“Tantos animais e outras lengalengas de contar”, de Manuela Castro Neves e Yara Kono

capa tantos animais

 

Era uma vez uma menina, muito linda, certinha, e nada faladora. Chamavam-na até “menina da professora”. Um dia ficou de castigo: não por mentir ou por se estar a rir, mas por não saber fazer… contas de dividir. A menina chama-se Manuela Castro Neves. Tornou-se professora e ensinou durante 44 anos. Sabendo que o “medo do erro”, na ortografia e na matemática, conduz ao insucesso e à rejeição da leitura e da ciência, decidiu que não tinha medo do desafio e integrou o Movimento da Escola Moderna, esforçando-se por perceber o modo como as crianças pensam e aprendem, aproveitando o seu potencial criativo e lúdico, buscando um conhecimento dinâmico, co-construído e sistematizado, exigente mas divertido, baseado em experiências ricas e em partilhas únicas. Também dessa vocação de partilha nasceram muitos dos seus livros, hoje referências ao nível da pedagogia e didática: “Descobrindo a linguagem escrita” (1992), “Pedagogia intercultural” (1992), “Criar o gosto pela escrita” (1998), “Organização de trabalho na sala de aula – Uma prática alternativa” (2007) ou “Não os desiludas – Histórias da escola” (2011).

 

manuela castro neves

 

Deste percurso de vida emergem, igualmente, dois livros destinados aos mais pequenos, ambos com ilustrações de Madalena Matoso: “O elefante diferente (que espantava toda a gente)” (Caminho, 2009) e “Uma cadela amarela e vários amigos dela” (Caminho, 2012). Chega-nos agora “Tantos animais e outras lengalengas de contar”, publicado pela Planeta Tangerina – adequada celebração pelo merecido prémio de Melhor Editora Europeia do Ano, nesta 50ª edição da Feira do Livro Infantil de Bolonha. Esta obra, ricamente ilustrada por Yara Kono, figura, uma vez mais, como exemplo de personalidade e coerência estética, de organicidade e singularidade criativa, ao lado de quase 40 títulos que agregam excecionais talentos em design, ilustração, edição e escrita. Para breve, a Planeta Tangerina promete “Irmão Lobo”, de Carla Maia de Almeida, com ilustração de António Jorge Gonçalves.

 

tantos animais 1

 

Não sendo nova a ideia de explorar conceitos matemáticos por intermédio de lengalengas, sente-se no texto de “Tantos animais” a atenção dada a dificuldades específicas e a ligação efetiva aos conteúdos curriculares e metas de aprendizagem. Mais do que um recurso útil, o que destacamos será o divertimento genuíno, que se sobrepõe a uma rima menos conseguida. Ou seja, a sofisticação ou originalidade poética são sábia e conscientemente sacrificadas em favor das sonoridades, dos ritmos, da padronização e acumulação, partindo recorrentemente de motes fornecidos pela literatura oral e tradicional, sempre encantadores, divertidos e produtivos. Apetece de facto criar, manipular, investigar e refletir sobre os tais conceitos matemáticos, aritméticos e geométricos, com a naturalidade e fluidez de quem lê, canta, dança e joga.

 

tantos animais 2

 

De realçar o trabalho delicado e cuidadoso, inteligente e criativo, pleno de detalhes de ironia e doçura retro, de Yara Kono. A tridimensionalidade aplanada, geometrizante, espraiada nas páginas, convida ao uso do livro como tabuleiro de jogo, como cenário e percurso. Se a aprendizagem dos códigos de decifração é parte integrante da aprendizagem, diferenciando letras, números e desenhos, dominando convenções de escrita, apreendendo o caráter discreto das letras e números, ou a orientação de leitura da esquerda para a direita e de cima para baixo, por exemplo, então a desconstrução destes estereótipos permite à ilustradora ousadias visuais e gráficas que se multiplicam, se escondem, e aí permanecem, ocultas, à espera da descoberta, por vezes até numa espécie de jogo da “caça ao erro”: personagens que ora aparecem e desaparecem, animais que são números e letras, animais carimbados e numerados, símbolos, números e letras que são cenários e animais, colagens de pedacinhos de imagens ou textos, como estilhaços perdidos em diferentes páginas, texto em língua espanhola e em carateres orientais, onomatopeias, contrastes de perspetivas e planos, do detalhe mínimo ao vulto imenso. E claro, o humor. Quem se lembraria, “querida amiga”, que micro-pontos quadrangulares se poderiam agrupar e constituir vários daqueles pequenos montinhos aos quais devemos atentar, e de preferência evitar, quando caminhamos na nossa rua e contamos os passos que” vão da minha casa a tua”?

 

Paula Pina

 

tantos animais 3

 

livro “Tantos animais e outras lengalengas de contar”, de Manuela Castro Neves [texto] e Yara Kono [ilustrações]
Planeta Tangerina, 2013
[a partir dos 3 anos]

Advertisements

Leave a comment

Filed under Ilustração, Literatura

Leave a Reply

Fill in your details below or click an icon to log in:

WordPress.com Logo

You are commenting using your WordPress.com account. Log Out / Change )

Twitter picture

You are commenting using your Twitter account. Log Out / Change )

Facebook photo

You are commenting using your Facebook account. Log Out / Change )

Google+ photo

You are commenting using your Google+ account. Log Out / Change )

Connecting to %s