“O sol livro”

capa o sol livro

 

Custou 35 escudos. Foi autorizado nos termos do despacho ministerial de 4/6/75. A editora, Livros Horizonte, Lda., sita na Rua das Chagas, 17-1.º Dt.º, Lisboa-2, fez desta primeira edição uma tiragem de 25000 exemplares, em outubro de 1976. O arranjo gráfico e artístico coube a Manuel Correia. São 73 textos e 73 autores, 125 páginas. O que surge na capa, após o título, é “Leituras para a 2.ª fase / 2.º ano do Ensino Primário”. Houve quem lhe chamasse “livro de leitura” e “manual”. Bizarra recomendação esta, vinda de alguém que sempre abominou “manuais”, base de mortificadas aprendizagens de alunos, principal recurso pedagógico e suporte de aulas de professores, sorvedouro de mais de 85% das despesas mundiais com materiais escolares, negócio fundamental para o universo livreiro e fonte de agonia sazonal para famílias…

Na verdade, o que me fez guardar “O sol livro” até hoje – colorido a caneta de feltro Molin aqui e ali, enfeitado acolá, recortado acoli (sim, confesso, não escapou às investidas de uma certa tesoura em mãozita rechonchuda), esfiapado na lombada, marcado na contracapa por fileiras de marcas de escrita fina com esferográficas Bic laranja ou escrita normal com Bic cristal, vestígios de ser, amorosa e persistentemente, usado como base de escrita e fonte de inspiração -, foi o facto de, contrariamente aos “manuais”, “livros de leitura” e demais cadernos pedagógicos, livros do professor ou do aluno, livros de fichas, livros de atividades, livros de exercícios, portefólios, cd-rom, e-manuais, e toda a restante panóplia exigida como adequado lastro de mochilas de qualquer criança, estas “leituras” serem verdadeiramente livres, sensíveis, únicas – respiram e deixam respirar, descobrem e permitem a descoberta.

Graças ao trabalho de seleção arguto, doce e mágico de Matilde Rosa Araújo, conheci sem saber que aprendia, memorizei sem decorar. Textos e imagens encheram-me as retinas de sons e cores, palavras e histórias. Não era preciso seguir uma ordem específica, não havia perguntas de interpretação ou exercícios. Naturalmente, e porque queria saber mais sobre a Beatriz que salvara o plátano, dei por mim a procurar nas prateleiras da biblioteca a autora de nome estranho, quase destrava-línguas, e a ler de seguida “Faísca conta a sua história”, “Um artista chamado Duque” e “O mundo em que vivi”, de Ilse Losa. O mesmo sucedeu com a Joana e o Manuel de “A noite de Natal”, de Sophia de Mello Breyner Andresen. E assim vieram também Irene Lisboa, Maria Rosa Colaço, António Torrado, Luísa Ducla Soares, Maria Alberta Menéres, Miguel Torga, Alves Redol, Aquilino Ribeiro, Soeiro Pereira Gomes, Afonso Lopes Vieira, Sebastião da Gama, António Nobre, António Botto, António Gedeão, Eugénio de Andrade, Jaime Cortesão, José Gomes Ferreira, Adolfo Casais Monteiro, Raul Brandão ou Sidónio Muralha (nunca a letra V foi tão maravilhosa como em “Cabelo ao vento, Valéria avançava no vale, no verde vale, Valéria”). Outros autores, hoje quase esquecidos, como Patrícia Joyce (“Romance da gata preta – Fábulas e outras poesias”), Henrique Galvão (“Impala” e “Kurika – Romance dos bichos do mato”), Maria Cecília Correia (“Histórias da minha rua”) ou Maria do Carmo Rodrigues (como gostei da “D. Trabucha, costureira bucha”!), permanecem intocáveis na minha memória.

As vozes lusófonas de Kalungano, Baltasar Lopes, Papiniano Carlos e de Alda Lara, de Manuel Bandeira, Cecília Meireles, José Mauro de Vasconcelos ou de Lília da Fonseca, juntam-se às de García Lorca e de Gabriela Mistral, figurando ao lado de pátrios Fernão Lopes, Luís de Camões, Alexandre Herculano, Almeida Garrett ou Fernando Pessoa. Textos da literatura oral e tradicional, de Leite de Vasconcelos a António Aleixo, entrelaçam-se com poesia experimental de Salette Tavares e de Cassiano Ricardo. Recordo-me de ir procurar o resto da história da “Menina dos fósforos”, de Hans Christian Andersen, seguindo o gentil conselho de Matilde, e da tristeza avassaladora que a narrativa provocou.

Foi também ao folhear “O sol livro” que os traços dos meus desenhos infantis se modificaram (imitando, inconscientemente, as ilustrações de Maria Keil) e que os pescoços das minhas bonecas se alongaram misteriosamente (ao estilo de “Alice”, de Modigliani). Almada Negreiros, Amadeo de Sousa-Cardozo, Renoir, Manet, Vieira da Silva, Sarah Afonso, Malhoa, Augusto Gomes, José de Guimarães, Cargaleiro, Picasso, Mondrian, apareciam a cada página, em reproduções, fotografias e desenhos.

Se me surpreendi com as minúsculas histórias de Mário Castrim (como podia uma história ser tão pequena e encantadora?), também reencontrei a “canção da gaivota voava, voava” (na verdade, “Somos livres”, de Ermelinda Duarte e Joaquim da Silva) que ouvíamos na rádio e que cantávamos em altos gritos no recreio, ostentosamente desafinados e mastigando o verso “somos um povo que cerra fileiras”, cujo significado nos escapava…

Neste “O sol livro”, o mesmo respeito devido aos grandes autores é dado aos desconhecidos. Sempre me pareceu que o Luís Filipe, da Escola Primária n.º 1 – 3.ª classe, Almada, e que o Francisco Augusto da Silva Cordeiro Piloto, da Escola Preparatória Prof. António Pereira Coutinho (secção da Cidadela), deviam ser mesmo muito inteligentes, queria muito conhecê-los e dizer-lhes que tinha gostado das suas “composições”!

“O sol livro” ilumina ainda porque nasceu da sabedoria extraordinária e intemporal de Matilde Rosa Araújo, professora e pioneira na renovação da poesia destinada aos mais pequenos, mas sobretudo construtora de afetos, defensora dos direitos da criança e de valores excecionais como a liberdade, a criatividade, a solidariedade, o respeito e o amor pelo outro e pela literatura infantil.

É incrível o poder que pode ter o que colocamos, tantas vezes sem pensar, nas mãos das crianças. Os manuais, como as varinhas mágicas, têm o condão de transformar não apenas os ratinhos em cavalos e as abóboras em carruagens, mas também de modificar, para sempre, e de maneiras imprevisíveis, quem os segura. Por isso, formulo aqui um desejo: que todos os “manuais” possam um dia transformar-se em verdadeiras “leituras”, e que todos os que neles tocam se transformem em seres humanos leitores, de livros, de si, dos outros, e do mundo.

 

Paula Pina

 

versão integral do texto originalmente concebido para o guia “Biblioteca Fnac Kids – 100 livros que crescem contigo

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Filed under Artes plásticas, Educação, Ilustração, Literatura, Ram Ram

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