Tag Archives: a partir dos 4 anos

“Um livro para todos os dias” e “Ir e vir”, de Isabel Minhós Martins e Bernardo Carvalho

 

A aguardada reedição de “Um livro para todos os dias”, embora num formato ligeiramente maior, continua a exercer o seu encanto, indiferente a quaisquer destinatários preferenciais: esconde-se na gaveta da mesa de cabeceira, espreita na mala, escorrega da pasta, disfarça-se de manual. Pode ler-se em voz alta (cantado, declamado, gritado!) ou segredar-se ao ouvido. Pode até prescrever-se como remédio contra Continue reading

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“Zoologia bizarra”, de Ferreira Gullar

capa ferreira gullar zoologia bizarra

 

Quem nunca guardou uma carta, um convite ou se esqueceu de atirar um panfleto fora? Esse é um despretensioso hábito que pode passar despercebido. Mas não nas mãos de um poeta… Ferreira Gullar transformou esses papéis nas colagens que compõem o livro “Zoologia bizarra”. O notável escritor neoconcretista brasileiro, vencedor em 2010 do Prémio Pessoa, definiu a obra como uma brincadeira de “bichos criados pelo acaso”, páginas onde dialogam “a ordem com a desordem”. O que Gullar fez foi juntar pedaços de papéis até que Continue reading

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“O Tio Elefante”, de Arnold Lobel, e “Correio para o tigre”, de Janosch

 

Os contos com animais são inequivocamente um dos sub-géneros literários mais significativos para os mais pequenos: por tradição (a presença marcante de criaturas animais na história da literatura) e por, psicológica e tematicamente, suscitarem imediata e simpática identificação com personagens e suas ações. Na senda fabulística, autores e ilustradores contemporâneos continuam a ceder ao fascínio pelos bichinhos, prevendo a fácil adesão por parte das jovens audiências, sabendo também que moralísticos fatores podem com ligeireza e diversão ser abordados por intermédio destes seres, encarnando caraterísticas e preocupações, virtudes e vícios, tão Continue reading

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“O urso e o gato selvagem”, de Kazumi Yumoto e Komato Sakai

 

São muito poucos os livros contemporâneos para crianças que oferecem uma abordagem simultaneamente bela, delicada e inteligente ao tema da morte e do luto. Comovente e poético, sem ser lamechas; afetivo, sem ser condescendente; apelativo, sem ser banal – “O urso e o gato selvagem” é uma obra sobre a transição, sobre a dor da perda e sobre a solidão, mas é ainda mais uma obra rara sobre a Continue reading

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“A gigantesca pequena coisa”, de Beatrice Alemagna

 

“A gigantesca pequena coisa” é mesmo gigantesca – em formato e em conceção, em riqueza poética e visual. Esta obra impõe-se-nos sobretudo enquanto exemplo do que pode ser a ilustração do invisível, a concretização em instantâneos do quotidiano de um conceito abstrato, indecifrável Continue reading

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“Elefante em loja de porcelanas”, de Adélia Carvalho e André da Loba

 

O que pensamos, o que dizemos, o modo como sentimos e deciframos o mundo é baseado em conceitos metafóricos. Apesar de usadas quotidianamente de forma inconsciente e automática, as metáforas influenciam e estruturam a nossa linguagem – infiltram-se no vocabulário corrente e nele assentam tão profundas raízes, despojam-se do seu lastro metafórico e vaporizam-se, em voláteis convencionalidades (o que acabei de escrever, agora vejo, é disso acabado exemplo). Elementos provenientes de um determinado contexto aplicam-se a outro, transferindo-se sentidos entre conceitos devido a similitudes percecionadas, não obstante diferentes potenciais de transferência. Na realidade, a metáfora não é apenas uma figura de estilo Continue reading

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Presente perfeito, pelo Natal 2011 [a partir dos 4 anos]

[primeiro ano] [a partir dos 12 meses] [a partir dos 2 anos] [a partir dos 3 anos]

 

São escolhas do passado recente, são escolhas de presentes, mas são sobretudo escolhas de futuro. O Natal é só um (feliz) pretexto. Felizes pretextos para os vermos ainda mais felizes. Por agora, as nossas escolhas para crianças a partir dos quatro anos. Continue reading

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“Minimalário”, de Pinto & Chinto

 

Neste “Minimalário”, os protagonistas são sempre animais – e cada qual tem a sua história e seu adequado e divertido retrato humorístico. São 114 animais, de todos os reinos, filos, classes, ordens, espécies, em aleatório desrespeito por Continue reading

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“Grande coisa”, de William Bee

 

Estruturada como um tradicional conto de advertência, para benéfico proveito e exemplo moral, tão na linha de “Pedro esgrouviado” de Hoffmann, esta obra do artista e designer comercial William Bee (conhecido sobretudo pelos seus trabalhos para as marcas Issey Miyake e Paul Smith) oferece um perfeito antídoto para todos aqueles que acham que os álbuns ilustrados são “coisa para miúdos”. O desafio à moralidade Continue reading

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“Para onde vamos quando desaparecemos?”, de Isabel Minhós Martins e Madalena Matoso

 

Eis mais um texto encantador de Isabel Minhós Martins, poeticamente pessoano na forma delicada como aborda a “espantosa realidade das coisas”. A voz de quem escreve é a voz de quem conta, em partes e apartes. É a voz que partilha e que ensina a olhar, a sentir e a pensar. É a voz de quem empenhadamente se entrega às Continue reading

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“O Maurício da Gama é novo cá na escola”, de David Mackintosh

A recente obra do designer gráfico e ilustrador premiado David Mackintosh, agora publicada pela Planeta Junior, intitula-se “O Maurício da Gama é novo cá na escola”, mas bem poderia chamar-se “A festa de anos que mudou tudo”. Maurício da Gama possui as caraterísticas que fariam dele um dos miúdos menos populares na escola. Tem todos os defeitos mais temidos, todas as fragilidades que o tornariam um alvo fácil de bullying. Tudo nele é estranho: o seu Continue reading

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Celebrando 200 anos do nascimento de Franz Liszt

 

Aos seis anos, reproduzia as peças que o pai tocava no piano. Aos oito, começou a compor. Aos nove, deu o seu primeiro recital como pianista. O menino prodígio de aparência angelical em breve se mudaria para Viena com a família, graças a uma bolsa de estudos, tornando-se discípulo de Carl Czerny, em piano, e de Salieri, em composição. Aos dez anos, tocava as peças mais difíceis de Bach, Beethoven, Mozart, Cramer e Clementi, e improvisava com uma facilidade assombrosa. Em 1822, a sua primeira apresentação perante uma plateia vienense resultou num êxito absoluto de público e de crítica. Aos 12 anos de idade, Liszt era um ídolo.

Numa carta datada de maio de 1832, Franz Liszt (22 de outubro de 1811 – 31 de julho de 1886) escreve ao seu aluno e amigo Pierre Wolff: “Há duas semanas que o meu espírito e os meus dedos trabalham como loucos [sic] – Homero, a “Bíblia”, Platão, Locke, Byron, Hugo […], Beethoven, Bach, Hummel, Mozart, Weber, todos eles estão à minha volta. Estudo-os, observo-os, devoro-os com entusiasmo e, para além disso, exercito-me quatro a cinco horas […]. Ah! Se não ficar louco, quando regressar, vais ter perante ti um artista!”. Por ser estrangeiro, Liszt vê recusada a sua candidatura ao Conservatório de Paris. Torna-se então aluno de composição de Anton Reicha e Ferdinando Paer. E quem tiver ainda lá por casa um piano Érard, saiba que o construtor, o famoso Sebastien Érard, contratou Liszt para divulgar os seus novos modelos.

 

Henri Lehmann, “Franz Liszt”, 1840

 

Retemos até hoje algumas histórias acerca do pequeno Franzi, pormenores que nos fizeram vê-lo não apenas como uma personagem prodigiosa, mas como um menino, talentoso, alegre, curioso e disparatado, atormentando os seus pais e professores com as mais inesperadas acrobacias e experiências. Conta-se que um dia, tendo descoberto como o seu pai manipulava pequenas quantidades de pólvora para a caça e para diversos outros usos domésticos, resolveu experimentar o efeito que obteria se lançasse no forno da cozinha uma maior quantidade. A explosão foi apenas assustadora e vistosa, felizmente para o autor da proeza, que foi projetado para o chão, incólume. Outro dos divertimentos de Franzi consistia em criar dedilhações loucas para as peças que Czerny o mandava estudar, deixando perplexo o seu pai, que assumia que o prestigiado professor seria amiúde acometido de delírios técnicos estapafúrdios. Noutra ocasião ainda, frustrado com os inglórios esforços para tocar décimas com as suas mãos infantis, Liszt foi apanhado segurando um imenso facalhão de cozinha, prestes a golpear as membranas entre os polegares. Numa época em que a criança prodígio estava na moda, muitos aspirantes a pianistas, e suas famílias e mentores, estavam dispostos a tudo para ultrapassar dificuldades técnicas, inclusivamente a recorrer à mutilação das mãos, cortando as membranas interdigitais ou submetendo-se a dolorosas máquinas de “modelar dedos”, como o “finger tormenter”, que terá arruinado a mão de Robert Schumman, por exemplo. Décadas depois, Liszt escrevia a uma das suas alunas: “My dear young lady: I beg you to think no more of having the barbarous finger-operation. Better to play every octave and chord wrong throughout your life than to commit such a mad attack upon your hands. With best thanks, I sign myself yours respectfully. F. Liszt”.

Liszt correspondia ao  estereótipo do compositor místico e caricatural, de rosto fantasmagórico, que escrevia para si próprio peças que exigiam acrobacias impossíveis. “Uma figura excessivamente alta e magra, uma face pálida com olhos verde-mar que brilhavam com flashes rápidos, como ondas em chamas… um andar indeciso, parecendo deslizar mais do que tocar com os pés no chão, uma aparência distraída e inquieta, como a de um fantasma prestes a regressar à escuridão”, assim o descreve Marie d’Agoult. Quarenta anos mais tarde, Amy Fay, uma das suas alunas, escreve: “A sua boca revira-se para cima nos cantos, o que lhe confere uma elaborada e mefistofélica expressão quando sorri, e toda a sua aparência e modos têm uma espécie de elegância jesuítica e à-vontade… Ele é todo espírito, mas metade do tempo, pelo menos, é um espírito trocista… Ele é bastante alto e estreito… faz-me pensar, antes de tudo, num mágico de outros tempos, e senti que, com um toque da sua varinha, ele poderia transformar tudo.”

Liszt transformava mesmo tudo aquilo em que tocava: as passagens simples surgiam dobradas em terceiras e oitavas; os trilos simples metamorfoseavam-se em trilos em sextas; tocava décimas com a facilidade com que os restantes tocariam oitavas e, mais, sequenciava-as. Movendo-se pelos salões aristocráticos, mas fascinado pelos ciganos, homem ardente nas suas paixões humanas, leitor ávido e profundamente religioso (tomou ordens franciscanas), Liszt era um virtuoso, mas também um pedagogo extraordinário. Não tinha método, nem sistema didático, nem técnica específica. Não dava conselhos. Entregava-se como modelo aos seus alunos: a observação direta do modo como as mãos de dedos incrivelmente longos pousavam no teclado, a sua dedilhação única, o modo como usava o pedal, a interpretação mágica que oferecia, valiam mais do que todos as escolas, métodos e técnicas. “Technique should create itself from spirit, not from mechanics”, afirmava. Não cobrava nada pelas lições e recebia alunos de todo o lado, respeitando a sua individualidade, como o provam múltiplas gravações. “O primeiro dever do professor é tornar-se desnecessário. O segundo dever do professor é ensinar os alunos a ensinarem-se a si próprios.” Na verdade, poucos como ele entendiam toda a dimensão etimológica do termo “educare” – encaminhar. A cidade de Weimar enchia-se quando Liszt lá estava para ensinar. E enchia-se não apenas de alunos ansiosos por ouvir e ser ouvidos. A cidade enchia-se de sons de teclados, em todas as ruas, em todas as praças, becos, esquinas e salões. A situação chegou a tal ponto que a câmara promulgou um edital proibindo tocar com as janelas abertas (os transgressores seriam oficialmente notificados e multados no valor de três marcos).

 

 

Num ano em que abundam gravações cedendo ao marketing das efemérides, destacaríamos “The Liszt concertos”, da Deutsche Grammophon, gravados ao vivo com a Staatskapelle Berlin, e em que a equilibrada serenidade de Pierre Boulez redimensiona os contrastes composicionais expressivos rapsódicos do compositor. Esta é uma gravação em que Daniel Barenboim injeta de cromáticas ilusões poéticas a inultrapassável técnica pianística (preparem-se, todos os pais e filhos amantes do triângulo, para o imperdível solo no “Piano concerto nº 1”).

Liszt detestava crianças prodígio. Ironicamente, um tataraneto recebeu a sua herança genética genial e tornou-se num menino prodígio do piano. Chama-se Michael Andreas Haeringer, e nasceu em Barcelona, filho de pais alemães. Brinca com peluches e gosta de desenhos animados.

 

 

 

CD “The Liszt concertos”, de Daniel Barenboim e Pierre Boulez com a Staatskapelle Berlin
Deutsche Grammophon / Universal, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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“O que é o amor?”, de Davide Cali com ilustrações de Anna Laura Cantone

 

A jovem e promissora Gato na Lua premiou-nos, até agora, com quatro obras, exemplo do que pretende vir a ser uma visão editorial diversificada: temos de novo à venda “Um lobo culto”, de Becky Bloom e Pascal Biet, uma presença permanente na lista de recomendações do Plano Nacional de Leitura; surge-nos ainda uma nova versão do tradicional “O gato das botas”, com adaptação e ilustrações de Ayano Imai; mas as duas obras que merecem o nosso particular destaque são, inequivocamente, o divertido “O que é o amor?” de Davide Cali, com ilustrações de Anna Laura Cantone, e o belíssimo “O meu balão vermelho”, de Kazuaki Yamada, que aqui apresentaremos em breve.

Davide Cali e Anna Laura Cantone são já bem conhecidos em Portugal: tanto como dupla em “Quero uma mamã robot” (Horizonte, 2007) e “Um papá à medida” (Ambar, 2007), como em outras parcerias de sucesso, nomeadamente “Eu espero” (Davide Cali com Serge Bloch, na Bruaá, 2008), “Um dia, um guarda-chuva” (Davide Cali com Valerio Vidali, para a Planeta Tangerina, 2011); ou “Alice entre as gravuras” (Anna Laura Cantone ilustrando Gianni Rodari para a Dinalivro, 2008) e “Uma noiva bela, belíssima” (Anna Laura Cantone com Beatrice Masini, Horizonte, 2002).

 

 

“O que é o amor?” é um álbum ilustrado para crianças. Correto. Mas apetece-nos pensá-lo como um tratado de filosofia. O título interrogativo, típico das indagações filosóficas mais complexas (na realidade, esta pode ser considerada uma das interrogações chave da história da humanidade), afigura-se igualmente surpreendente e incomodativo quando debitado pela boca de uma criança. Neste caso, se toda a narrativa se constrói cumulativamente em torno da demanda interrogativa da pequena Emma junto do seu núcleo familiar, o que é certo é que chegamos ao final com diversas respostas… mas sem “a” resposta (o que também constitui, em si, uma resposta) e com um convite implícito para que sejamos nós, leitores pequenos e grandes, a criar outras respostas. Confusos?

Apesar de na tradução se perder algo da dimensão poética e rítmica do texto original, cada personagem que surge oferece uma definição de “amor”, simultaneamente concisa e metafórica, uma perfeita analogia em função dos seus interesses e atividades. Define-se o conceito abstrato de “amor” recorrendo à sua objetificação concreta. O resultado é uma compilação delirante e hilariante, sobretudo quando a protagonista reflete maduramente sobre as respostas e decide colocar em prática os ensinamentos. Os binómios seriedade/humor, intensidade/leveza, alegria/ansiedade surgem no texto e são acompanhados pela ilustração. Na verdade, equilíbrio semântico e icónico reforçam a dimensão cómica da obra.

 

 

A ilustração integra detalhes subtis de décor retro e um universo doméstico ultrarromântico, simbólico e feminino, de filigranas de papel, flores e borboletas, numa paleta de cores contida. As imagens pedem tempo para o pormenor. Em torno das figuras espiralam e rodopiam linhas, descobrem-se colagens, cenários e objetos de tecido, fazem-se flores de rosetas de croché, que adicionam textura a elementos já de si dinâmicos. Interessante, ainda, é a utilização de elementos do cenário, como a porta do armário da coleção de carrinhos e a cama, para aconchegar o texto.

 

 

Paradoxalmente, as personagens assumem uma fisicalidade de cartoon, com corpos ora alongados, ora inchados, quase grotescos, e ostentam expressivos rostos de caricatura: os olhos são globosos, esbugalhados, com pálpebras de persiana, os narizes são disformes, as bocas concretizam-se em linhas expressivas ou em lábios clássicos, ou arreganham-se em amplitudes de bocejo ou sorrisos de dentadura completa. Nota-se ainda a irónica marca do universo dos contos de fadas, nomeadamente através de uns estereotipados sapos (ou rãs?), aguardando a chegada do amor, em poses expectantes e compostas. E o que dizer das provocadoras borboletas, irritantes na sua obsessiva e ziguezagueante presença, do princípio até ao fim da obra? Dizem que a borboleta é a metáfora perfeita da teoria do caos, e a ancestral representação da feminilidade e da harmonia conjugal, do amor, do renascimento e da metamorfose. Mas é também o símbolo da paciência para refletir e da demanda.

 

livro “O que é o amor?”, de Davide Cali com ilustrações de Anna Laura Cantone
Gato na Lua, 2011
[a partir dos 4 anos]

 

Paula Pina

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“Juro que vi um dinossauro!”, de Jeanne Willis com ilustrações de Adrian Reynolds

A recentemente publicada obra de  Jeanne Willis e Adrian Reynolds, “Juro que vi um dinossauro!”, junta-se aos dois outros volumes dos mesmos autores editados pela Civilização em 2010: “Quem está na casa de banho?” e o divertido “Não tem graça!”. O ilustrador Adrian Reynolds é mais conhecido em Portugal através da série de animação “Harry e o balde de dinossauros”. O seu talento para a criação de sequências cinematográficas é visível neste livro.

Trata-se de uma história, narrada em verso, na linha tradicional das lengalengas e dos contos acumulativos, tal como nas obras anteriores. Neste caso, brincando com o conceito-chave do boato, a obra acaba por oferecer uma reflexão sobre o próprio processo de criação de notícias e uma lição sobre estratégias de marketing. Partindo da afirmação categórica que dá nome ao livro, aquela que seria naturalmente considerada uma frase exclamativa puramente infantil e imaginativa, descartada por qualquer adulto razoável com um simples encolher de ombros e um “sim, sim, pois” condescendente, somos empurrados para uma verdadeira aventura, com um ritmo alucinante, imparável até nas respirações de uma leitura em voz alta. O narrador, de primeira pessoa, dá a notícia (ou conta a história, revela uma descoberta) em primeira mão ao leitor. O juramento que acompanha a notícia parece conferir-lhe toda a seriedade: quem jura que vê, viu mesmo, e, portanto, será credível. Esta credibilidade funciona aqui com um efeito bola de neve, levando tudo e todos pelo caminho, não importa a hierarquia, profissão, estatuto, crença ou relação, humano ou animal, do padeiro à veterinária, do padre aos cientistas, aos jornalistas e à Marinha, à Força Aérea e Exército. O autor da façanha junta-se ao leitor/espetador, ao longo das páginas, observando e comentando, com distanciamento e ironia, os efeitos da sua iniciativa. Um dos momentos mais cómicos surge quando um grupo de crianças (protagonista incluído), lambuzadas de gelado, vê as notícias na televisão. Ao lado, um avô placidamente adormecido na poltrona. Em cima do aparelho, um gato siamês espreita pela janela os mesmos navios de guerra e helicópteros que surgem no ecrã. Segue-se o momento climático da obra (pelo menos para os mais pequenos), quando a silhueta escura de um dinossauro enche as páginas.

No final, o narrador celebra, imodestamente, o sucesso do plano: “Mas haverá mesmo algum dinossauro em carne e osso? / Ou não passou tudo de um dos planos por mim engendrados / que criou todo este alvoroço / Para o meu pai vender mais gelados?” A resposta a esta questão aparece só na última linha da última página, ou melhor, na ilustração que a acompanha. Nós nunca vimos dinossauros em carne e osso, mas, inspirados pelas guardas do livro, ficámos com vontade de os desenhar. Antes disso, contudo, vamos ali num instantinho comprar um gelado. Sim, um gelado, não fiquem de boca aberta. Entretanto, podem ficar aí, entretidos a tentar descobrir onde se esconde o discreto dinossauro nas páginas coloridas do livro.

 

livro “Juro que vi um dinossauro!”, de Jeanne Willis com ilustrações de Adrian Reynolds
Civilização, 2011
[a partir dos 4 anos]

 
Paula Pina

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“A crocodila mandona” e “O país das pessoas de pernas para o ar”, da Tcharan

 

Dois livros inauguram uma nova editora, a Tcharan, da ilustradora Marta Madureira e da escritora Adélia Carvalho. “A crocodila mandona”, primeiro trabalho da dupla neste contexto (depois de se terem cruzado no “Livro dos medos”, publicado pela Trampolim em 2009), mereceu uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração 2010, da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas. Percebe-se por que razão. O texto em verso encaixa-se no âmbito das lengalengas e histórias acumulativas rimadas, típicas do universo popular de tradição oral, ou, se quisermos, pode ser uma espécie de jogo atualizado do “Bom barqueiro” (“Linda falua”, para outros), em que a teatralidade dos diálogos curtos e incisivos entre as diversas personagens que vão surgindo ecoam outras histórias, como “O coelhinho branco e a formiga rabiga”, por exemplo. Se este texto, enquanto reescrita da tradição, funciona como exercício de memorização ou jogo de expressão dramática, oferece-se, nas páginas finais, também como proposta didática, convidando à criação de novas personagens e novas rimas, nas modalidades escrita e desenho.

Quanto a “O país das pessoas de pernas para o ar”, é uma reedição de um texto de 1973, de um autor consagrado, Manuel António Pina. É delicioso reler este Manuel António Pina, que aqui, descarado, nos alimenta com colheradas cheias de doce humor, roçando o nonsense, brincando com as palavras, com as personificações, com as escolhas dos nomes das personagens, com o excesso de copulativas, com as repetições, com as frases, em sintáticos desarranjos, construindo “childlike styled narratives”.

 

“Uma vez a Sara tinha um passarinho. O passarinho chamava-se Fausto. Era branco e amarelo e chamava-se Fausto. O nome dele era Fausto.”

 

São quatro as histórias: “O país das pessoas de pernas para o ar”, a primeira, seguindo-se “A vida de um peixinho vermelho”. Depois, duas pequenas narrativas tendo o menino Jesus como protagonista: “O menino Jesus não quer ser Deus” e “O bolo do Menino Jesus”. Quem conhece as histórias que as crianças inventam e escrevem, não consegue evitar um sorriso. E, pensando no que se escrevia e se publicava para crianças no início dos anos 70, compreendem-se melhor as ousadias de Manuel António Pina:

 

“Um bolo estava na montra da pastelaria, todo coberto de açúcar. O menino Jesus ia a passar, levado pela mão por S. José e aquele bolo pensou:

– Queria que este menino me comesse. Ele é Deus, queria que ele me comesse com a boca dele. Ia para dentro dele, e depois ia para o estômago dele; e depois ele fazia a digestão, e eu ia para o sangue dele, ficava para sempre dentro do sangue dele. Transformava-me no sangue do menino Jesus e andava dum lado para o outro dentro do corpo do menino Jesus. Com um bocadinho de sorte, talvez até aparecesse na chaga do lado.

Aquele bolo pensou estas coisas, como seria bom o menino Jesus comê-lo, e ficou triste.”

 

Ousadias também as da ilustradora, que recorrendo a técnicas mistas nos surpreende com o seu sentido de equilíbrio gráfico entre texto e imagem, nos encanta com o cuidado nos detalhes, com a subtileza do seu humor e plena compreensão do texto.

Uma entrada “tcharan!” para a Tcharan.

 

livro “A crocodila mandona”, de Adélia Carvalho com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2010

[a partir dos 4 anos]

 

 

livro “O país das pessoas de pernas para o ar”, de Manuel António Pina com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2011

[a partir dos 5 anos]

 

 

Paula Pina

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