Tag Archives: a partir dos 8 anos

Livros para pré-adolescentes e adolescentes

brian selznick a invencao de hugo cabret 2

 

Difícil e inglória é, muitas vezes, a tarefa de encontrar livros para pré-adolescentes e adolescentes que desejam outras leituras que lhes permitam escapar à voragem da literatura de aventuras (redutora), da literatura fantástica (excessiva), da literatura policial ou de mistério (de cabeceira), da literatura de costumes (desapontante), da literatura de auto-ajuda-e-conhecimento (moralizante e antiquada), da literatura de lista escolar obrigatória (imposta). Há ainda muitos jovens que passaram pela literatura de sucesso comercial (de Continue reading

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Ana Biscaia, 17º Prémio Nacional de Ilustração

capa a cadeira que queria ser sofa

 

Clovis Levi (nascido em 1944), escritor, dramaturgo, encenador, diretor, crítico e professor brasileiro, já se fizera notar em Portugal com “O beco do pânico” (Calendário das Letras, 2009), incluído de imediato no Plano Nacional de Leitura, por entre o desconforto de uns e a hesitação de outros, por entre as convicções de muitos e os medos de imensos. Explique-se a razão: a descoberta da sexualidade continua tema tabu, mesmo numa escola que apregoa o arrojo educativo e se autodesigna de “futuro”. Aparentemente, as dimensões disruptivas de “A cadeira que queria ser sofá.”, aposta da editora Lápis de Memórias, parecem ter fascinado o júri deste 17º Prémio Nacional de Ilustração, hoje atribuído. Os três contos de que é composta a obra vão para além das Continue reading

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Presente perfeito, pelo Dia Mundial da Criança 2013 [a partir dos 5 anos]

capa nicomedes o careca pormenor

 

Procuramos prodigiosos presentes propostos prá prole privilegiada – primorosas princesas ou principiantes prestidigitadores -, premissa prioritariamente projetada, protegida e promovida pelos prezados progenitores percetores Continue reading

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“Contos da infância e do lar”, dos Irmãos Grimm

irmaos grimm

 

No âmbito do bicentenário da publicação em língua alemã do primeiro volume dos “Kinder- und Hausmärchen” (1812), a Temas e Debates lançou neste ano a primeira edição portuguesa integral destes famosos “Contos da infância e do lar” da autoria dos irmãos Jacob e Wilhelm Grimm. Em três grossos e Continue reading

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Presente perfeito, pelo Natal 2012 [a partir dos 8 anos]

capa as historias de terror do tio montague pormenor

 

Como já se tornou um hábito, não poderíamos chegar ao Natal sem dizer “presente!” – por isso, aqui estamos com as nossas escolhas de presentes para distintos gostos e feitios, unidos pelas doses inesquecíveis de magia e beleza que acrescentarão ao sonho das crias que mais amamos. Continue reading

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“Ninguém sabe” e “Andando”, de Hirokazu Kore-eda

capa hirokazu koreeda ninguem sabe

 

Depois da exibição em salas nacionais do último filme do realizador Hirokazu Kore-eda, o magnífico “O meu maior desejo”, a Leopardo Filmes recupera agora duas outras notáveis produções do criador nipónico. “Ninguém sabe” e “Andando” (de 2004 e 2008, respetivamente) tiveram celebrada estreia comercial no nosso país, e encontram-se nesta reedição conjunta que enfatiza o Continue reading

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“A coisa perdida”, de Shaun Tan

 

Duas criaturas bizarras, marginais e solitárias – um rapaz e uma “coisa perdida” – cruzam-se num cenário aridamente futurista e industrializado. Enigmática, sem nome, sem proprietário, de origens e referências desconhecidas, sobre esta “coisa perdida” pouco ou nada se sabe. E, efetivamente, depois de lermos este livro, nada ficamos a saber. Shaun Tan, autor e ilustrador australiano (cuja obra já conhecíamos em Portugal de títulos fundamentais como “Emigrantes” ou “Contos dos subúrbios”), ao invés de traçar um Continue reading

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António Palolo e Jef Geys na Culturgest, Lisboa

 

A mostra que propõe “Os filmes” de António Palolo reúne algumas das peças do espólio videográfico do pintor e artista plástico eborense, produzidas entre o final dos anos 60 e 1978. Os primeiros filmes são composições animadas a preto e branco, conjugando elementos iconográficos reclamados a períodos que se estendem da Continue reading

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“Urban Sketchers em Lisboa – Desenhando a cidade”, de Urban Sketchers

 

Em 2008, o jornalista e ilustrador espanhol Gabriel Campanario fundou o Urban Sketchers, um site associado a uma organização sem fins lucrativos que se dedica à dinamização do desenho de esboço rápido. Em 2011, na sequência do 2.º Simpósio Internacional dos Urban Sketchers, que teve lugar em Lisboa, o Adamastor, o Largo de Camões, o Chiado, o Elevador de Santa Justa, o Miradouro de São Pedro de Alcântara, entre outros locais emblemáticos da capital, serviram de pano de fundo às explorações visuais de amantes da Continue reading

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Presente perfeito, pelo Dia Mundial da Criança 2012 [a partir dos 8 anos]

 

Entre uma ansiedade manifesta, que faz o coração transbordar de tamanha curiosidade, e um silêncio tímido, a expetativa por um Dia da Criança perfeito é comum. Por isso mesmo, e para que com as nossas crias possamos fazer perdurar esta celebração da vida que elas nos acrescentam, aqui se elencam as nossas escolhas de presentes para satisfazer a Continue reading

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“James e o pêssego gigante” e “Matilda”, de Roald Dahl e Quentin Blake

 

O que têm os livros de Roald Dahl de especial? Personagens repulsivas, descrições nojentas, situações absurdas, palavras chocantes – podemos inclusivamente variar a ordem de colocação dos adjetivos anteriores que o resultado será sempre o mesmo: são simples e maravilhosamente controversos e subversivos, plenos de intertextualidades e metalinguisticamente desafiadores. Depois de “Charlie e a fábrica de chocolate” e de “O fantástico Sr. Raposo”, traduzidos em 2011, a editora Civilização oferece-nos agora a oportunidade de reler “James e o pêssego gigante” (1961) e “Matilda” (1988), com as clássicas ilustrações de Quentin Blake. Os heróis, inesquecíveis nas suas fragilidades e solidão, ajudam-nos, como nas histórias tradicionais, a perceber como a inteligência, a persistência e a humildade podem vencer qualquer obstáculo – mesmo que esses obstáculos sejam adultos todo-poderosos, violentos, insensíveis, idiotas ou Continue reading

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“Escreve o teu livro de histórias”, de Suzie Harrison e Katie Lovell

 

Quantas lendas do ciclismo terão dado as suas primeiras pedaladas em bicicletas com rodinhas traseiras de apoio? Incontáveis, certamente… E quantos ilustres romancistas irão assentar os seus primeiros esboços narrativos neste livro? Incontáveis, certamente… “Escreve o teu livro de histórias” é uma espécie de rodinhas traseiras de apoio para uma bicicleta literária que quer ser pedalada na fantasia de muitas crianças, mas que até aqui não sabia como garantir o Continue reading

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“Fernando Pessoa – Plural como o universo”, na Fundação Calouste Gulbenkian, Lisboa

 

“Sê plural como o universo” surge escrito no topo de uma folha branca de papel, máxima-título de texto por escrever ou tantas vezes escrito, cujas continuidades se adivinham e concretizam em toda a obra que hoje conhecemos de Fernando Pessoa. A folha original está exposta na última sala, e nela figura esta frase que, despojada do verbo imperativo, (des)apropriada portanto, serve de mote da exposição. As mesmas palavras surgem também, escrita negra em espelho deformante, marcando a entrada numa das salas. Outro topo de folha, desta vez pedaço rasgado, figura num dos painéis: “O universo é Continue reading

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“Um Natal especial”, de Judi Abbot, e “Uma canção de Natal”, de Charles Dickens e Roberto Innocenti

 

É um dos temas tradicionais, escolarizados, obrigatórios, necessários, impostos, desejado por uns, combatido por outros. O Natal – em livro, em verso ou em prosa, com ou sem Pai Natal (geralmente com), em cd, dvd, com ou sem nome próprio incorporado na historiazinha, com desenhos, brilhantes e estrelinhas – lá regressa, ano após ano, em traje esfiapado de tanto repuxado valor e intenção, cotovelos esburacados pelos Continue reading

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Presente perfeito, pelo Natal 2011 [a partir dos 7 anos]

[primeiro ano] [a partir dos 12 meses] [a partir dos 2 anos] [a partir dos 3 anos] [a partir dos 4 anos] [a partir dos 5 anos] [a partir dos 6 anos]

 

São escolhas do passado recente, são escolhas de presentes, mas são sobretudo escolhas de futuro. O Natal é só um (feliz) pretexto. Felizes pretextos para os vermos ainda mais felizes. Por agora, as nossas escolhas para crianças a partir dos sete anos. Continue reading

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“Emigrantes”, “A árvore vermelha” e “Contos dos subúrbios”, de Shaun Tan

 

Era uma livraria pequena, discreta, montra de dois painéis de vidro, molduras de madeira pintada de um tom desbotado. No interior, as prateleiras escuras aconchegando policromias encadernadas, uma mensagem de boas vindas, e uma nota: “spectacular bargains to be found in the basement”. De olhar focalizado nas Continue reading

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“Greve”, de Catarina Sobral

 

Dizem os linguistas (“vendo-se gregos”) que as expressões idiomáticas sempre constituíram um problema para a gramática, ou melhor, que a própria definição de idiomaticidade (“deus-nos-acuda”), sendo sobretudo um fenómeno semântico, possuiria aquela caraterística de não composicionalidade, definida em função da convencionalidade. Ou seja, sem conhecimento prévio da regra, como a maior parte das expressões idiomáticas distribuem sentido pelas partes que as compõem, não se curvam à literalidade (“é um ver-se-te-avias”, portanto)…

O que a ilustradora e designer de comunicação Catarina Sobral faz em “Greve”, seu livro de estreia, nesta semana lançado pela Orfeu Mini, é oferecer-nos, “ponto por ponto”, um texto que vai longe na exigência decifrativa e no consequente resultado humorístico. Em primeiro lugar, toda a obra atribui dimensão gráfica a um encadeamento de expressões idiomáticas em torno da palavra “ponto”, que pedem uma leitura atenta; depois, múltiplos textos (subtextos, intertextos, paratextos e metatextos) se esgueiram, se infiltram, se revelam ou escondem, sublimemente descarados e disponíveis para a sorridente descoberta simultânea, algures nas ilustrações. Num primeiro nível, surgem referências artísticas ousadas: à obra “Ulysses” e à figura de James Joyce, à obra de Amadeo de Souza-Cardoso, Fernando Pessoa e à “Orfeu”, à peça shakespeariana “Hamlet” (desta feita não com a caveira na mão, mas brandindo uma tíbia); num outro nível, encontramos referências a objetos, marcas e produtos que podem passar despercebidos a quem não pertenceu à geração dos automóveis “Carocha”, dos eletrodomésticos Miele, Lavamat ou Minerva, a todos os que não usaram detergente Rinso, aos que não leram a Burda nem a Crónica Feminina, a quem não estudou pelos antigos compêndios para o ensino liceal e por sebentas científicas em carteiras com tampo de abrir, com buraco para colocar o tinteiro, aos que não fizeram as contas do mês com caneta de aparo, a todos os que não reconhecem as amarelecidas folhas dos cadernos e mapas, os catálogos, fotografias e guias, a sépia e a preto e branco…

 

 

Parte da originalidade subversiva de Catarina Sobral deve-se às sobreposições de elementos gráficos e de perspetivas, às colagens originais de efeitos inesperados, aos jogos constantes com o nonsense. “Greve” é uma narrativa fílmica e dinâmica, em que todos os elementos, mesmo os balões de banda desenhada, parecem estar em cada página apenas de passagem, vindos de algum lado e dirigindo-se para outro lado qualquer. Personagens sem rosto ou de rostos alongados, minimalizados numa geometria retangular, olhar ciclópico, de traço infantil, meio centopeia, meio protozoário, penteados “à garçonne”, seguindo o figurino das revistas para “a mulher moderna” da época, são expressivas nas suas conversas mudas e gestualidade rígida. Repare-se ainda na inteligente ironia de incluir a ficha técnica no corpo da narrativa, apresentando-se um excerto de página de jornal fictício anunciando a data de lançamento da própria obra (hoje, dia 29 de outubro, na Biblioteca Camões, Lisboa), ou anunciando o tão esperado livro “Oinc! A história do Príncipe-Porco”, com litografias de Paula Rego e texto de Isabel Minhós Martins, a partir de um conto de Straparola, que a editora publicará daqui a poucas semanas. Mas o mais significativo nesta “Greve” é o facto de, mesmo que o leitor não esteja familiarizado ou desconheça as referências sofisticadas, mesmo que não descubra os detalhes culturais, mesmo que os anacronismos não suscitem um sorriso mais rasgado, a leitura continuar a resultar.

 

 

Exibindo uma vertente política, panfletária até, na escolha das cores e nas referências, “Greve” é cómico e provocador, numa época de agitação económica e social, como é esta que vivemos, brincando inclusivamente com os efeitos do marketing na atribuição de prémios, com catalogações arbitrárias, com suspeitas inclusões ou exclusões em Planos Nacionais seja do que for: “Pointless award”, “Melhor livro desde maio ’68”, “Prix OhhhMonDieu!” e “Recomendado pelo PNC* Plano Nacional de Costura”…

Acaso ou não, o que é certo é que, no nosso exemplar de “Greve”, a ponta de uma linha branca, despontada, espreita na costura que une as páginas de rosto. Terá alguma coisa a ver com o facto de a direção de arte/design ser da responsabilidade da Alfaiataria de Rui Silva? Não queríamos escrever nem mais uma linha, mas gostaríamos mesmo de saber se foi ou não por acaso. Detestamos deixar pontas soltas…

 

livro “Greve”, de Catarina Sobral
Orfeu Mini, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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“Charlie e a fábrica de chocolate” e “O fantástico Sr. Raposo”, de Roald Dahl com ilustrações de Quentin Blake

 

Faria 95 anos a 13 de setembro. Quem não tiver medo de cemitérios e decidir visitar a sepultura do escritor de origem galesa Roald Dahl, na igreja de St. Peter and St. Paul, em Great Missenden, Buckinghamshire, Reino Unido, pode ficar surpreendido, perplexo, chocado, estarrecido, quiçá até bastante enojado (isto se não se tiver antecipadamente preparado para a visita lendo, pelo menos, “Os tontos”, “O dedo mágico”, “As bruxas”, “James e o pêssego gigante”, “O fantástico Sr. Raposo”, “O enorme crocodilo” e “O GAG”). Na sepultura, não encontramos flores radiosas, ou plantas nobres em vasos, jarrões ou jarrinhas. Também não encontramos mármores cintilantes e anjinhos rechonchudos. Não vemos cruzes, fotografias, ou elogiosas inscrições fúnebres em verso. Apenas uma lápide vertical e um nome: Roald. Na zona inferior, junto às ervas daninhas que por lá crescem livremente, o desenho de uma garrafa, de duas cartas e de um livro. Depois, espalhados, alguns brinquedos já muito estragados pelo uso e pelo tempo (uma cenoura de plástico, um ursinho de peluche, um “jack-in-the-box” em forma de ovo) e, ainda, plantada, uma alta, enorme, maravilhosa, rija e escamosa cebola.

Paradoxal, contraditório, intrigante, dilacerado entre o apelo de uma ambição desmesurada e o desejo intenso de regresso à infância, herói de guerra, mentiroso, arruaceiro, gentil, egoísta, arrogante, provocador, vaidoso e malcriado; mais alto do que a maioria, voz rouca pelo tabaco; falava três línguas: inglês, norueguês e swahili – eis um retrato possível de Roald Dahl.

A sua relação com a escrita para crianças teve um início relutante, mas foi esta opção artística que o tornou popular, rico e famoso em todo o mundo, do Japão a Israel, do Brasil à Tailândia. Só a primeira edição na China foi de dois milhões de exemplares. Na Grã-Bretanha, entre 1980 e 1990, mais de 11 milhões de livros em paperback foram vendidos – o que significa que, no final da sua vida, uma em cada três crianças comprava ou recebia de presente um livro de Dahl anualmente.

As histórias são subversivas, hedonistas, fazem-nos tropeçar em elementos extraídos das experiências de vida do autor, mas seguem o modelo dos contos tradicionais. Agarram os leitores, provocam o riso e lidam com os seus maiores medos. São histórias surpreendentes, de medo, de opressão e crueldade, delirantemente imaginativas e amorais. São histórias de coragem, de solidão (os heróis são geralmente crianças solitárias, como Dahl), de desafios, descobertas e poderes extraordinários.

Por exemplo, em “As bruxas”, encontramos discretas reminiscências dos pais noruegueses e das férias que passava na Noruega, e ainda vestígios de tragédias, como a pneumonia que levou o pai, dois meses depois da morte da irmã mais velha, de apendicite. Sophie, mãe de Roald Dahl, com o bebé ainda na barriga, fazia longos passeios no campo, diariamente. Escreveu Dahl, em “Boy”: “Se o olhar de uma mulher grávida estiver constantemente a observar a beleza da natureza, esta beleza irá ser transmitida à mente do bebé por nascer ainda no útero, e o bebé vai crescer tornando-se um amante das coisas belas”.

 

 

“Charlie e a fábrica de chocolate”, a obra que Tim Burton celebrizou na adaptação ao cinema, rapidamente se tornou num dos livros mais populares de Dahl. Por essa razão, o autor escreveu a sequela “Charlie e o grande elevador de vidro” (1972), e esboçou “Charlie na Casa Branca”, que nunca concluiu. “Charlie e a fábrica de chocolate”, juntamente com “O fantástico Sr. Raposo”, foram recentemente reeditados pela Civilização, com nova tradução portuguesa, e mantendo as tradicionais ilustrações de Quentin Blake. A maior novidade da edição passa pelas informações biográficas que oferece no final.

A Fundação Roald Dahl apoia projetos nas áreas da hematologia, neurologia e literacia. Em 1992, a fundação financiou uma biblioteca e um mini-bus para um centro de tratamento para crianças epiléticas. Patrocinou também diversos eventos musicais, como uma versão musicada (por Paul Patterson) de “O capuchinho vermelho”, com a London Philharmonic no Royal Festival Hall (novembro de 1992), por exemplo, com o objetivo de promover a ligação com a música e fornecer aos professores material de qualidade para utilizarem durante as aulas.

Vale a pena espreitar o The Roald Dahl Museum and Story Centre e fazer uma visita virtual à cabana que o escritor mandou construir no seu jardim, a Gipsy House. Foi lá que, instalado na sua poltrona velha e desbotada, joelhos cobertos com um cobertor axadrezado, apoiado sobre um tabuleiro de madeira que ele próprio construiu e que cobriu com um tecido de feltro verde da sua mesa de snooker, Roald Dahl escreveu todas as suas histórias. Duas horas de manhã, duas horas à tarde, ritualmente. Usava sempre afiadíssimos lápis amarelos Dixon Ticonderoga e escrevia inevitavelmente em folhas de papel pautado amarelo, que encomendava diretamente dos Estados Unidos. Na parede, papéis, recortes, cartas, fotografias, esboços, desenhos infantis, um cartaz de aniversário e até uma moldura expondo uma válvula Wade-Dahl-Till (instrumento cirúrgico que ajudou a criar para tratar a hidroencefalia de que padecia o seu filho Theo). Há ainda uma folha de papel, presa com um alfinete, onde se pode ler: “’Art is a lie to which we give the accent of truth’ – Edgar Degas”.

Dahl achava muito divertido escrever sobre personagens nojentas. A maneira ideal, explicava ele, era começar e ir escrevendo, escrevendo, várias vezes, tornando as personagens progressivamente mais e mais nojentas… Para celebrar o dia 13 de setembro, dia de aniversário de Roald Dahl, propomos um concurso, a que daremos o nome de “Jogo das Ofensas Mais Nojentas e Originais”. Para além do efeito sublimador de tensões conscientes, sub-conscientes, pré-conscientes (e até inconscientes!); para além dos esperáveis efeitos preventivos, paliativos, diuréticos e laxativos; para além de constituir um excelente exercício linguístico fono-articulatório e gramatical, abrangendo os níveis semântico, lexical, sintático, morfológico, sintagmático e sociolinguístico, constitui um recomendável exercício neurocognitivo. Divirtam-se. Entretanto, aqui vos deixamos uma lista “made by Roald Dahl”, para se inspirarem: “coradinho enfezado”, “pateta-alegre”, “camarão encarquilhado”, “anãozinho porco”, “epigrama coxo” (adoramos este!), “lagarta raquítica”, “peludo esgrouviado”, “pifarozinho avariado”, “garrafa partida”, “enfezado mentiroso”, “come-lavagem”, “javali africano peludo”, “bruxa velha”, “nabo podre”, “velho peixe malcheiroso”, “velho estafermo nojento”, “brutamontes selvagem”,…

 

 

livro “Charlie e a fábrica de chocolate”, de Roald Dahl com ilustrações de Quentin Blake
livro “O fantástico Sr. Raposo”, de Roald Dahl com ilustrações de Quentin Blake
ambos Civilização, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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“Na noite escura”, de Bruno Munari

“Um momento, por favor, o telefone está a tocar.”

É assim que termina o texto de apresentação que Bruno Munari escreveu em 1956, para a primeira edição do livro “Na noite escura”, e que figura no final misterioso quadrado/retângulo amarelo. Quem já passou pela experiência de ser entrevistado por uma criança, reconhecerá nesta nota biográfica as respostas às perguntas inesperadas, tão simples e tão óbvias.

“Quando e onde nasceste? Em Milão, Itália, em 1907.

Quanto medes e quanto pesas? Meço 1,60 metros e peso pouco mais de 50 quilos.

Tens irmãos? O meu irmão Giordano, que se casou com a Ester, que é irmã da minha mulher.

Tens filhos? Tenho um filho, o Alberto, que vive em Genebra e me telefona bastantes vezes dando notícias.

(…)”

De súbito também, deixamos as respostas às perguntas da criança e entramos diretamente na rotina de um dia com Munari: estamos com ele no ateliê ou na varanda, a sua mulher põe um bom disco e conversa um pouco, na sala ao lado o seu irmão Giordano telefona à mulher, o porteiro entra com um telegrama (ainda existem?),…

 

 

Eis a autobiografia artística do arquiteto, do designer, do escritor, do ilustrador, do construtor de fontes e mobiles de plástico, do professor, do investigador, do teórico, do pioneiro, do Prémio Hans Christian Andersen em 1974. O “Peter Pan do design italiano”, como lhe chamou Pière Restany, foi mais do que um menino que não queria crescer: graças a ele e aos seus projetos gráficos, aos seus “livros ilegíveis”, a ilustração tornou-se algo mais do que desenhos bonitinhos que acompanham um texto.

Arrepiem-se os que estão convencidos de que as crianças só gostam de cores vivas e brilhantes e de historietas de princesas ou dragões. “Na noite escura” há silhuetas a azul escuro em fundo negro e bocadinhos de texto, que surgem e desaparecem. “Na noite escura” há folhas furadas e esburacadas e técnicas de impressão diversas. “Na noite escura” há texturas, materiais (cartolina, papel vegetal, papel pardo, papel de lustro…), desenhos, e vozes (ora em narrador, distante, ora descrevendo, ora interrogando, ora em balões de banda desenhada) acompanhando um percurso (por diferentes espaços, ambientes e tempos) de descoberta multisensorial. Incoerência? Ilegibilidade? Não. Variedade, desafio. Sim, há um gato (mais até) de olhar “pirilampiscado” que busca. Um pirilampo (muitos) e a noite que se torna dia com caracóis, gafanhotos, escaravelhos, formigas, um pássaro morto. Manual de estudo de insectos? Aula sobre pré-história e espeleologia? Quem conversa com quem? Quem descobre o quê? Formiga, gato? Gruta ou buraco?
(…)

Um momento, por favor, o telefone está a tocar (seria tão bom que fosse Bruno Munari dizendo “pronto!…” do outro lado do fio).

Munari (1907-1998) mudou a história da ilustração e muda-nos ainda, sempre que nos sentamos e nos preparamos para redescobrir o que há “Na noite escura”.

 

livro “Na noite escura”, de Bruno Munari
Bruaá, 2011
[a partir dos 8 anos]

 

Paula Pina

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