“Irmão Lobo”, de Carla Maia de Almeida e António Jorge Gonçalves, e “O caderno vermelho da rapariga karateca”, de Ana Pessoa e Bernardo Carvalho

capa irmao lobo

 

“Irmão Lobo” chega-nos agora na sequência do fabuloso “O caderno vermelho da rapariga karateca” (2012), da contista premiada Ana Pessoa, que com ele se estreou no romance juvenil, inaugurando com chave de ouro (e com Prémio Branquinho da Fonseca 2011) a coleção que a editora Planeta Tangerina destina aos jovens: Dois Passos E Um Salto. A aceção de destinatário, neste caso, não restringe, antes reforça a ideia de que não há efetivamente idade certa ou errada para sermos leitores da Planeta Tangerina.

Ana Pessoa conseguiu criar uma obra de ironia cativante, com o seu ritmo despretensioso e inesperada graça autobiográfica, entre o diário e a crónica, mordaz e cómica, fervilhando personalidade, em transições complexas e equilibradas, desconcertantes, profundas, leves e tolas, nas doses corretas de credibilidade. Árdua tarefa a do escritor que escreve para adolescentes: ser genuíno escrevendo numa primeira pessoa de um “tempo em que já mas ainda não”, sem facilitismos e estereótipos desgastados. O trabalho de ilustração com uma paleta mínima, de Bernardo Carvalho, acompanha e ampara, revela e oculta, balança e retoma, conferindo solidez e respiração às emoções que do texto emanam.

 

capa o caderno vermelho da rapariga karateca

 

Também o premiado António Jorge Gonçalves parece dar-se muito bem com as palavras e ritmos de Carla Maia de Almeida. Contador de histórias por imagens, atento e acutilante, avassaladoramente múltiplo nos recursos, técnicas e percursos de experimentação, dividindo-se completa-se, único na sua poeticidade visual, António Jorge Gonçalves centra-nos no relevante, incompleto e essencial. Carla Maia de Almeida marca aqui a sua estreia como autora de romance juvenil, e, tal como Ana Pessoa, opta por contar as suas histórias numa modalidade diarística. No caso de “Irmão Lobo”, em hábeis cruzamentos surgem ora a voz de uma criança ora a dessa mesma personagem já enquanto adolescente. Ana Pessoa opta por uma pseudo-imediatez de registo; Carla Maia de Almeida faz-nos sentir o lastro da temporalidade, o exercício da memória, metódica, íntima, sofrida, poética, real e imaginária por certo.

“Irmão Lobo” assume a dimensão de dupla viagem iniciática em flashback  – a da criança que é obrigada a crescer por força das dificuldades vividas por uma família em violenta desagregação; a da adolescente que se torna adulta ao olhar para a infância. Unindo estas duas numa só voz, surge Malik, o cão-lobo, pelo de neve e olhos claros: a força, sabedoria, lealdade, o mestre, mentor e guia. Aquele que entende e aquele que acredita e que nos faz acreditar que é possível – o nosso Irmão Lobo.

 

Paula Pina

 

livro “O caderno vermelho da rapariga karateca”, de Ana Pessoa [texto] e Bernardo Carvalho [ilustrações]
Planeta Tangerina, 2012
[a partir dos 13 anos]

livro “Irmão Lobo”, de Carla Maia de Almeida [texto] e António Jorge Gonçalves [ilustrações]
Planeta Tangerina, 2013
[a partir dos 13 anos]

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Filed under Ilustração, Literatura

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