dia, fazendo. Obrigada por partilhar connosco o desafio e a liberdade de assim pensar.

      Paula Pina

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