“Cartilha maternal”, de João de Deus [no Carrossel com Sara Amado]

 

Vamos ao segundo, o filho do meio. Era o mais novo, mas depressa encarnou o seu novo papel, grande ator que é. Vai para o 1º ano e até há bem pouco tempo não consegui imaginar isso a acontecer. Depois começou a fazer contas (treinado pelo B até à exaustão), a pedir trabalhos de casa e a ler pequenas palavras.

 

 

Tirei a “Cartilha” da prateleira. Chegou o momento. Fizemos umas lições há uns tempos e o T sentiu-se promovidíssimo. Como fiz com o B (como farei com o R, quando for a altura certa – se for a altura certa), passo agora com o T pelas lições da “Cartilha maternal” de João de Deus. O livro que usamos é o mesmo que a minha mãe usou comigo e que funcionou comigo.

 

 

Quando são bebés, os miúdos precisam de nós para tudo, e tudo é descoberta e espanto, para eles e para nós. Depois vão crescendo e a vida corre neles, fora de nós. É natural, é bom. Numa altura em que já são tão autónomos, é fascinante e surpreendente observar este começo, um novo olhar sobre a palavra, sobre o mundo. Ao mesmo tempo faz pena que comecem também a deixar de demorar-se tanto nas ilustrações, que comecem a perder os pormenores que nós, na preguiça da palavra, já há muito não vemos.

 

 

Sendo um livro da “velha guarda”, é um livro divertido, porque ao juntar na mesma página palavras começadas ou acabadas pela mesma letra ou sílaba, constrói uma espécie de poemas concretos nonsense tão ao jeito do T, que se ri perdido quando descobre as palavras que leu: vida idiota, boi boa, bota batata, bela fala fivela.

 

 

Na escola onde andam misturam o método fonético com o global. Da minha dupla experiência, é de facto assim que os miúdos começam a ler: reconhecem a imagem da palavra e depois associam o som às letras que vão conhecendo. A “Cartilha” segue o método fonético mas de um modo natural, um pouco ilógico até, pois não segue o abecedário de A a Z; antes, vai entrando na língua devagar, pelo lado conhecido, pelo lado fácil, para chegar aos vários valores que a letra pode ter, às exceções, ao caos, enfim, da bela língua portuguesa.

 

 

João de Deus dedica este livro às mães em 1875, e apresenta a “Cartilha” como uma escapatória ao “flagelo da cartilha tradicional”. Eu, que acho que a escola é um bem maior e não um mal menor (se for uma boa escola, bem entendido), gosto particularmente que seja ao lado da mãe que comecem a ler. Faz mesmo sentido que este novo abrir de olhos para o verbo venha de quem os trouxe no princípio até à carne.

 

Sara Amado [convidado do Carrossel Cria Cria*]

 

*O Cria Cria completou no início de junho um ano de vida. Como presente, pedimos um carrossel. O verão já chegou, e é no nosso carrossel, na companhia daqueles que ao longo deste ano nos ajudaram a crescer e a dar os primeiros passos, que queremos sentir a sua brisa quente. As nossas viagens serão feitas com outras crianças sem idade, como nós: escritores, editores ou distribuidores cujos trabalhos na área cultural e pedagógica para o público infantojuvenil nos motivaram e inspiraram ao longo destes 12 meses. Fieis ao lema de um antigo carrossel que garantia sempre “mais uma volta, mais uma emoção”, queremos que cada um desses nossos convidados passe um longo fim de semana connosco, partilhando a cada nova volta do carrossel uma nova emoção: propostas de paixões pessoais mais ou menos recentes neste campo (e não só…), ideias que nos tenham escapado e que sabemos que vão transformar o Carrossel Cria Cria numa aventura mais feliz e bonita. Em junho, julho e agosto, sempre à sexta feira, ao sábado e ao domingo, aqui brindamos à entrada no nosso segundo ano e aqui celebramos o solarengo estio – época em que, mais do que nunca, as crianças querem estar com os velhos amigos, conhecer novos, brincar, trocar conhecimentos e experiências… e ver a vida a andar à roda… Para continuar a fazer rodar o nosso Carrossel, temos neste fim de semana a companhia de Sara Amado, editora do blog Prateleira de Baixo, mas também arquiteta, designer, cenógrafa e professora de desenho.
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