“Presos”, “Este alce é meu” e “Como apanhar uma estrela”, de Oliver Jeffers

capa oliver jeffers como apanhar uma estrela

 

Já aqui destacámos, com entusiasmo incontido, a obra de Oliver Jeffers (Austrália, 1977). Criado e educado em Belfast, este artista, pintor, escritor e ilustrador vive atualmente em Nova Iorque. Os livros que “faz” (como prefere dizer), a um ritmo estonteante para um período de tempo relativamente curto, têm recebido elogios da crítica especializada e atingido sucesso de venda em Portugal, sobretudo graças ao trabalho cuidado e apaixonado da editora Orfeu Negro. Já aqui demos notícia da publicação, não cronologicamente exata, de diversos volumes, e valeria a pena, num outro contexto, explorarmos esse percurso criativo.

 

oliver jeffers por malcolm brown

 

Na escrita de Jeffers, cada palavra tem um peso muito próprio, e é delicadamente manipulada (elogio merecido ao tradutor), no interior da sofisticação conscientemente burilada da narrativa e das emoções complexas, profundas, desconcertantes até, sem concessões simplistas – mesmo que as histórias sejam protagonizadas por personagens de corpo bizarro, sem pés, com estranhas pernas feitas a traço de linha, e com olhos reduzidos a pontos minúsculos, quase em risco de desaparecerem.

 

capa oliver jeffers este alce e meu

 

A ousadia minimalista, esquemática, de Jeffers, é sedutora e profundamente poética, como se pela ausência, pela simplicidade, o alcance das imagens fosse realçado. Mas o artista não fica por aqui: encontramos referências sofisticadas a elementos científicos e matemáticos; misturadas com colagens, descobrimos técnicas convencionais de pintura, homenagens a obras de autores clássicos (atente-se nas paisagens do pintor Alexander Dzigurski em “Este alce é meu”), vários registos gráficos, tipográficos e multi-materiais; o jogo com os espaços das páginas, que nos silenciam e respiram; as invocações discursivas da banda desenhada; a objetualidade do suporte intervencionado, recortado, até aos limites da auto-ironia (como é o caso de “O incrível rapaz que comia livros”).

 

capa oliver jeffers presos

 

Em qualquer uma das suas obras publicadas por cá nos últimos meses (“Como apanhar uma estrela”, “Este alce é meu” e “Presos”), temos protagonistas curiosos, desejosos de saber mais, arriscando o desapontamento e as limitações da posse, mas percebendo como, quando confrontados com problemas e com os grandes dilemas existenciais, por vezes, uma só coisa, pequenina, desde que estejamos disponíveis para olhar, pode fazer toda a diferença; descobrindo que realidade e imaginação não se excluem mutuamente – antes se acarinham, cultivam e completam, mesmo quando parecem instâncias absurdas na sua individualidade.

Jeffers é um contador de histórias, um artista e um cientista da visualidade e da palavra em sincrético processamento: por isso, parece-nos, escolheu o campo de criação ideal. Porquê? Precisamente porque a palavra “porquê” é, para Oliver Jeffers, a palavra mais importante de todas.

 

Paula Pina

 

livro “Presos”, de Oliver Jeffers
Orfeu Mini, 2012
[a partir dos 3 anos]

livro “Este alce é meu”, de Oliver Jeffers [texto e ilustrações] e Alexander Dzigurski [pinturas]
Orfeu Mini, 2013
[a partir dos 3 anos]

livro “Como apanhar uma estrela”, de Oliver Jeffers
Orfeu Mini, 2013
[a partir dos 3 anos]

 

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Filed under Artes plásticas, Ilustração, Literatura

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