Tag Archives: a partir dos 6 anos

“Ginástica animalástica”, de Isabel Minhós Martins e João Fazenda

 

Digam a uma criança de seis anos que ela é um animal e recebam de resposta uma boca aberta e dois olhos esbugalhados. É mais fácil acreditar num pai natal transportado por renas que voam. Este livro pode ser uma ajuda simples para introduzir o estranho tema da biologia e a origem das aulas de ginástica junto de quem acha que o leite vem do pacote e que os leões são aqueles animais que vivem no jardim zoológico. “Ginástica animalástica” usa as palavras de Isabel Minhós Martins e os desenhos de João Fazenda para contar a história de Continue reading

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Filed under Ilustração, Literatura

“Há festa na aldeia”, “As férias do Sr. Hulot”, “O meu tio” e “Vida moderna”, de Jacques Tati

 

A primeira destas longas metragens tem um estrábico que martela sempre ao lado do alvo e que, algumas cenas depois, faz pontaria numa barraca de prémios na feira; tem uma mosca que importuna todas as pessoas com que se cruza (até o tocador de pratos da orquestra, como em “The band concert”, a obra-prima de Walt Disney protagonizada por Mickey e Donald em 1935); tem uma festa popular que inclui uma tenda que exibe um filme sobre a Continue reading

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Filed under Cinema, Ram Ram

Presente perfeito, pelo Natal 2011 [a partir dos 6 anos]

[primeiro ano] [a partir dos 12 meses] [a partir dos 2 anos] [a partir dos 3 anos] [a partir dos 4 anos] [a partir dos 5 anos]

 

São escolhas do passado recente, são escolhas de presentes, mas são sobretudo escolhas de futuro. O Natal é só um (feliz) pretexto. Felizes pretextos para os vermos ainda mais felizes. Por agora, as nossas escolhas para crianças a partir dos seis anos. Continue reading

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Filed under Brinquedos, Cinema

Rabiscar, desenhar, colorir, pintar,…

 

A voz da professora vai ficando cada vez mais longe… mais longe… ele olha pela janela… assalta-o a memória das férias, do passeio de canoa… Não, não pode ser. Tenta concentrar-se na voz monocórdica, que vai ficando cada vez mais aguda com o esforço e cansaço. A professora vira-se e começa a desenhar um gráfico no quadro, sem parar de falar. Agarrando-se à caneta, como boia de salvação, as notas soltas que tirava tornam-se setas e figuras geométricas. Umas espirais no canto superior direito do caderno, um jogo do galo. Os outros recantos da página enchem-se subitamente de olhos e do símbolo do Super Homem…

(…)

– Sim, avó, está bem. Sim. Sim, adorei a camisola. Não. Não. Não faz mal ter ursos e gatinhos… Pois são. Hum, hum… Sim, comi. Comi. Não, não se estragou. Estava bom. Pronto. Pronto. Beijinhos também para ti. Também para o avô. Está bem. Vou à farmácia. Está bem, não me esqueço de comprar o chá… Sim, e da pomada. Pronto. Pronto. Beijinhos. Tchau. Tchau.

A porta da rua fechou-se, com um estrondo atrás dela. A casa ficou silenciosa. O bloco de notas ao pé do telefone, esse, enchera-se de traços, de flores, de rabiscos e letras ornamentadas, uma casa e um raio de tempestade ziguezagueante.

(…)

Está provado, afirmam diversos especialistas, que rabiscar livremente aumenta a memória e a concentração. Rabiscar requer um esforço cognitivo mínimo, suficiente apenas para assegurar que os recursos mentais estão focalizados na atividade mais importante. Ou seja, rabiscar acaba por constituir uma distração adequada, na dose certa, que, contraintuitivamente, nos obriga a focalizar na execução da tarefa rotineira, aborrecida, repetitiva, desinteressante, mas essencial, que precisa de ser completada. Sem o apoio dos rabiscos, o jovem estudante teria certamente enveredado pela viagem mental de canoa. Sem o auxílio dos rabiscos, a conversa telefónica não teria conduzido à concretização da lista de tarefas.

 

 

Amplamente utilizado por psicopedagogos como instrumento de avaliação e estratégia comunicativa com crianças, o jogo dos rabiscos está presente, de um modo mais ou menos óbvio, mais ou menos criativo, em versões dos velhinhos (ora amados, ora odiados) livros para colorir, que têm, em tempos recentes, invadido o mercado editorial português. Com a chancela de editoras respeitáveis na área da literatura para crianças, como a Civilização, a Edicare, a Gailivro e a Orfeu Mini, estas obras caraterizam-se, paradoxalmente, pelo oposto do que apregoam nos títulos.

Se os principais conceitos inerentes ao ato de rabiscar, de fazer “doodles”, são a liberdade (de traços, de ação, de estilo, de contexto, de suportes…) e ausência de regras, as coleções agora apresentadas oferecem, precisamente, oportunidades de criação plástica segundo normas fixas. Claro que os cenários para personalizar são originais; as ideias apontadas são divertidas; as atividades são sugestivas e variadas; o papel é geralmente bom (o que é sempre maravilhoso). Em tom mais ou menos didatorial, didático ou até poético, os jovens destinatários preferenciais são convidados a ler e a criar… criativamente. Misericordiosamente poupados à angústia da folha em branco. Caridosamente salvos das tristes folhinhas fotocopiadas para colorir com impressões de gosto duvidoso de figurinhas dos desenhos animados ou aparentados, retirados à pressa da internet, que os educadores e professores assoberbados e bem intencionados lhes colocam à frente. Miraculosamente resgatados do contacto com os livrinhos de atividades comprados pela avó na papelaria da esquina para o menino pintar por dentro, muito sossegadinho, com lápis de cera, depois de fazer as fichazinhas dos trabalhinhos de casa, enquanto a avó faz o jantar, passa a ferro e dá o biberão ao mano.

 

 

As propostas da Civilização acabam, infelizmente, por resvalar para o estilo ficha de atividade, não obstante algumas ideias interessantes que não chegam a ser exploradas.

 

 

As melhores sugestões chegam-nos via Edicare, de Fiona Watt, com diferentes ilustradores, em formato convencional ou em versão de bolso: desenhar, pintar, colorir, completar, transformar, terminar, copiar, decorar, preencher, criar padrões, rabiscar, sempre com atividades originais e em estilos diferentes. Claro que a tendência natural dos artistas em perspetiva será seguir o modelo oferecido, mas o contacto com a variedade de opções estéticas é valioso.

 

 

A Gailivro, com Nikalas Catlow, constrói em cada página uma proposta em forma de mini história, pergunta ou comentário. O estilo, ainda que simples e aliciante, é sempre o mesmo, e a fraca qualidade do papel, quase transparente, não permite a utilização de tintas ou canetas de feltro.

 

 

A Orfeu Mini propõe-nos algo próximo de uma narrativa-catálogo de coisas favoritas, legendadas, a partir da frase inicial “No meu caderno desenho todas as coisas de que gosto…”, da autoria de Laurent Moreau. Ao título “Dias felizes” (numa tradução pouco feliz de “Les beaux instants”), acrescenta-se um subtítulo desconcertante: “Um imaginário para colorir”.

 

Já o “Caderno de pintura para aprender as cores”, de Pascale Estellon, também da Orfeu Mini, se destina àqueles que desejam iniciar-se nos mistérios das cores e no manejo de materiais e pintura “a sério”: as páginas enormes, de cartolina, convidam, de facto, à experiência com os tubos de guache e pincéis; as dicas técnicas são úteis, na dose certa.

Atenção a todos os livres rabiscadores de todas as idades: há por aí muitas tentativas de interpretação pseudo-psico-cognitivo-qualquer-coisa que vos podem deixar preocupados. Não se aflijam se desenharem muitas setas, estrelas, corações inteiros ou partidos, olhos, espirais ou flores. Não se atormentem com o vosso fraco talento para o desenho (provavelmente agudizado por algumas aulas de Educação Visual ou por algum “dois” na pauta de avaliação). Desenhem. Rabisquem à vontade. Sem regras. Ou, se quiserem, com algumas delas. Mas só algumas.

 

livro “Riscos e rabiscos – Vou de férias”, s/a
livro “Riscos e rabiscos – Super rabiscos”, de Woody Fox
livro “Riscos e rabiscos – Quinta”, de Emma Parish
livro “Riscos e rabiscos – Livro das férias”, de Nikalas Catlow
livro “Riscos e rabiscos – Horas”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – Formas”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – Zoo”, de Emma Parish
livro “Riscos e rabiscos – Era uma vez”, de Andy Cooke
livro “Riscos e rabiscos – A B C”, de Nancy Meyers
livro “Riscos e rabiscos – 1 2 3”, de Nancy Meyers
todos Civilização, 2011
[a partir dos 6 anos]

livro “Desenhar, rabiscar e colorir”, de Fiona Watt com ilustrações de Erica Harrison e Katie Lovell
Edicare, 2011
[a partir dos 6 anos]

livros “Rabiscar e desenhar – Livro de bolso” (dois volumes: azul e vermelho), de Fiona Watt com ilustrações de Non Figg
ambos Edicare, 2011
[a partir dos 6 anos]

livro “E tu, rabiscas?”, de Nikalas Catlow
Gailivro, 2011
[a partir dos 5 anos]

livro “Dias felizes – Um imaginário para colorir”, de Laurent Moreau
Orfeu Mini, 2010
[a partir dos 6 anos]

livro “Caderno de pintura para aprender as cores”, de Pascale Estellon
Orfeu Mini, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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Filed under Ilustração, Literatura

Woody Woodpecker

Li recentemente um artigo sobre a relação entre programas televisivos e violência infantil e juvenil. Nesse artigo fazia-se um resumo das principais linhas de investigação acerca do tema e debatia-se, sumariamente, o resultado de diversas experiências, conduzidas um pouco por todo o mundo, quer em laboratórios bem apetrechados e por equipas constituídas por cientistas afamados, quer em humildes comunidades esquecidas, lideradas por jovens aspirantes a investigadores. Embora inconclusivo, porque inconclusivos ou discutíveis foram também os relatórios das experiências, o artigo referia, de passagem, um estudo laboratorial em particular, desenvolvido em 1956, com uma amostra de 24 crianças. O grupo foi dividido em dois: 12 crianças visualizaram um episódio de Woody Woodpecker, o famoso Pica-Pau criado em 1940 por Walter Lantz; as outras 12 viram um episódio de “The little red hen” (“A pequena galinha ruiva”).

Ora, se a memória me não atraiçoa, “The little red hen” é uma pequena fábula, de origem russa muito provavelmente, e com intuitos moralizantes óbvios: a galinha pede ajuda a vários animais para plantar o milho, colher, moer e fazer o pão e os bolos, mas todos se recusam, de forma mais ou menos descarada, e recorrendo a desculpas tolas. Claro que, depois do trabalho feito, estão todos prontos para participar do banquete. A galinha recusa-se então a partilhar os resultados do seu esforço e castiga a falta de solidariedade e de ajuda, alimentando orgulhosamente apenas os seus pintainhos. Na versão da Disney, “The wise little hen”, com a presença de um Pato Donald estreante, surge uma mesa coberta de delícias feitas de milho e fabulosas maçarocas (sim, também há uns pontapés, mas nada por aí além…).

 

 

Por outro lado, se bem me lembro, Woody Woodpecker era uma personagem bizarra, de raça indefinida e de sucesso inesperado junto das audiências. Era uma ave de poupa vermelha e corpo azul (variáveis), dona de uma mente tresloucada (sempre) e uma personalidade bem disposta, dotada de uma energia histérica e com um riso absolutamente singular (ainda que com vozes variáveis). Claro que o estereótipo da época se fazia sentir nos gags alucinantes, desde os nomes das restantes personagens à fisicalidade absurda das suas iniciativas, passando pelas paródias e autoreferências.

Curiosamente, o que sempre me fascinou no Woody Woodpecker nada tinha a ver com a violência dos gestos. Nada tinha a ver com a comicidade das situações. O que mais admirava era as maravilhosamente pictóricas e psicadélicas explosões de cor, irradiando do ecrã após explosões, pancadas, choques, entaladelas, apertões, pontapés e outras torturas, em imagens que sempre me pareceram quadros abstratos em movimento; a música, claro, a banda sonora; e a voz estranha, às vezes meio masculina e outras feminina, do Pica-Pau, e o seu inesquecível riso em staccattos diafragmais (que eu secretamente treinava). Relembremos a primeira aparição pública de Woody Woodpecker, em novembro de 1940, num episódio da série “Andy Panda”:

 

 

Depois de ler o artigo, confesso, fiquei um bocadinho apoquentada. Tanta violência televisiva que digerimos na infância, sem qualquer tipo de controlo parental ou escolar, deve ter afetado, senão grave, pelo menos parcialmente, o nosso desenvolvimento cognitivo, psicológico, afectivo, relacional, social. Foram tantas as marteladas a que assisti nessa época, que, certamente, num destes dias, acordarei enfiada num colete de forças. Só desejo que as gargalhadas de loucura que vier a soltar sejam parecidas com as do Woody Woodpecker…

 

dvd’s “As aventuras de Pica-Pau” (“The Woody Woodpecker show”)
Público, 2011
[a partir dos 6 anos]

 

Paula Pina

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“Isto é…”, de M. Sasek

Lembram-se da vossa primeira grande viagem? Lembram-se daquela sensação de deslumbramento misturado com um nervoso miudinho, que vos acelerava ligeiramente o coração e acentuava o discreto bater de asas de borboleta nas paredes do estômago? Lembram-se da primeira vez que percorreram a plataforma de uma gare internacional? E da primeira vez que estenderam o vosso passaporte de avião, novinho em folha, a um funcionário ensonado da alfândega do aeroporto? Quem guarda ainda o primeiro bilhete de metro de uma grande cidade?

Nascido em Praga em 1916, e falecido na Suíça em 1980, Miroslav Sasek é o autor e ilustrador premiado da série “Isto é…”, em que regista as suas impressões sobre algumas cidades, regiões e países do mundo. O sucesso obtido com o primeiro volume da série, “Isto é Paris”, publicado em 1959, leva o autor a encetar um percurso que resultará na edição de diversos outros livros: Londres, Roma, Nova Iorque, Veneza, Edimburgo, Israel, São Francisco, Hong Kong, Grécia, Bretanha, Irlanda, Austrália, Cabo Kennedy, Washington D.C. ou Munique.

 

 

Sobre a criação de alguns destes livros, o autor recorda (em “Books are by people – Interviews with 104 authors and illustrators of books for young people”, de Lee Bennett Hopkins, Citation Press, 1969): “Hong Kong foi um livro muito difícil de fazer por causa do problema da língua. Demorei horas e horas a desenhar os carateres do alfabeto. Tentei usar a máquina fotográfica, mas não resultou. Ás vezes apetecia-me gritar! Três vezes, dez vezes, doze vezes, levei eu até conseguir aperfeiçoar uma só imagem!” (…) “Para fazer ‘Isto é Texas’ tive de viajar 3000 milhas de autocarro para ver tudo o que precisava de ver! E quando fiz ‘Isto é Israel’ (1962), as pessoas riam-se durante horas do modo como eu pintava os sinais. Elas não conseguiam perceber como é que eu desenhava da esquerda para a direita quando elas liam e escreviam as letras da direita para a esquerda!”. Traduzidos em muitas línguas, a editora Civilização publicou há pouco tempo estes quatro volumes e promete-nos mais alguns vertidos para a língua portuguesa no decurso do próximo ano.

 

 

Afirma ainda Sasek: “O pormenor é muito importante para as crianças. Se eu pinto 53 janelas em vez de 54 num edifício, recebo logo uma avalancha de cartas. As crianças de hoje sabem tudo – o mundo é muito mais pequeno. Eu recordo-me de regressar a minha casa, em Munique, depois de terminar ‘Isto é Cabo Kennedy’ (1964). O meu filho olhou para os meus livros de esboços e, sem uma única palavra minha, começou logo a dizer ‘isto é o foguetão Apolo e esta é a rampa de lançamento e isto é…’. Eu não conseguia acreditar! Às vezes nem acredito no que sabem as crianças hoje em dia. Quando eu era novo, ninguém viajava. E é por isto que o mais simples detalhe é tão importante.”

 

 
Bilhetes, recibos, convites, excertos de guias, folhetos, selos, postais, sinais de trânsito, símbolos, cores, trajes, fotografias e retratos pintados de curiosidades, hábitos, rituais, pormenores, bizarrias que tornam cada cidade única, cada país especial, é isso tudo que encontramos nos livros de Miroslav Sasek. As cidades e os países, os seus monumentos, os seus habitantes (humanos e animais!), são pintados ao ritmo de um diário com impressões detalhadas de viagem, no passo infantil de quem vem para desvendar o máximo no mínimo que cada esquina, que cada recanto tem para oferecer.

 

 
“Isto é”, “aqui está”, “este é”, os deíticos de Sasek, tão típicos da linguagem infantil, cumprem aqui também uma função outra, para além da enumeração ou conexão frásica: colam-nos à imagem, nós, leitores, juntamente com o “tu” informal que o narrador usa para se nos dirigir. Sem a preocupação extenuante de ser pedagógico, sem arrastar o lastro de ser informativo, sem o vazio lúdico do humor emprestado, o olhar é sempre o de quem vem visitar para descobrir, o olhar de quem regressa diferente.

Sobre a génese da obra, pensada depois de umas férias em Paris, diz-nos Sasek: “Originalmente, queria fazer uma série de três livros: Paris, Roma e Londres. Nunca pensei que pudesse continuar para além disso.” Nós desejávamos que tivesse continuado e continuado e continuado… Quem precisa de guias de viagem? Nós levamos os exemplares da obra de Sasek.

 
livros “Isto é Paris”, “Isto é Roma”, “Isto é Londres” e “Isto é Nova Iorque”,  de M. Sasek

todos Civilização, 2011

[a partir dos 6 anos]

 

 

Paula Pina

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