Ana Biscaia, 17º Prémio Nacional de Ilustração

capa a cadeira que queria ser sofa

 

Clovis Levi (nascido em 1944), escritor, dramaturgo, encenador, diretor, crítico e professor brasileiro, já se fizera notar em Portugal com “O beco do pânico” (Calendário das Letras, 2009), incluído de imediato no Plano Nacional de Leitura, por entre o desconforto de uns e a hesitação de outros, por entre as convicções de muitos e os medos de imensos. Explique-se a razão: a descoberta da sexualidade continua tema tabu, mesmo numa escola que apregoa o arrojo educativo e se autodesigna de “futuro”. Aparentemente, as dimensões disruptivas de “A cadeira que queria ser sofá.”, aposta da editora Lápis de Memórias, parecem ter fascinado o júri deste 17º Prémio Nacional de Ilustração, hoje atribuído. Os três contos de que é composta a obra vão para além das abordagens pseudo-psico-educativas rasteiras, com base em personagens antropomorfizadas, aos temas da morte, da perda, da angústia, da obsessão, da solidão: as histórias, profundas e irónicas – a do rei que proíbe a morte, aqueloutra do bombom que aguarda a sua vez de ser comido, e a da cadeira antiga da bisavó –, e as ilustrações, proclamam a sua simbiose a cada página.

 

ana biscaia a cadeira que queria ser sofa

 

O trabalho de ilustração de Ana Biscaia escapa ao formato convencional e é manifestamente exigente, picturalista, variado nos materiais e técnicas composicionais. Mas é na relação texto/imagem, que coloca o leitor em permanente estado de deslocação, sacrificando por vezes a legibilidade do texto, que reside o maior fascínio de “A cadeira que queria ser sofá.”. Os detalhes surpreendentes, a presença da mão que desenha, pinta, escreve, desde o logotipo às guardas, a proximidade da BD e a sedução cativa do inacabado, do manuscrito (des)alinhado do scrap book, por exemplo, oferecem amplo e produtivo terreno para teorização académica, como prova o texto de Leonor Riscado que acompanha a obra.

O júri do Prémio Nacional de Ilustração considerou ainda de relevo “O quebra-cabeças”, de Mariana Rio e Helena Carvalho, da editora Eterogémeas. Para nosso contentamento, as menções especiais foram atribuídas à “Antologia poética” de Mário de Sá-Carneiro, ilustrada por Tiago Manuel (da Faktoria K de Livros), e a “Mar“, com ilustrações de André Letria e texto de Ricardo Henriques (da Pato Lógico).

 

Paula Pina

 

livro “A cadeira que queria ser sofá.”, de Clovis Levi [texto] e Ana Biscaia [ilustração]
Lápis de Memórias, 2012
[a partir dos 8 anos]

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Filed under Ilustração, Literatura

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