Category Archives: Artes plásticas

Morteza Zahedi [no Carrossel com Joana Mendes]

 

Morteza Zahedi é um artista e ilustrador iraniano, nascido em 1978, que vive em Teerão, e que será mais conhecido em Portugal através das suas participações na Ilustrarte. “Criar um mundo novo e desconhecido” é o seu objetivo em cada trabalho, e neste Carrossel proponho que o observemos através das suas Continue reading

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“O meu caderno de atividades”

 

Na linha dos tradicionais livros de férias, a Edicare apresenta este verão dois cadernos com 60 propostas de atividades para o público pré-escolar. Num muito apelativo formato mala (e por isso facilmente transportáveis para qualquer destino e paragem destes meses), constituem uma boa ferramenta de trabalho quando Continue reading

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Nós, os outros e o lugar [no Carrossel com Gémeo Luís]

 

Sentir e viver o lugar é saber quem fez o quê, como, quando e porquê… Crescer com essa noção é construir um mapa. Um mapa de saberes, personalidades, experiências, lugares, edifícios, livros, objetos, situações, pessoas, sons, ideias, na arquitetura, na ciência, no design, no desporto, na música, no cinema, na literatura, na pintura, um mapa do presente e do passado do nosso lugar, seja ele o Continue reading

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“Tarefas infinitas”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

A nova mostra que o Museu da Fundação Calouste Gulbenkian apresenta ao público nesta sexta feira (e que aí estará patente até ao mês de outubro) inscreve-se como uma proposta de ensaio e reflexão sobre as inumeráveis potencialidades semânticas e dialógicas do livro enquanto objeto de arte. Partindo do seu caráter matérico, averigua-se a hipótese do homem se alcançar ao infinito pelo finito. O livro, o conhecimento e a arte são um dever comum que Continue reading

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“O moinho e a cruz”, de Lech Majewski

 

“Die kreuztragung Christi” (comumente conhecido em Portugal como “Subida ao Calvário”), de 1564, é a tela de maiores dimensões do pintor flamengo Pieter Bruegel, O Velho, aquela em que faz figurar 500 personagens, centradas num eixo que propositadamente mantém velado – a cruz. O cineasta polaco Lech Majewski dá vida a este “quadro que conta muitas histórias”, numa magistral peça metacinematográfica. Um retrato sociológico e histórico que o cineasta, à maneira de Bruegel, faz coadunar com uma Continue reading

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António Palolo e Jef Geys na Culturgest, Lisboa

 

A mostra que propõe “Os filmes” de António Palolo reúne algumas das peças do espólio videográfico do pintor e artista plástico eborense, produzidas entre o final dos anos 60 e 1978. Os primeiros filmes são composições animadas a preto e branco, conjugando elementos iconográficos reclamados a períodos que se estendem da Continue reading

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David Pintor na Papa-Livros, Porto

 

Pode ser vista a partir de hoje (abertura agendada para as 3.30) e até ao final do mês de maio, na livraria Papa-Livros, Porto, uma exposição de um dos mais talentosos ilustradores ibéricos, David Pintor. A Kalandraka – que editou “Minimalário” e “Contos para meninos que adormecem logo a seguir” (livros partilhados com Carlos López, seu companheiro de longa data, e assinados com o nome artístico pelo qual a dupla é conhecida: Pinto & Chinto) – convida todos a estar presentes na sessão inaugural, que contará com a presença do autor espanhol. David Pintor começou por Continue reading

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“Desenha o teu livro”, de Stéphane Nicolet

 

Quase todas as crianças gostam de desenhar. Mas há quase sempre uma altura em que começam a espreitar pelo canto do olho e a ver que o colega do lado desenha melhor do que elas. Neste livro, o ilustrador Stéphane Nicolet convida os mais jovens a entrar no seu ateliê e a serem seus aprendizes. O mais importante é a imaginação, claro está, mas Nicolet fornece aquelas dicas que podem fazer a diferença. Aborda e aplica algumas noções fundamentais de desenho e geometria, como escalas, proporções, planos de distância (fundo, horizonte, etc.), ângulos picados e contrapicados, mostrando de uma forma simultaneamente hábil e divertida que as imagens podem compreender vários sentidos e gerar diferentes ambiências conforme o modo como são desenhadas. Transformar um gatafunho num Continue reading

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Nikias Skapinakis no Museu Berardo, Lisboa

 

Abre hoje ao fim da tarde e pode ser vista até ao dia 24 de junho, no Museu Coleção Berardo, Lisboa, a mais abrangente exposição já montada em redor do trabalho do pintor português Nikias Skapinakis. Embora o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian, o Museu do Chiado ou a Fundação Serralves já tenham dedicado mostras a este nome maior da nossa pintura, aquilo que podemos ver em “Nikias Skapinakis – Presente e passado, 2012-1950”, mais do que uma retrospetiva, é uma escolha do próprio pintor de uma série de obras que marcam e resumem o seu trabalho. A sua seleção viaja do Continue reading

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Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

Nesta precoce primavera, o Centro de Arte Moderna da Fundação Calouste Gulbenkian recebe exposições de dois dos nomes mais relevantes do cenário das artes plásticas brasileiras das últimas décadas. “Quatro estações” e “Strange fruits” é a proposta combinada de Beatriz Milhazes e Rosângela Rennó, naturais do Rio de Janeiro e de Belo Horizonte, respetivamente. Artista que se diz apologista de uma “liberdade ordenada”, Milhazes apresenta uma série de quatro volumosos quadros, “representando” as quatro estações do ano. “Love” é a palavra comum aos títulos das obras, cujas dimensões são proporcionais à Continue reading

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“Fernando Pessoa – Plural como o universo”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

“Sê plural como o universo” surge escrito no topo de uma folha branca de papel, máxima-título de texto por escrever ou tantas vezes escrito, cujas continuidades se adivinham e concretizam em toda a obra que hoje conhecemos de Fernando Pessoa. A folha original está exposta na última sala, e nela figura esta frase que, despojada do verbo imperativo, (des)apropriada portanto, serve de mote da exposição. As mesmas palavras surgem também, escrita negra em espelho deformante, marcando a entrada numa das salas. Outro topo de folha, desta vez pedaço rasgado, figura num dos painéis: “O universo é Continue reading

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Celebrando Gustave Doré no aniversário da sua morte

 

As suas ilustrações cinzelavam personagens e ínfimos pormenores em negros e cinzentos. Graças a ele, as clássicas fábulas e os contos de fadas ganharam corpos e densidades únicas, entre o fascínio e o medo, entre o cómico e o assustador, a emoção da voz contadora concretizando-se e metamorfoseando-se em fantásticas figuras e cenários. Criança prodígio, Gustave Doré (6 de janeiro de 1832 – 23 de janeiro de 1883) fez a sua primeira litogravura aos 12 anos e ainda muito jovem se tornou num Continue reading

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Coletiva “Ilustrarte ’12″ no Museu da Eletricidade, Lisboa

 

Sendo a ilustração provavelmente o campo criativo onde se registaram na última década as mais entusiasmantes evoluções no pálido cenário cultural português, é algo natural que a “Ilustrarte” – a louvável bienal dedicada à ilustração para a infância que em 2003 começou discretamente a fazer história na cidade do Barreiro, e que agora está solidamente instalada em Lisboa – chegue a esta sua 5ª edição com um imenso sucesso artístico e mediático garantido logo no momento da abertura, que amanhã acontece. A concurso estiveram obras recentes de mais de milhar e meio de ilustradores de 65 países, dos quais saíram os 50 finalistas, cada um aqui representado com Continue reading

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“Oinc! – A história do Príncipe-Porco”, de Isabel Minhós Martins e Paula Rego

 

Aos contos populares italianos, recolhidos e registados por escrito por Straparola, cabe a honra de encabeçar a já longa linhagem de narrativas maravilhosas europeias. Este conto em particular, incluído nas “Piacevole notti” (1557), é recontado, por exemplo, por Marie-Catherine d’Aulnoy (com o título “Le Prince Marcassin”), uma das mais prolíficas cultoras do género em finais do século XVII. De acordo com os rigorosos manuais de civilidade e etiqueta, o príncipe modelo nasce transformado no seu oposto animalesco. Não obstante todas as tentativas de domesticação, vestindo-o e educando-o, os instintos animais concretizam-se na sua aparência, nos hábitos e no seu perfil psicológico caprichoso, agressivo, insuportavelmente monstruoso. Em causa estariam Continue reading

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Celebrando 80 anos de Tomi Ungerer

 

Tomi Ungerer é um ícone. Merece sê-lo e sabe sê-lo. Completa hoje 80 anos. Depois da retumbante estreia com “The Mellops go flying”, o caminho foi prolífico e generoso para o multitalentoso e hipercriativo arquiteto-designer-“desenhador”-obsessivo e bibliófilo Tomi Ungerer. As suas obras encontram-se espalhadas um pouco por todo o lado e é impossível não reparar nelas: casas de banho públicas e um aqueduto, uma escola em forma de gato, Continue reading

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Recordando Helen Siegl

helen siegl 1

 

A artista austríaca Helen Siegl (1924 / 2009), católica devota, ativista e pacifista, viveu os horrores do nazismo, emigrando depois para o Canadá e estabelecendo-se nos Estados Unidos. Gravadora exímia, as suas litografias e trabalhos em madeira e gesso, com temáticas religiosas e bíblicas, têm como protagonistas frequentes crianças, plantas e animais, e expressam, com uma singularidade extraordinária, uma transcendente capacidade de Continue reading

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Cria Cria apresenta: 7C, Cultura e Criatividade

 

Há quem se preocupe. Há quem faça. Há quem se preocupe e faça. Cria Cria aposta na literacia cultural. Da teoria à prática, em casa, Continue reading

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Antes do Halloween

No Dia de Todos os Santos, as mesas eram postas. Amassava-se a broa de milho, com erva doce, mel e azeite, que ia ao forno sobre folhas de figueira ou de couve. Em grandes tachos, estavam as papas de milho (o xarém) ou de abóbora menina. Fazia-se a melada, chá e licor de romã (três romãs, três decilitros de aguardente, 150 gramas de açúcar mascavado e a raspa de um limão). Jarros de vinho e garrafas de aguardente de medronho passavam de mão em mão. Depois, começava o rodopio: gente das aldeias, crianças, mendigos, gente de fora, de passagem. Pediam o “Pão por Deus” e tinham fome. Oferecia-se pão, chouriço, frutas (figos secos, pinhões, amêndoas, romãs, castanhas, nozes, marmelos, uvas). Em Lisboa, esta tradição ganhou força depois do terramoto, explicam alguns estudiosos.

 

Claude Monet, “Still life with melon”, 1872

 

Décadas depois, já eram só as crianças, com saquinhos bordados nas mãos, que iam de porta em porta, cantando: “Pão por Deus / Fiel de Deus / Bolinho no saco /Andai com Deus”, na cidade; ou, na serra algarvia, “B´linh, b´linh / P´l´alma d’ sé defuntinh’”. “As alminhas andam perdidas por esses serros”, diziam-nos. O verão acabava, o inverno começava. Acendia-se uma fogueira ao pôr do sol e deixavam-se as portas abertas. Avisavam-se sempre os mais pequenos para terem cuidado com o Continue reading

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“O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle

 

Com arreliante regularidade nos chegam aos ouvidos histórias (verídicas) que atestam o canibalismo estético e estreiteza de visão a que estão sujeitas, ainda hoje, muitas crianças e jovens. Correndo o risco da canícula, variados trejeitos faciais e insuficiência respiratória que a repetição de semelhantes narrativas habitualmente nos provoca, optamos pela cataplasma consoladora do comprazimento estético que a novíssima obra de Eric Carle, “O artista que pintou um cavalo azul”, oferece, elencando, em formato teatral, sem mais, algumas “pérolas de sabedoria estética e pedagógica” que temos colecionado ao longo dos anos, logo seguidas de imagens das obras de dois artistas – Franz Marc, homenageado, e Eric Carle, autor da homenagem:

 

Ato I

Cena 1

(numa sala de aula)

Professor – Agora vamos pintar por dentro esta linda vaca, tão nossa amiga, que nos dá, vá lá, digam em coro, nos dá… o leite, o queijo, a… a…

Aluno (de braço no ar) – Já sei!… A Becel! A Becel!…

Professor (franzindo o sobrolho) – Não, não é a Becel. Isso é uma marca. A vaca dá-nos a manteiga.

Aluno (tristonho) – Oh! Mas eu pensava que…

Professor (decidido) –  Vá lá. Vamos então pintar as vacas amigas do homem.

Aluna (pondo timidamente o braço no ar) – Professor! Posso dizer uma coisa? A vaca não é minha amiga. A minha mãe diz que a lactose do leite me pode matar…

Professor (irritado) – Pronto! Então, a vaca não tem culpa que a menina seja alérgica. Pinte mas é a vaca, vamos.

(…)

 

Cena 2

Professor (agarrando num dos desenhos) – O que é isto? Isto não é nenhuma vaca. As vacas são brancas, com manchas pretas. Não existem vacas amarelas…

Aluno (prestes a chorar) – Mas eu não sabia… Nunca vi nenhuma. Só fui duas vezes à terra dos meus pais, a Monte Real, e era muito pequeno, não me lembro bem… Pensava que as vacas podiam ser amarelas…

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Die gelbe kuh”, 1911

 

Ato II

Cena 1

(numa sala de jardim de infância e pré-escolar)

Educadora – Os vossos desenhos estão muito bonitos. Agora é o vosso grupo. Mostrem lá aos colegas da sala o que estiveram a pintar a partir da história que eu contei.

Crianças 1, 2 e 3 (mostrando uma pintura) – Pintámos um céu e um cavalo e uma raposa que…

Educadora – Hã? Os cavalos não são azuis, pois não? E as raposas são… vermelhas, não é? Está uma pintura muito, muito… imaginativa, não acham meninos? Mas para a próxima têm de pintar os animais da cor certa, está bem? E o céu não é cor de laranja, pois não meninos? Digam lá à Ana de que cor é o céu… É azul!

Criança 1 (acusadora) – Foi ela, Ana, foi ela! (Virando-se para a colega) Eu bem te disse que as raposas não deviam ser roxas.

Criança 2 (na defensiva) – Pois, mas tu também não sabias. E foste tu que pintaste o cavalo de azul, não foste? E também está errado, não é?

Criança 3 (perplexa) – Mas eu já vi muitos céus cor de laranja e cor de rosa… Oh Ana, mas por que é que o céu não pode ser cor de laranja e cor de rosa? Por que é que não pode?

Educadora (atrapalhada) – Bem, não pode porque… porque… bem, pode mas… Quem quer que eu leia outra vez a história do Elmer?!

(…)

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blauschwarzer fuchs”, 1911

 

Eric Carle presta, com a obra “O artista que pintou um cavalo azul”, lançada nesta semana pela Kalandraka, uma explícita e devida homenagem a Franz Marc (1880-1916). Recorrendo às colagens, como é seu apanágio, em papel de seda colorido, Carle apresenta neste livro um catálogo de animais. A narrativa, de primeira pessoa, e a autoreferência adjetival, serve de base à enumeração de coloridas criaturas que se segue, recorrendo-se ao tipicamente infantil conetor frásico “e”, sempre destacado na segunda das duas páginas em que surge o animal: “Sou um artista e pinto… um cavalo azul e… um crocodilo vermelho e… uma vaca amarela e… um coelho cor de rosa e… um leão verde e… uma raposa roxa e… um urso polar preto e… um burro às bolinhas. Sou um bom artista.”

Repare-se no final humorístico, culminar de um percurso em que aos animais se atribuem cores incomuns, incongruentes com a sua natureza física. E é no burro que todas as cores da paleta se encontram. Atente-se igualmente no facto de ser a pintura do cavalo azul, aquela a cujo começo, de céu amarelo, assistimos no início do texto, a mesma que se apresenta logo de seguida, e se reproduz na última página, tendo a afirmação final “sou um bom artista” como legenda. O artista, menino pintor, olha-nos, de frente, manchado de tinta, orgulhoso do trabalho realizado.

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blaues pferd I”, 1911

 

Em dezembro de 1910, numa famosa carta, Marc atribuía valores emocionais às cores: “O azul é o princípio masculino, adstringente e espiritual. O amarelo é o princípio feminino, gentil, alegre e espiritual. O vermelho é matéria, é brutal, é pesado e é sempre a cor a opor e a ser ultrapassada pelas outras duas.” Em meados de 1911 começa a criar a série de quadros de animais que o tornariam famoso. Morto precocemente, durante a I Guerra Mundial, a sua obra destaca-se talvez menos por ser particularmente representativa das caraterísticas do expressionismo alemão, movimento ao qual ficou associado, mas pelas suas conceções estéticas e empenho associativo em defesa da arte abstrata.

Pode ler-se, na nota biográfica final da obra, a seguinte afirmação de Eric Carle: “O meu leão verde, o meu burro às bolinhas e outros animais pintados com cores ‘erradas’ nasceram realmente nesse dia há 70 anos.” Que dia foi esse? O dia em que, ainda pré-adolescente, um professor de arte chamado Krauss, elogiou o seu estilo livre e lhe deu a conhecer, em segredo, reproduções coloridas da obra de Franz Marc, proibidas pelo regime nazi. Foi um professor esclarecido e corajoso que mudou a vida de Eric Carle. Educadores, professores e pais esclarecidos e corajosos: procura-se.

 

 

livro “O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle
Kalandraka, 2011
[a partir dos 18 meses]

 

Paula Pina

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Celebrando 125 anos do nascimento de Tarsila do Amaral

“Auto-retrato”

 

Deram o seu nome a uma cratera, em Mercúrio. Segundo a União Astronómica Internacional, a cratera Tarsila do Amaral tem 106 km de diâmetro e está rodeada de outras crateras: a cratera Dali, a cratera Glinka, a Poe, a Beckett, a Munch. Talvez seja de facto adequada esta homenagem planetária a uma artista cuja assombrosa visão plástica transpôs os altos portões da fazenda, em Capivari, no interior do Estado de São Paulo, Brasil, onde nasceu a 1 de setembro de 1886.

 

“Abaporu”

 
Tarsila correu mundo: atravessou um oceano imenso para estudar em Barcelona e depois em Paris, com Léger, onde conheceu o cubismo de Picasso e Brancusi, a música de Stravinsky, Satie e Villa-Lobos. Por onde passava, Tarsila do Amaral deixava a marca da originalidade do seu talento, da força e sofisticação da sua personalidade, da beleza do seu rosto. Contudo, foi nas histórias maravilhosas da infância, nas cores vibrantes da natureza do seu país, que encontrou a sua identidade artística: “Encontrei em Minas as cores que adorava em criança. Ensinaram-me depois que eram feias e caipiras. Mas depois vinguei-me da opressão, passando-as para as minhas telas: o azul puríssimo, o rosa violáceo, amarelo vivo, verde cantante…”.

 

“A feira I”

 

Em menina, uma de sete irmãos, Tarsila vestia-se segundo os últimos figurinos parisienses, bordava, tocava piano e falava francês. Parecia corresponder ao perfil típico da aristocrata rural, rodeada de luxo, imune à pobreza extrema que os muros da fazenda ocultavam. As primeiras letras que leu foram as iniciais do fundador da fazenda, B.A.G.P., gravadas no topo do seu portão. Quando a precetora belga a chamava para as lições, Tarsila escondia-se no mato, comendo maracujás e banhando-se no riacho, brincando com os seus 40 gatos, mas sonhando com Paris. O primeiro desenho importante, a lápis de cor, representava uma cesta de flores e uma galinha rodeada de pintainhos.

 
“Anjos”

 
O apogeu da sua carreira, na fase “pau brasil”, é assinalado pela presença de temáticas brasileiras, tradições e paisagens (como em “A feira I”, verdadeira montra estratificada de frutos exóticos, ou figuras de procissão, nichos e altares, em recriações modernistas, como a de “Anjos”). Surgem ainda criaturas imaginárias, “coisa do mato” (como afirmava o escritor Oswald de Andrade a propósito de “Abaporu”), e personagens do folclore brasileiro, como o “Saci-pererê” ou “A Cuca”. Neste último quadro, prenúncio da fase antropofágica, do traço afetuoso e ininterrupto de Tarsila brotam bichos fantásticos, pousados numa paisagem campestre íntima e simbólica, pejada de catos, árvores, aglomerados vegetais rodeando um lago azul irreal: um sapo, uma taturana gigante, um tatu-pássaro, e uma personagem alienígena amarela, que prende em si o olhar das restantes figuras, numa espécie de estatismo expetante, metamórfico ou onírico.

 
“A Cuca”

 

Em “Boi na floresta”, já fase antropofágica, o animal estático, que nos fixa, em desassossegos presos entre linhas e pesos, cores escuras e metálicas, volumes verticais e variações abstratas, reconduz-nos ao mitos e crenças caipiras, às lengalengas infantis e às canções de boieiros.

 

“Boi na floresta”

 
Tarsila do Amaral pintou também uma “Lua”, em 1928. Os astrónomos dizem que é difícil distingui-la de Mercúrio…

 
“A lua”

 

Paula Pina

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