“As histórias de terror…”, de Chris Priestley e David Roberts

capa as historias de terror do navio negro

 

São daquelas histórias que tiram o sono das crianças mais corajosas. São daquelas histórias que fazem o mais forte correr a enfiar-se na cama dos pais. São daquelas histórias que se contam à volta da fogueira, que se leem à luz da lanterna, à lareira, enroscados no sofá, e que quando terminam nos fazem olhar repetidamente para trás, por cima do ombro, nos deixam a garganta seca, nos mostram sombras em que nunca antes reparámos. São histórias que acabam mal, mesmo, mesmo, muito mal…

No seu blogue, o autor, ilustrador, pintor e cartoonista Chris Priestley (nascido em 1958) escreveu: “As ideias podem encaixar-se em diversas categorias: há aquelas ideias que partilho alegremente e há aquelas que quero guardar para mim durante algum tempo. Há aquelas que quero experimentar em alguém, só para observar a reação, e depois há aquelas ideias que me deixam nervoso. Essas são provavelmente as melhores – é por essas que me interesso.”

 

capa as historias de terror da entrada do tunel

 

Criativos, irónicos, viciantes, estes volumes agora publicados em Portugal pela Arte Plural Edições, destinados a pré-adolescentes e jovens, vêm provar a perturbadora validade do que é potencialmente assustador. Eficazmente acompanhado pelas ilustrações magníficas de David Roberts, Priestley usa o medo e a malignidade de inspiração gótica como construção estética, assumida que é a dívida para com os clássicos, da literatura e do cinema: de Edgar Allan Poe a Tim Burton, de Mary Shelley a Ray Bradbury, de Montague Rhodes James a H. P. Lovecraft , passando por Shirley Jackson, Richard Matheson, e até, em certa medida, Roald Dahl e Lemony Snicket.

 

capa as historias de terror do tio montague

 

Apesar de serem diferentes os narradores em cada livro, mantêm-se tanto os ambientes (vitoriano e edwardiano) como a estratégia das histórias dentro das histórias: os episódios, que sem exceção têm como protagonistas crianças ou jovens, são contados, em sequência, por esses narradores adultos, às crianças ouvintes, que os narram, por seu turno, ao leitor. Com a lucidez de quem sabe que o mundo não se divide em bons e maus, Priestley cria personagens saudavelmente feitas de bem e de mal, revelando-nos, com crueza, aquilo que somos, e mostrando que não vale a pena escondermo-nos de nós próprios. O medo, tão temido e debatido, adorado e escamoteado, doutrinário e didático, libertário e provocador, tão humano quanto o mito, representa a inteligência: a de quem conta e a de quem ouve, a de quem escreve e a de quem lê. Nascendo do perigo e da incerteza, do que não compreendemos e do que não faz sentido, o medo representa também aquilo que pode ser superado. Sim, mesmo para ter medo, é preciso coragem.

E vale também a pena espreitar o divertido e adequadamente assustador site do autor

 

Paula Pina

 

livros “As histórias de terror do Tio Montague” e “As histórias de terror da entrada do túnel”, de Chris Priestley [texto] e David Roberts [ilustrações]
ambos Arte Plural / Bertrand, 2012
[a partir dos 9 anos]

livro “As histórias de terror do navio negro”, de Chris Priestley [texto] e David Roberts [ilustrações]
Arte Plural/ Bertrand, 2013
[a partir dos 9 anos]

 

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Filed under Ilustração, Literatura

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