“Os mil brancos dos esquimós”, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso

capa os mil brancos dos esquimos

 

Lembramos, neste primeiro dia de inverno, o belíssimo álbum “Os mil brancos dos esquimós”, obra editada pela Oqo, premiada em 2009, sobre a qual a própria ilustradora, Madalena Matoso, nos falou já aqui, em entrevista exclusiva ao Cria Cria – vale a pena recordar as suas palavras: “O texto fala sobre a capacidade que os povos que habitam no ártico têm de distinguir e nomear diferentes cores onde nós (que não vivemos rodeados de neve) vemos apenas ‘branco’. Quando fiz as ilustrações, procurei criar uma sequência de imagens que transmitisse a experiência de conhecer diferentes tons de branco. Assim, as primeiras páginas são de um branco liso, sem textura, e à medida que as vamos passando, as cores tornam-se mais variadas, as texturas mais trabalhadas, com mais pormenores. Como se o leitor, ao ler o livro, ganhasse a capacidade de ‘ver’ diferentes brancos. Na altura em que estava a trabalhar neste livro, andei à procura de fotografias sobre os esquimós para saber melhor como eram as casas, as aldeias, as roupas, etc. Encontrei alguns arquivos fotográficos com imagens do início do século XX e fiquei completamente fascinada. Se houve a fase em que andava mergulhada no estranho mundo dos retratos de família (como já contei aqui), desta vez, andei perdida uns tempos no mundo branco dos inuit.”

 

ilustracao madalena matoso 9 pormenor

 

De facto, desde sempre ouvimos dizer que os esquimós são capazes de nomear muito mais brancos ou tipos de neve do que os falantes de outras origens geográficas. Mesmo que os “mil brancos” sejam mais ficção do que realidade, mesmo que antropólogos e linguistas, de Franz Boas a Lawrence Kaplan, de Laura Martin a C. W. Schultz-Lorentzen e Geoffrey K. Pullum, amontoem provas e estudos, a ideia continua a ser maravilhosa. Talvez a partir da descoberta das mil brancuras do Ártico, trazidas pela voz deliciosamente infantil de um pequeno inuíta que a escrita de Isabel Minhós Martins cria, ou talvez a partir dos recortes e colagens de matérias recicladas, em harmoniosas sobreposições, criando perspetivas variadas e proporcionando descobertas visuais – talvez assim possamos manter a ficção, homenagear um povo e um modo de vida, consagrar a lenda, e recordar essa ancestral capacidade de olhar, descobrir, conhecer e nomear, em edénico conhecimento puro, os mil brancos que no branco existem.

 

Paula Pina

 

livro “Os mil brancos dos esquimós”, de Isabel Minhós Martins [texto] e Madalena Matoso [ilustrações]
Oqo, 2011
[a partir dos 3 anos]

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Filed under Ilustração, Literatura

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