“Hippopposites”, de Janik Coat [no Carrossel com Sara Amado]

E para acabar, o mais novo, que está a começar. Às vezes, ao fim do dia, nos dias em que está demasiado cansado para dançar ou correr desnorteado pela casa de braços ou carros no ar a dizer frases incompreensíveis com algumas palavras compreensíveis pelo meio, pede para ir para a cama com um livro.

O R continua a gostar dos dicionários de imagens e do livro da Ninoca (Maisy para os anglófonos), porque descobriu a maravilha das imagens animadas. Mesmo assim, apanho-o várias vezes a folhear os Asterix dos irmãos, não sei a pensar em quê.

Gosta de repetir as palavras que vamos dizendo e não se escusa a nenhuma, mesmo aquelas que têm sons que não consegue ainda articular. Os irmãos levam-no à exaustão com os treinos. A saber: falar, cantar, dançar, imitar ou reconhecer animais, futebol, ginástica.

Dizem que “agora os bebés já nascem ensinados”. Suspeito que isso se diz desde sempre, tal como se diz que “isto agora já não é o que era” ou que “não há tempo para nada”. Ora este livro pressupõe esses bebés de agora, que já nascem ensinados: ao lado dos vulgares conceitos de pequeno/grande, por exemplo, surgem pequenas pérolas como nítido/desfocado, aquadradado/arredondado, livre/enclausurado, invisível/visível. Se têm bebés ensinados, ora ensinem-lhes lá isto. Filosofia pura.

Uma espécie de opostos filosóficos para sub-dois – altura em que começa a verdadeira filosofia no verdadeiro sentido da palavra -, “Hippopposites” divide o mundo em branco/preto, alto/baixo, de frente/de lado. Mais tarde perceberão que às vezes há graus de cinzento, uma altura ali ao meio e um lado de trás das coisas; e que umas vezes isso é bom, outras nem por isso.

“Hippopposites” é pensado para os primeiros leitores, sim, mas também para os seus pais, tenho a certeza. E é uma provocação, uma bela provocação. Um hipopótamo, quase sempre vermelho-sangue-de-boi, apresenta os opostos de forma desconcertante, elegante, contemporânea, gráfica, divertida.

Quase não lhe compro livros porque os herda dos irmãos, mas este era demasiado clean & cool (veio dos E. U. A., mas é feito por uma francesa, pardon) para o deixar ficar do outro lado do oceano (as péssimas fotografias não fazem jus à beleza deste livro). Um excelente exemplo de desenho feito em computador, uma espécie de parente minimal da Delphine Chedru.

Elegeu rapidamente a sua página preferida e lê-a de formas mais ou menos ortodoxas, consoante o grau de sono. Gosta de sentir o macio/áspero enquanto dobra a língua, os lábios, os olhos, o nariz, a cara toda, enfim, para conseguir ao mesmo tempo articular algo de parecido com as palavras “macio” e “áspero”. E isso, acreditem, não é nada fácil.

 

Sara Amado [convidada do Carrossel Cria Cria*]

 

*O Cria Cria completou no início de junho um ano de vida. Como presente, pedimos um carrossel. O verão já chegou, e é no nosso carrossel, na companhia daqueles que ao longo deste ano nos ajudaram a crescer e a dar os primeiros passos, que queremos sentir a sua brisa quente. As nossas viagens serão feitas com outras crianças sem idade, como nós: escritores, editores ou distribuidores cujos trabalhos na área cultural e pedagógica para o público infantojuvenil nos motivaram e inspiraram ao longo destes 12 meses. Fieis ao lema de um antigo carrossel que garantia sempre “mais uma volta, mais uma emoção”, queremos que cada um desses nossos convidados passe um longo fim de semana connosco, partilhando a cada nova volta do carrossel uma nova emoção: propostas de paixões pessoais mais ou menos recentes neste campo (e não só…), ideias que nos tenham escapado e que sabemos que vão transformar o Carrossel Cria Cria numa aventura mais feliz e bonita. Em junho, julho e agosto, sempre à sexta feira, ao sábado e ao domingo, aqui brindamos à entrada no nosso segundo ano e aqui celebramos o solarengo estio – época em que, mais do que nunca, as crianças querem estar com os velhos amigos, conhecer novos, brincar, trocar conhecimentos e experiências… e ver a vida a andar à roda… Para continuar a fazer rodar o nosso Carrossel, temos neste fim de semana a companhia de Sara Amado, editora do blog Prateleira de Baixo, mas também arquiteta, designer, cenógrafa e professora de desenho.
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