Celebrando 130 anos do nascimento de Monteiro Lobato

 

Era viciado em leituras, seduzido, ainda antes de saber ler, pelas gravuras que encontrava em livros e revistas nas estantes do escritório do avô, o Visconde de Tremembé. “A biblioteca de meu avô é ótima, tremendamente histórica e científica. Merecia uma redoma… Cada vez que me pilhava na biblioteca do meu avô, abria um daqueles volumes e me deslumbrava.” “Mais tarde te contarei a minha doença ‘delirium legens’, espécie de ‘delirium tremens’ dos bêbados. Leio tanto que quando vou para a cama meu cérebro continua a ler maquinalmente.” Ou ainda: “A civilização me fez ‘um animal que lê’, como um porco é um animal que come. Dois meses já sem leitura me vêm deixando estranhamente faminto: imagine Rabicó sem cascas de abóbora por 30 dias!”

Obrigado pela família a cursar Direito, Monteiro Lobato (18 de abril de 1882 – 4 de julho de 1948) devorava literalmente tudo o que lhe fosse parar às mãos, comprazendo-se com os clássicos e tomando então consciência da exígua quantidade de obras destinadas a olhos infantis. Fazendeiro, empresário, político, escritor, editor, envereda definitivamente pela produção de livros para crianças em 1926, depois do sucesso das traduções das suas obras no estrangeiro: “Ando com ideias de entrar por esse caminho: livros para crianças. De escrever para marmanjos já me enjoei. Bichos sem graça. Mas para as crianças um livro é todo um mundo. Lembro-me de como vivi dentro do ‘Robinson Crusoé’ de Laemmert. Ainda acabo fazendo livros onde as nossas crianças possam morar. Não ler e jogar fora, sim morar, como morei no ‘Robinson’ e n’’Os filhos do Capitão Grant’.”

 

 

Escreveu para crianças durante 24 anos. Começou com “Narizinho arrebitado”, em 1921 (com a junção de outras histórias, surgiu a obra “Reinações de Narizinho”). O trabalho de Lobato é um trabalho de continuidade, sempre em expansão: “Fábulas”, por exemplo, teve uma primeira edição, de apenas 24 páginas, aumentando o volume para 174 páginas no ano seguinte; o mesmo sucedeu com “Caçadas de Pedrinho”. “O Saci” (1921) foi o resultado de investigações iniciadas em 1917.

A lista de produção é imensa e aguarda edição portuguesa completa e atualizada. “Emília no País da Gramática” (1934), “Aritmética de Emília” (1935) e “Memórias de Emília” (1936), “Serões de Dona Benta” (1937), “Histórias de Tia Nastácia” (1937), “O poço do Visconde” (1937), “O picapau amarelo” (1939), “O minotauro” (1939) ou “Os doze trabalhos de Hércules” (1944) são certamente títulos conhecidos do público português, sobretudo graças às séries televisivas de sucesso, nomeadamente o “Sítio do picapau amarelo”, da Rede Globo, exibido entre 1977 e 1986.

 

 

Menos conhecidas talvez sejam as suas traduções dos contos de Perrault, dos irmãos Grimm ou de Andersen, de “Alice no País das Maravilhas”, “Robinson Crusoé”, “Robin Hood” ou “Peter Pan”. Algumas destas personagens, e muitas outras, oriundas do universo da animação (como Popeye), entram e saem dos seus livros com a naturalidade de quem sabe que por ali não há fronteiras.

A capacidade de renovação e as repercussões da obra de Monteiro Lobato na atual literatura infantil brasileira fizeram da sua data de nascimento o dia nacional do livro infantil no Brasil e abriram caminho a uma notável geração de autores como Ana Maria Machado, Fernanda Lopes de Almeida, J. Carlos Marinho ou Ruth Rocha.

 

 

Na sua obra, a presença do real e do maravilhoso, o fascínio pela história da Antiguidade, da mitologia aos temas populares e caseiros, a curiosidade e a imbatível criatividade, aliadas a um cunho didático, lúdico e poético, do irreverente ao humorístico e crítico, são acentuadas pela articulação, raríssima na época, entre imagem e texto.

Se um dos grandes segredos de Monteiro Lobato é a linguagem clara, dinâmica, de uma simplicidade cantante e desembaraçada, de uma coloquialidade rica, vernacular e afetiva, sem condescendentes infantilismos, outro dos encantos da sua escrita é a capacidade para a visualidade metalinguística, oferecendo, por exemplo, maravilhosas explicações de palavras difíceis, numa rara atitude de profundo respeito e admiração pela individualidade e identidade da criança.

 

 

“- Pois o segredo, meu filho, é um só: liberdade. Aqui não há coleiras. A grande desgraça do mundo é a coleira. E como há coleiras espalhadas pelo mundo!”

Por isso, hoje e sempre que precisarem, pequenos ou grandes podem sempre citar Monteiro Lobato: “- Cara de coruja seca! Cara de jacarepaguá cozinhada com morcego e misturada com farinha de bicho cabeludo, ahn!”

Se considerarem esta demasiado longa, podem optar pela sempre canónica expressão: “engenheiro cor de fiambre”!

 

 

Paula Pina

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1 Comment

Filed under Literatura, Televisão

One response to “Celebrando 130 anos do nascimento de Monteiro Lobato

  1. Gostei muito do site e de ver Monteiro Lobato em pessoa, olhos brilhando como os meus, na infancia devoradora de livros que nunca se acordou de mim.

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