“Boa noite, mocho!”, de Pat Hutchins

capa boa noite mocho

 

Depois do fenomenal – e único! – “O passeio da Dona Rosa“, obra de estreia da autora e ilustradora Pat Hutchins (nascida em 1942), em 1968, eis que a Kalandraka nos oferece agora a reedição portuguesa de um seu outro clássico: “Boa noite, mocho!”, de 1972, que chega hoje às lojas. Felizmente, graças à excelente tradução de Carla Maia de Almeida, os leitores portugueses conseguem aceder à musicalidade intrínseca do original, e sem perder o necessário ritmo poético de lengalenga. Na realidade, as onomatopeias específicas da língua inglesa causam habitualmente algumas dificuldades aos tradutores, e tanto assim parece ser que, de quando em quando, nos deparamos com obras “recomendadas” nas quais os gatos fazem “mew-mew”, os cães ladram “chew-chew”, as baleias respiram “bubble-bubble” e os macacos comunicam com “munch-munch”… Pois neste “Boa noite, mocho!”, cada zumbido, chilreio, grasnido e similar, emitido pelas vozes da variada animália diurna que mantém o mocho acordado, é acompanhado pela respetiva sonoridade, e a cada aparição das novas personagens que se juntam neste coro improvisado, a dez vozes, no poleiro da árvore, acresce o prazer da identificação e do jogo da memória.

 

pat hutchins boa noite mocho

 

O cenário natural, aparentemente imutável, acolhe minúcias delicadas e assume qualidades zoomórficas, proporcionando múltiplas situações de descoberta e revelando-nos a sorridente complexidade da simplicidade. A estilização e uso inteligente da cor, equilibrado com padrões, nos quais reconhecemos a marca da autora, complementam o humor das micro-expressões, gestos e olhares plenos de sentido.

Claramente apetecível para sala de aula, para pré-leitores e leitores emergentes, “Boa noite, mocho!” consegue escapar, com sábia singeleza, ao estereótipo do livro-catálogo, mero “exercício para ensinar e aprender” as vozes dos animais. Ótima história para adormecer meninos, decerto, mas também irónica e desafiadora – natalícia até, dissemos nós, quando, ao cair da noite, a árvore surge, vista sob uma nova perspetiva, e a descobrimos enfim, adornada e pulsante de vida.

 

Paula Pina

 

livro “Boa noite, mocho!”, de Pat Hutchins
Kalandraka, 2013
[a partir dos 12 meses]

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Filed under Ilustração, Literatura

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