“James e o pêssego gigante” e “Matilda”, de Roald Dahl e Quentin Blake

 

O que têm os livros de Roald Dahl de especial? Personagens repulsivas, descrições nojentas, situações absurdas, palavras chocantes – podemos inclusivamente variar a ordem de colocação dos adjetivos anteriores que o resultado será sempre o mesmo: são simples e maravilhosamente controversos e subversivos, plenos de intertextualidades e metalinguisticamente desafiadores. Depois de “Charlie e a fábrica de chocolate” e de “O fantástico Sr. Raposo”, traduzidos em 2011, a editora Civilização oferece-nos agora a oportunidade de reler “James e o pêssego gigante” (1961) e “Matilda” (1988), com as clássicas ilustrações de Quentin Blake. Os heróis, inesquecíveis nas suas fragilidades e solidão, ajudam-nos, como nas histórias tradicionais, a perceber como a inteligência, a persistência e a humildade podem vencer qualquer obstáculo – mesmo que esses obstáculos sejam adultos todo-poderosos, violentos, insensíveis, idiotas ou maléficos.

 

 

Se James é o típico órfão, explorado por duas tias hediondas depois da morte trágica dos pais, que escapa magicamente ao seu triste destino na companhia de estranhos e enormes insetos dentro de um pêssego gigante, Matilda, por seu turno, órfã sem o ser verdadeiramente, corresponde ao estereótipo da criança precoce, genial, ignorada e maltratada pela sua própria família, que encontra refúgio na leitura:

“Quando ela tinha um ano e meio, falava perfeitamente e sabia tantas palavras como os adultos. Os pais, em vez de a elogiarem, chamavam-lhe matraca e diziam-lhe severamente que as meninas pequenas são para se ver e não para se ouvir.

Aos três anos de idade, Matilda aprendeu a ler sozinha a olhar para os jornais e revistas que andavam pela casa. Aos quatro anos, já conseguia ler bem e depressa, e começou naturalmente a sentir grande vontade de ter livros. O único existente nesta casa tão instruída era qualquer coisa chamada ‘Cozinha Fácil’ que pertencia à mãe e, depois de o ler de uma ponta à outra e aprender todas as receitas de cor, Matilda chegou à conclusão que desejava algo mais interessante.

– Papá, será que podia comprar-me um livro? – pediu ela.

– Um livro? – espantou-se ele. – E pra [sic] que queres tu o raio de um livro?

– Para ler, papá.

– Qual é o problema da televisão, que diabo? Temos uma bela televisão com um ecrã de doze polegadas e, agora, vens pedir-me um livro! Estás a ficar mimada, minha menina!”

 

 

Não resistimos a transcrever a lista das obras lidas por Matilda, na biblioteca da sua pequena povoação inglesa, logo depois de “Grandes esperanças”, de Charles Dickens:

“Nicholas Nickleby”, de Charles Dickens
“Oliver Twist”, de Charles Dickens
“Jane Eyre”, de Charlotte Brontë
“Orgulho e preconceito”, de Jane Austen
“Tess dos Urbervilles”, de Thomas Hardy
“Gone to earth”, de Mary Webb
“Kim”, de Rudyard Kipling
“O homem invisível”, de H. G. Wells
“O velho e o mar”, de Ernest Hemingway
“O som e a fúria”, de William Faulkner
“As vinhas da ira”, de John Steinbeck
“Os bons companheiros”, de J. B. Priestley
“A inocência e o pecado”, de Graham Greene
“O triunfo dos porcos”, de George Orwell

 

 

A escrita de Dahl é, muitas vezes e por muitas vozes, apelidada de “vulgar”, “ofensiva”, “anti-pedagógica”, “instigadora de rebeldia” (de facto, a ironia, o humor cáustico e a provocação são evidentes). Todavia, talvez a leitura de uma passagem como a que se segue possa contribuir para a descoberta da profunda dimensão poética deste autor:

“A menina Honey parou com a mão pousada sobre a cancela, e anunciou:

– Lá está ela. É ali que eu vivo.

Matilda viu um estreito caminho de terra que seguia até uma casa minúscula de tijolo vermelho. Esta era tão pequena que mais parecia uma casa de bonecas do que um sítio onde uma pessoa vivia. Os tijolos das paredes tinham uma cor vermelha bastante clara e estavam velhos e quebradiços. A casa estava coberta por um telhado de xisto acinzentado com uma pequena chaminé, e tinha duas janelas na parede da frente. Cada uma delas não era maior do que a página de um jornal e percebia-se logo que a casa só tinha um piso. O caminho estava rodeado por um emaranhado de silvas, urtigas e ervas altas e acastanhadas. Um enorme carvalho lançava as suas sombras sobre a casa. Os seus ramos frondosos e robustos pareciam rodear e abraçar a construção minúscula e talvez escondê-la do resto do mundo.

A menina Honey, continuando a pousar a mão na cancela que ainda não tinha aberto, voltou-se para Matilda:

– Um poeta chamado Dylan Thomas escreveu uma vez uns versos e penso neles sempre que passo por este caminho – disse ela.

Matilda ficou atenta, enquanto a menina Honey começava a recitar o poema com uma voz admiravelmente serena:

‘Nunca, nunca, minha menina, que por todo o lado corres
Em terras de contos à lareira e de adormecidas encantadas,
Temas ou creias que o lobo com pele de cordeiro
Vai saltar a galopar, balindo e de ar brincalhão, minha menina querida,
Da toca numa cama de folhas, no ano molhado pelo orvalho
Para o teu coração comer na casa do bosque rosado.’

Seguiu-se um momento de silêncio, e Matilda, que nunca tinha ouvido a grande poesia romântica dita em voz alta, estava absolutamente impressionada:

– Parece música – murmurou ela.

– É música – afirmou a menina Honey.”

 

 

Para terminar, atentemos no final de “James e o pêssego gigante”:

“Todos os dias da semana, centenas e centenas de meninos, vindos de perto ou de muito longe, invadem a cidade para ver o maravilhoso caroço de pêssego no parque. E James Henry Trotter, que em tempos, se tu te recordas, era o menino mais infeliz e solitário que podia existir, agora, tem todos os amigos e companheiros de brincadeira do mundo. E, como há tantos a pedir-lhe para contar e voltar a contar a história das suas aventuras no pêssego, ele pensou que era boa ideia se um dia se sentasse e a descrevesse num livro.

E assim o fez.

E é esse livro que, agora, acabaste de ler.”

Para ler, silenciosamente ou em voz alta. Simplesmente Dahl-iciosos!

 

livro “James e o pêssego gigante”, de Roald Dahl [texto] e Quentin Blake [ilustrações]
Civilização, 2011
[a partir dos 8 anos]

livro “Matilda”, de Roald Dahl [texto] e Quentin Blake [ilustrações]
Civilização, 2012
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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