“O sonho de Mateus”, de Leo Lionni

capa o sonho de mateus

 

Poderia ser suficiente anunciar, com a merecida efusão, a chegada às lojas portuguesas, marcada para hoje, de mais um maravilhoso livro de Leo Lionni (1910 / 1999), com a chancela da Kalandraka e tradução de Ana M. Noronha: “O sonho de Mateus” (“Mathew’s dream” no original, de 1991). Claro que nunca seria demais realçar que se trata de uma obra premiada (e pelo International Reading Association – Children’s Book Council) e uma das últimas do autor. Poderia até bastar recordar outros livros memoráveis e intemporais do prolífico e genial autor e ilustrador holandês, referindo como gerações pelo mundo recordam e acarinham obras como “Pequeno Azul e pequeno Amarelo” (1959), “Nadadorzinho” (1964), “A maior casa do mundo” (1968), “Frederico” (1968) ou os volumes de imagens para os pequeninos “O que é?”, “Onde?”, “Quando?” e “Quem é?”, obras tardiamente trazidas para Portugal – alguns dos motivos pelos quais estaremos sempre em dívida para com a Kalandraka.

Sobre “O sonho de Mateus” seria fundamental referir a técnica da colagem, o uso do espaço em branco, a riqueza cromática, a intencionalidade didática do autor ao propiciar um encontro com grandes obras da história da pintura por intermédio dos simpáticos ratinhos protagonistas. Até poderíamos acrescentar a expressividade e detalhe dos recortes e texturas, ou sublinhar a doçura humorística e a narratividade fluída, singelamente oralizada, quase infantil, de Lionni, atestada influência sobre um outro criador extraordinário: Eric Carle. Poderia ser suficiente. Mas não é.

 

leo lionni o sonho de mateus

 

Leo Lionni nasceu em Amesterdão, filho único de mãe cantora de ópera, cristã e holandesa, e de pai artesão, cortador de diamantes, judeu, de linhagem sefardita, em êxodo durante as perseguições empreendidas pela inquisição espanhola. A sua família, sobretudo os tios – Piet, arquiteto e marc chagall the green violinist amante da arte, e Willem, ávido colecionador de pintura de vanguarda e viajante anti-impostos -, oferecem a Leo oportunidades únicas de convívio com grandes obras da pintura contemporânea. Klee, Mondrian ou Kandinsky integravam a coleção que o tio armazenava em casa de Leo – aliás, quando saía dos seus aposentos, o pequeno Leo deparava com o rosto verde, o casaco violeta e o violino laranja de “The green violinist” (concebido entre 1923 e 1924, e agora patente no Guggenheim de Nova Iorque), de Marc Chagall, pendurado mesmo do lado de fora da porta do seu quarto.

Vivendo a pequena distância de dois museus ricamente apetrechados com telas de grandes mestres da pintura holandesa, Leo obteve uma autorização para por lá deambular, com o seu caderninho de esboços e restos de lápis dos trabalhos dos tios, em vez de ir jogar futebol com os colegas da escola. Afirma: “Quando me perguntavam o que queria ser quando crescesse, a resposta era sempre, sem hesitação, ‘um artista’.”

O sotão era o local favorito da casa, mágico, como todos devem ser, mas com uma particularidade: “Era-me permitido apanhar e colecionar as abundantes, variadas e muitas vezes malcheirosas provas da minha veemente paixão pela natureza.” O quarto tornou-se uma espécie de mini-zoo, sala de exposições e laboratório de botânica, povoado de caixas e caixinhas, gaiolas e aquários, terrários e reptilários, vibrante de criaturas pulsantes e incríveis, vivas e mortas, animais, vegetais e minerais.

Doutorado em economia (com tese, repare-se, sobre a indústria dos diamantes), designer gráfico, pintor, ilustrador, cartoonista, publicitário, escultor, arquiteto, artesão, músico, fotógrafo, editor, crítico, ensaísta, professor, escritor, botânico amador, criador de esculturas de bronze de plantas imaginárias, diretor de design da Olivetti e diretor artístico de revistas como a Fortune, a Print ou a Time/Life, Leo Lionni foi mentor e modelo para gerações de artistas emblemáticos que comissionou, contratou, apoiou, incentivou e orientou (Warhol, Calder, DeKooning, Léger, entre tantos outros…), colocando o seu racionalismo e sensibilidade ao serviço da arte e do talento, derrogando hierarquizações culturais e preconceitos, amando com a mesma paixão os clássicos e a vanguarda, a música e o design, a história e a inventividade que o futuro prometia.

 

leo lionni

 

Eis Leo Lionni, humanista poliglota e “praticante geral das artes”, como decidiu tornar-se aos 50 anos, abandonando uma carreira invejável na Time/Life e instalando-se, com pouco dinheiro, numa casinha antiga, feita de pedra, algures na Toscânia. Já avô, numa viagem de comboio entre Manhattan e Greenwich, Connecticut, uma súbita inspiração pedagógica (recurso de emergência para entreter Pippo e Annie, dois netos irrequietos) fê-lo repescar uma revista e criar, rasgando pedacinhos de papel colorido da revista Life, uma história que fez com que os passageiros levantassem os olhos das leituras, abandonassem as paisagens da janela e se deixassem embalar pela magia do momento em que um artista descobre um talento novo. Essa história veio a chamar-se “Pequeno Azul e pequeno Amarelo”, a estreia de Lionni no universo do álbum infantil. Hoje, perspetivando a obra de Leo Lionni, talvez possamos arriscar-nos a afirmar que, mantendo intacta a capacidade de pensar em imagens e a sua intrínseca vocação didática, os livros representam uma espécie de emblemático e sintético mostruário-objeto-vivo dos seus conceitos estéticos, filosofia e exemplo de vida – sabedoria e simplicidade, humor e lógica, em palavras, música, cores e abstrações.

Perante tudo isto, dizermos que Leo Lionni é autor premiado de 40 obras para crianças é como atirar um seixo para a água e observar as ondas concêntricas que cria, em expansão permanente. Perante tudo isto, assinalar a produção de álbuns para a infância implica também ativar a expressão de pasmo perante a estonteante, sideral e magnífica produção de uma carreira. De facto, os protagonistas das histórias são sapos, ratos, tartarugas, caracóis e borboletas, os mesmos que, sabemos agora, viveram no quartinho e no sotão daquele menino chamado Leo, que queria ser artista e que se tornou num artista. Nesta obra, o sonho de Mateus, o ratinho que percorre um museu e quer ser artista, cola-se ao sonho de Leo Lionni, prova incontestável de que, como ele dizia, “de algum modo, em algum lugar, a arte expressa sempre os sentimentos da infância”.

 

“O sonho de Mateus”, de Leo Lionni
Kalandraka, 2013
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

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