Clarice Lispector: uma exposição e quatro livros

clarice lispector 1

 

Diz Clarice Lispector: “Quando criança, e depois adolescente, fui precoce em muitas coisas. Em sentir um ambiente, por exemplo, em apreender a atmosfera íntima de uma pessoa. Por outro lado, longe de precoce, estava em incrível atraso em relação a outras coisas importantes. Continuo, aliás, atrasada em muitos terrenos. Nada posso fazer: parece que há em mim um lado infantil que não cresce jamais.”

Jornalista, nascida na Ucrânia e oriunda de uma família judaica perseguida, Clarice Lispector foi gerada como última tentativa de salvar a mãe: “fui preparada para ser dada à luz de um modo tão bonito. Minha mãe já estava doente, e, por uma superstição bastante espalhada, acreditava-se que ter filho curava uma mulher de uma doença. Então fui deliberadamente criada: com amor e esperança.”

 

clarice lispector 2

 

Com extensa e amada obra publicada, dispersa por livros, jornais e revistas, Clarice Lispector (10 dezembro 1920 / 9 dezembro 1977) é neste ano alvo de merecida atenção em Portugal, no âmbito do Ano do Brasil em Portugal, que a ela dedica a imperdível mostra “A hora da estrela”, patente na Galeria de Exposições Temporárias da Fundação Calouste Gulbenkian a partir de hoje, 5 de abril. Resultando de um trabalho de conceção e design inteligente, criativo, adequadamente minimal, de Daniela Thomas e Felipe Tessara, e com a curadoria de Júlia Peregrino e Ferreira Gullar (seguindo recomendações e pedidos do filho da escritora), mais do que uma perspetiva biográfica e cronológica, a exposição obriga-nos a olhar, a procurar, a descobrir as palavras, o olhar, a voz de Clarice Lispector, ao longo dos seis núcleos principais de que se compõe – revelando tanto quanto esconde, encenando tanto quanto de verdade e simplicidade descobre, em vislumbres etéreos e em transparências lúcidas, na branca negrura, dura, quotidiana e claustrofóbica, e em mil secretas gavetas se decompõe.

 

capa clarice lispector o misterio do coelho pensante

 

Clarice Lispector nunca escondeu o gosto de “escrever histórias para crianças e para gente grande”. Mas fica o aviso: “não minto para menino ou menina. Só minto às vezes, para certo tipo de gente grande porque é o único jeito. Tem gente grande que é tão chata! Vocês não acham? Eles nem compreendem a alma de uma criança.” Infelizmente, quase desconhecida em Portugal permanece a sua obra destinada aos mais pequenos. Contudo, graças à iniciativa da Relógio d’Água, desde final de 2012 que vimos publicados os seus livros em belíssimas novas edições. A chegar às livrarias por estes dias, temos “O mistério do coelho pensante”, texto escrito a pedido do filho Paulo (e inicialmente em inglês) e a sua primeira obra para crianças, publicada em 1967, numa época em que viviam nos Estados Unidos. No prefácio, a autora informa cuidadosamente que “deixou as entrelinhas para as explicações orais”, cabendo pois aos leitores a tarefa de criar soluções, deixando a proposta de para ela enviarem as possíveis versões do tal mistério do coelho. O fascínio pelo mistério, a ânsia de liberdade, o respeito pelas diferenças, e a ética da aceitação encontram-se presentes em outras das suas obras, como “A maçã no escuro” ou “Perto do coração selvagem”.

 

capa clarice lispector a mulher que matou os peixes

 

Outra obra já disponível é a deliciosamente autobiográfica e autorreferencial “A mulher que matou os peixes” (de 1968) – a morte acidental dos peixes, consequência das suas distrações de escritora, desencadeia a tentativa de sublimação através do poder da confissão e absolvição da escrita de histórias de animais de estimação. Em “A vida íntima de Laura” (de 1974), surge-nos um animal chave na obra de Clarice Lispector: a galinha. Em “Perto do coração selvagem” (de 1944), ou em “Quase de verdade” (de 1978), a galinha aparece-nos profunda e inquietantemente humanizada, numa escrita isenta de julgamentos, em que parecem dissipar-se as divisões convencionais entre os universos infantil e adulto. O mesmo se poderá afirmar acerca das doze lendas brasileiras (uma para cada mês do ano) que constituem a série etiológica “Como nasceram as estrelas” (de 1987, póstuma, e que será alvo de edição – igualmente com a chancela da Relógio d’Água – ainda neste ano), em que se movimentam a natureza e os animais, o índio e o caboclo, ou ainda criaturas míticas maravilhosas, como o Curupira, a Iara e o Uirapuru.

 

capa clarice lispector a vida intima de laura

 

O regresso às origens, concretizada no retorno às memórias de infância – feita de pureza e solidão -, ou no puro devaneio criativo ou obsessivo em torno da metáfora animal, genológica essência humana, surge bem patente nas crónicas da autora, por vezes dotadas de uma apaixonada consciência, simultaneamente maternal e infantil, mas sempre autêntica, questionadora, viva:

 

clarice lispector 3

 

“Suponhamos que se pudesse educar, ou não educar, uma criança, tomando como base a determinação de conservar-lhe os sentidos alertas e puros. Que se não lhe dessem dados, mas que os seus dados fossem apenas os imediatos. Que ela não se habituasse. Suponhamos ainda que com o fim de mantê-la em campo sensato que lhe servisse de denominador comum com os outros homens lhe permitisse certa estabilidade indispensável para viver, dessem-lhe umas poucas noções utilitárias: mas utilitárias para serem utilitárias, comida para ser comida, bebida para ser bebida. E no resto a conservasse livre. Suponhamos então que essa criança se tornasse artista e fosse artista. O primeiro problema surge: seria ela artista pelo simples fato dessa educação? É de crer que não, arte não é pureza, é purificação, arte não é liberdade, é libertação. Essa criança seria artista do momento em que descobrisse que há um símbolo utilitário na coisa pura que nos é dada. Ela faria, no entanto, arte se seguisse o caminho inverso ao dos artistas que não passam por essa impossível educação: ela unificaria as coisas do mundo não pelo seu lado de maravilhosa gratuidade, mas pelo seu lado de utilidade maravilhosa. Ela se libertaria. Se pintasse, é provável que chegasse à seguinte fórmula explicativa da natureza: pintaria um homem comendo o céu. Nós, os utilitários, ainda conseguimos manter o céu fora do nosso alcance. Apesar de Chagall. É uma das poucas coisas das quais ainda não servimos. Essa criança, tornada homem-artista, teria pois os mesmos problemas fundamentais de alquimia. Mas se homem, esse único, não fosse artista – não sentisse a necessidade de transformar as coisas para lhes dar uma realidade maior –, não sentisse enfim necessidade de arte, então quando ele falasse nos espantaria. Ele diria as coisas com a pureza de quem viu que o rei está nu. Nós o consultaríamos como cegos e surdos que querem ver e ouvir. Teríamos um profeta, não do futuro, mas do presente. Não teríamos um artista. Teríamos um inocente. E arte, imagino, não é inocência, é tornar-se inocente. Talvez seja por isso que as exposições de desenhos de crianças, por mais belas, não são propriamente exposições de arte. E é por isso que, se as crianças pintam como Picasso, talvez seja mais justo louvar Picasso que as crianças. A criança é inocente, Picasso tornou-se inocente.”

 

Paula Pina

 

5 abril > 23 junho
exposição “Clarice Lispector – A hora da estrela”
Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa
[a partir dos 11 anos]

livros “A mulher que matou os peixes” e “A vida íntima de Laura”, de Clarice Lispector
ambos Relógio d’Água, 2012
[a partir dos 7 anos]

livros “O mistério do coelho pensante” e “Quase de verdade”, de Clarice Lispector
ambos Relógio d’Água, 2013
[a partir dos 7 anos]

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Filed under Literatura, Ram Ram

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