“O meu avô”, de Catarina Sobral

capa o meu avo

 

O lançamento do terceiro livro de Catarina Sobral (nascida em 1985), intitulado “O meu avô” e editado pela Orfeu Negro, está agendado para este próximo domingo, 9 de fevereiro, pelas 15:30, num evento com entrada livre, na emblemática livraria Ler Devagar (Lx Factory, em Alcântara, Lisboa). Preparem-se os admiradores da autora para uma sessão de deslumbramento, refrescante de simplicidade, inteligência e arte. Já aqui dedicámos espaço ao comentário dos seus álbuns anteriores: “Greve” e “Achimpa”. Com “O meu avô”, Sobral parece abandonar as ousadias gráficas e irónicas elaborações icónico-linguísticas que a distinguiram, para agora se aventurar pelos caminhos da literalidade, com um texto que arrumadamente legenda ilustrações do quotidiano de um avô, narrado pela voz infantil de primeira pessoa do seu neto. Mais do que um livro-homenagem, “O meu avô” oferece-nos uma reflexão sobre o conceito de tempo, sobre a sua passagem e sobre o que dele fazemos.

 

catarina sobral o meu avo 1

 

Todavia, sob a aparente singeleza e escorreita discursividade esconde-se um livro plurirreferencial (e multilinguístico), em que as diferenças e semelhanças das ações do dia a dia, interesses e personalidades das personagens (o avô e o Dr. Sebastião) se encontram, cruzam e entrecruzam em palindrómicos efeitos, planos, perspetivas e movimentos. Se inicialmente as duas vidas são apresentadas como entidades opostas (separadas rigidamente em imagem e discurso, e sublinhadas pela escolha dominante dos grandes opostos no círculo cromático – o vermelho e o verde), depressa essas diferenças transmutam em contrapontístico filme à la Jacques Tati, falando-se sempre do avô, mesmo quando as imagens nos mostram o Dr. Sebastião. A ironia é a do sorriso e a da ternura, enformada pelas referências artísticas, a Fernando Pessoa e Almada Negreiros (“o meu avô escreve ridículas cartas de amor… durante horas a fio”), a Édouard Manet (“Faz vários piqueniques na relva, durante a semana… comme il faut”) e até a Andy Warhol – o delicioso pug, cão de realeza, estrelas e notáveis, cão de quadros, de fotografias e de escritas, multum in parvo (muito em pouco), merece nota de rodapé. Também Catarina Sobral consegue a proeza de, mais uma vez, do pouco fazer muito, desvendando o muito que se pode encontrar no pouco – e fá-lo, como poucos, passeando-se, com segurança e criatividade, entre texto e ilustração.

 

catarina sobral o meu avo 2

 

Catarina Sobral foi a única ilustradora de nacionalidade portuguesa selecionada para integrar a mostra internacional de ilustradores da Feira Internacional do Livro Infantil de Bolonha deste ano, precisamente com cinco imagens desta obra. Isabel Minhós Martins, da editora Planeta Tangerina, foi um dos membros do júri. Saliente-se que a icónica feira, que se realiza desde 1964, comemora 50 anos e terá o Brasil como país convidado de honra, com o slogan “A land full of voices”. Oportunidade extraordinária para conhecer a obra de ilustradores de referência ou em ascensão, com fortíssimos concorrentes orientais, oriundos sobretudo do Japão, cujos trabalhos poderão ser apreciados entre os dias 24 a 27 de março.

 

Paula Pina

 

livro “O meu avô”, de Catarina Sobral
Orfeu Negro, 2014
[a partir dos 3 anos]

 

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Filed under Ilustração, Literatura

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