Tag Archives: a partir dos 12 anos

“De jueves a domingo”, de Dominga Sotomayor

 

“De jueves a domingo” é, antes de mais, uma cândida e subtil meditação sobre o tempo, minuciosa e metaforicamente ancorada na infância. É, igualmente, uma inteligente decomposição da sintaxe cinematográfica, de um zelo quase imprudente na combinação e evocação inicial de elementares modelos narrativos, mas de uma resoluta frustração final dos seus mais previsíveis códigos. Trata-se, à partida, de um road movie com os seus preceitos e procedimentos: uma família chilena (pai, mãe e dois filhos – Manuel, de sete anos, e Lucía, de dez) parte numa longa viagem de fim de semana seguindo um impulso de Continue reading

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Filed under Cinema

“Fingido e verdadeiro ou O martírio de S. Gens, ator”, do Teatro da Cornucópia

 

Palavras de Santo Agostinho sobre o grau de veracidade ou engano da experiência dos sentidos são as primeiras que se ouvem numa peça, em si mesma, repleta de ambiguidades. “Fingido e verdadeiro ou O martírio de S. Gens, ator” é uma desconstrução do texto de Lope de Vega, “O fingido verdadeiro”, em que Gens, dramaturgo e ator do imperador romano Diocleciano, do século III, famoso pelas suas sátiras aos cristãos, certo dia, perante a sua representação de mártir, se convence de tal forma que acaba por se converter. Luís Miguel Cintra desfragmenta o texto original de Vega para questionar e esbater as fronteiras entre o verdadeiro e o fingido do trabalho do ator (não há, na representação, um “fingimento verdadeiro”) e confrontar, ao mesmo tempo, o espetador com a Continue reading

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Filed under Literatura, Teatro

“1, 2, 3, 4”, de Feist

 

Uma das raras vozes que garantem sentido e relevância à história recente da música pop, a da canadense Feist, passa hoje e amanhã pelos coliseus de Lisboa e do Porto para dois recitais que poderão acrescentar uma nova luz ao resplandecente Continue reading

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Filed under Música, Ram Ram

“A invenção de Hugo”, de Martin Scorsese

 

Curiosidade insaciável e infantil acerca de um “novo” recurso tecnológico e artístico? Necessidade ou obsessão pela desafiante experimentação, o desejo de se saber capaz e de se provar capaz? Dono de uma longa e abrangente carreira, povoada de géneros diferentes (musical, comédia, drama, épico, biopic, religioso, documentário, familiar, gangster,…) e com diferentes níveis de sucesso comercial, Martin Scorsese manipula agora o 3D com a sensibilidade feita paixão, com a experiência feita homenagem, com as memórias do passado feitas oferenda familiar, pessoal, do Continue reading

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Filed under Cinema, Ilustração, Literatura

“Mel”, de Semih Kaplanoglu

 

Poder-se-ia dizer que “Mel” nos conta uma história. De facto, ela está lá. O pequeno e doce Yusuf (Boras Altas), de seis anos, é o filho de dois pobres camponeses que vivem nas belas e frondosas florestas da Turquia rural. Certo dia, o pai – apicultor e seu grande amigo e confidente – não regressa de um trabalho que o filho e a mulher sabem muito arriscado. “Mel” poderia ser apenas isso. Mas, felizmente, não é. O realizador Semih Kaplanoglu faz da câmara um tocante elogio à sensibilidade, às sensações e aos afetos. Filma a vulnerável ternura do olhar de uma criança, a sua íntima relação com o Continue reading

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Presente perfeito, pelo Natal 2011 [a partir dos 9 anos]

[primeiro ano] [a partir dos 12 meses] [a partir dos 2 anos] [a partir dos 3 anos] [a partir dos 4 anos] [a partir dos 5 anos] [a partir dos 6 anos] [a partir dos 7 anos]

 

São escolhas do passado recente, são escolhas de presentes, mas são sobretudo escolhas de futuro. O Natal é só um (feliz) pretexto. Felizes pretextos para os vermos ainda mais felizes. Para concluir este ciclo, as nossas escolhas para a faixa (in)compreendida entre os 9 e os 17 anos, esse período imenso em que as crianças gradualmente acrescentam interesses “adultos” ao seu rol de paixões culturais. Continue reading

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Filed under Cinema, Ilustração, Literatura, Música

A realidade da fantasia de Britney Spears ao vivo em Lisboa

 

O olhar é direto, provocante, os olhos elevando-se do rosto, de pescoço ligeiramente inclinado. A língua move-se por entre os lábios entreabertos, que articulam fonemas que se assemelham vagamente a um texto em inglês. Algumas expressões soam familiares: “baby, baby” e “get it, get it, get it, get it”. O corpo balança em movimentos Continue reading

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A dupla juventude de Caetano Veloso ao vivo em Lisboa e no Porto

 

Autorretratos do artista quando jovem (outra vez): desde há meia dúzia de anos, desde a sua tão propalada emancipação conjugal e consequente arroubo ginecófobo, Caetano Veloso só rejuvenesce. O processo iniciou-se com modos não propriamente subtis no Continue reading

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Marcelo Camelo em trânsito entre o Sudoeste e Lisboa

Cumprido o histórico festim que hoje à noite conduz ao palco maior do festival os distintos cambiantes r&b de Janelle Monáe, Raphael Saadiq e Snoop Dogg, e antecedendo em poucas horas uma sua extensão chamada Kanye West, o Sudoeste acolherá às 7.20 da tarde desta 6ª feira, dia 5 de agosto, a primeira de duas apresentações portuguesas do recente segundo álbum “solitário” do compositor brasileiro Marcelo Camelo – sendo a outra promessa para depois de amanhã, dia 6, na sala lisboeta TMN Ao Vivo.

“Toque dela” é um longa duração que sublinha e fortalece o modelo criativo do igualmente louvável “Sou nós” (Zé Pereira, 2008), e a confiante consolidação de uma assinatura – no domínio das composicões, dos arranjos, das interpretações, dos textos e dos subtextos que estes promovem, etc. – que o bom senso aconselha a manter em audição regular. E particularmente atenta… As leituras formais são imensas e desmultiplicam-se exponencialmente até a um lugar sonoro ainda por cartografar. Evitemos chamar-lhe rock, mesmo que no seu apaixonado âmago seja impossível não reconhecer o carinho que esta música devota aos arranjos educados no mais elegante pós-rock de Chicago – em grande medida viabilizados pelo auxílio luxuoso (ainda que, neste contexto, escasso em liberdade…) do guru Rob Mazurek e dos seus mais declarados embaixadores brasileiros, os Hurtmold. Evitemos igualmente ignorar a sua genealogia inequívoca: a modernidade intemporal da bossa nova, a erudição contemplativa do jazz, a disponível sabedoria da música contemporânea, a minúcia especulativa da eletrónica, etc… Trabalhando silêncios e respirações como raros estetas na pop atual, Marcelo Camelo é paradigmático no modo como concebe arranjos que parecem ter tempo e disponibilidade para tantas ideias e acontecimentos, inúmeras vezes em simultâneo: “vozes” distintas que dialogando se complementam e esclarecem, gerando fantasias inéditas a cada nova oportunidade dialética.

Apesar da crescente abstração e simbolismo dos poemas e das narrativas sónicas que os amparam, há toda uma respiração realista dial, subtraída às vivências do autor, hospedada em cada uma destas canções. Apologia do princípio da existência e da lógica ficcional que cria para cada um de nós, “Toque dela” é um documento que regista com saudável energia o momento presente do seu criador e, em certa perspetiva, da sociedade que nos assiste, onde quase tudo é impuro, imperfeito, desleixado, mas – honra lhe seja feita – razoavelmente genuíno. E rimando conceptualmente com as marcantes ilustrações recuperadas de obras de Biel Carpenter para o livrinho que acompanha o disco…

Haja fé para um Marcelo Camelo que, em recente entrevista ao Expresso (disponível na íntegra no blogue de João Santos, seu autor), resumiu a sua feliz vulnerabilidade digna de uma criança de 10 anos com um “Eu só tenho intuição. É a minha maior aliada, a minha bússola”.

Fechando o curto circuito musical que elegemos para as nossas crias e para nós nesta edição do Sudoeste, Kanye West deverá recolher o consenso de quem lhe testemunhar este regresso a Portugal (tanta música excecional depois da inesquecível estreia de Oeiras), previsto para as 11.40 da noite de amanhã, dia 5. Cada vez mais humano na sua ilusão divina, o produtor colherá na Zambujeira do Mar mais alguns frutos de um período assinalável da sua trajetória: na feliz ressaca de um ótimo álbum (“My beautiful dark twisted fantasy”, Roc-A-Fella, 2010) que sofreu de um hype no extremo oposto do anterior (e não menos notável) “808’s & heartbreaks” (Roc-A-Fella, 2008), e nos escassos dias que antecedem a publicação de “Watch the throne”, o revigorante álbum que o une a Jay-Z (disponível digitalmente no próximo dia 12 de agosto). Três dimensões paralelas de um dos raros estetas de que o universo pop de grande escala se pode verdadeiramente orgulhar. Pode ser que os públicos e as expetativas se encontrem no litoral alentejano…

 

5 agosto
Marcelo Camelo, Kanye West, etc.
Festival Sudoeste TMN ’11
Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar
[a partir dos 12 anos]

 
6 agosto, 10 pm
Marcelo Camelo
TMN ao vivo, Lisboa
[a partir dos 12 anos]

 

disco “Toque dela”, de Marcelo Camelo
Zé Pereira / Universal, 2011
[a partir dos 10 anos]

 

 
Moreno Fieschi

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Raphael Saadiq no centro do Sudoeste

Mais do que alinhar o pensamento e a ação pelas ocas generalidades de um festival com a dimensão trágica do Sudoeste, vale a pena focalizar um segmento significativo da nossa prática de consumo musical intergeracional em dois momentos do seu plano de festas que – coincidências e conveniências contratuais à parte – garantem praticamente sozinhos uma renovada credibilidade para o formato (sobretudo tal como é praticado por cá…). Pelo menos no percurso temporal da felicidade com que os evocamos e com que os planeamos viver…

Noite como a desta 5ª feira, 4 de agosto, não há na história da música tocada na Zambujeira do Mar ou de qualquer outro lugar deste Portugal: às 9.15, deixemo-nos dominar pela ginoide invertida e, alternadamente, pelo protótipo de humana biónica que coexistem em Janelle Monáe e na sua experiência mutante de r&b e pop, american songbook e hip hop, punk e breakbeat. Matriz intrinsecamente futurista e tão esclarecida nas suas raízes clássicas, de coração orquestral e alma digital, encravada numa sessão cinematográfica contínua que intercala utopias futuristas de Fritz Lang com delírios sentimentalistas de Rodgers & Hammerstein, o seu longa duração “The archandroid – Suites II & III” (Bad Boy Records, 2010) e, sobretudo, o EP “Metropolis, Suite I – The chase” (Wondaland, 2007) são entradas inevitáveis na galeria da mais exigente soul deste século.

Terminada esta viagem, e antes da incursão de Snoop Dogg no seu universo moral pedagogicamente interdito a menores de 18 (uma tardia estreia em terreno nacional marcada para começar 45 minutos depois da meia noite), a mais justa medida de um milagre musical passível de se dar num cenário como este acontecerá a partir das 10.55 sob a gestão de Raphael Saadiq, cantor e compositor de talento insuperável no recente contexto da soul de “condição” masculina. Ainda em altíssima rotação pelos gira-discos e pelos converte-códigos-binários que nos rodeiam, o recente “Stone rollin'” é – de um modo ainda mais irrefutável do que os outros três álbuns da sua imaculada discografia em nome próprio – uma rigorosa e exemplar lição de história da música negra que espoletou novos modos éticos e estéticos na metade final da década de 60. Mais – é toda uma escola, toda uma vida de aprendizagem e crescimento. Fundamental, portanto, para as crias dos pais que valorizam a inestimável e insubstituível energia nutritiva que é exclusiva deste grupo de alimentos para a nossa alma musical.


“Stone rollin'” começa por declarar-se em tom reverente a Sly & The Family Stone (parafraseando sobretudo “Dance to the music”, mas também “I want to take you higher”) e a tudo o que o coletivo de São Francisco aprendeu com Chuck Berry ou com Bo Diddley. E conclui-se – sintomaticamente com uma faixa não creditada, e não autónoma, mas que consegue o feito de se erguer ainda acima da já tão elevada fasquia das restantes – com a participação de Larry Graham, vocalista e sobretudo baixista seminal da Family Stone e, posteriormente, da sua Graham Central Station. Pelo caminho, ergue-se uma encenação dramática que incide sobre o paradigmático sincretismo de Saadiq enquanto herdeiro privilegiado dos códigos criativos de Stevie Wonder, Curtis Mayfield, Marvin Gaye, Bobby Womack, Ray Charles, Little Walter, Dr. John, dos Rolling Stones prepassados pela soul, das magias sonoras negras que se forjaram nestes períodos em Philladelphia, Memphis ou Detroit, em empreendimentos como a Chess, a Motown ou a Stax. Tudo como um dispositivo que regularmente dialoga com a narrativa contemporânea que, ainda assim, o sustenta. Raphael Saadiq reforça essa atemporalidade com uma ideia sábia de Isaac Hayes: “There’s no such thing as old school. Either you went to school or you didn’t”.

Mais ainda do que o anterior “The way I see it” (Columbia, 2008), este “Stone rollin'” é ritmicamente pragmático, mais uptempo, mais impuro e instintivo e físico, eclético mas coerente, como uma prodigiosa súmula do trajeto solista que o enquadra. Saadiq cunhou a sua obra prima como “Instant vintage” (Universal, 2002), mas esse é cada vez mais notoriamente um estatuto transversal da sua obra, extensível a todas estas canções e a tudo o que o norteamericano nos tem permitido aos ouvidos.

 

“Radio”:

 
“Stone rollin'”:

 

4 agosto
Raphael Saadiq, Janelle Monáe, etc.
Festival Sudoeste TMN ’11
Herdade da Casa Branca, Zambujeira do Mar
[a partir dos 12 anos]

 

disco “Stone rollin’”, de Raphael Saadiq
Columbia / Sony, 2011
[a partir dos 12 anos]

 

 

Moreno Fieschi

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“Super 8”, de J. J. Abrams

Abençoada seja a juventude que habita ainda filmes como o esplendoroso “The tree of life” (“A árvore da vida”, de Terrence Malick, milagre central no corrente ano cinematográfico, com uma surpreendente carreira de bilheteira que – um par de meses cumpridos sobre a sua chegada ao circuito local – ainda o mantém em exibição num número assinalável de salas) ou como “Super 8”, vibrante celebração do exponencial onírico do cinema juvenil que hoje, 28 de julho, invade e domina com total mérito a agenda de estreias deste verão. Prodigiosa na sua noção de humanidade e no respeito mais intransigente pela narrativa e pelas emoções das personagens, sem jamais abdicar de uma empolgante destreza técnica e de estilo, esta é a oferenda de amor que o realizador J. J. Abrams (criador de “Lost” e diretor de “Cloverfield” ou de “Star Trek”) dedica a Steven Spielberg, seu inequívoco referencial, encarregue das virtudes da produção e da inspiração que brilha tacitamente em muitos dos mais memoráveis momentos deste “Super 8” – nostalgia e fantasia subtraída essencialmente à obra-prima “Close encounters of the third kind” (“Encontros imediatos do terceiro grau”, 1977) e a “E.T. – The extra-terrestrial” (“E.T. – O extraterrestre”, 1982), mas também a “War of the worlds” (“Guerra dos mundos”, 2005) e, de certo modo, a “A.I. – Artificial intelligence” (“Inteligência artificial”, 2001). Promessa de tantos encontros imediatos de primeiro, segundo e terceiro grau de parentesco, capaz de anular estrategicamente simbólicas distâncias geracionais, nivelando-as pelos mais distintos padrões desta escola americana da transição das décadas de 70 para 80 (não por acaso, a história decorre em 1979…), ainda com um imenso orgulho no que o cinema pode dar ao mundo moderno, ou seja, arte e entretenimento, pedagogia e sonho.

 

 

28 julho [estreia nacional]
filme “Super 8” (“Super 8”), de J. J. Abrams, com Joel Courtney, Kyle Chandler,…
[a partir dos 12 anos]

 

Moreno Fieschi

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