Tag Archives: Criaturas

Aquoscula Memorabilia, Criatura #007

 

Podem deixar cair coisas, perdê-las aqui e ali, não se lembrarem onde as deixaram: as chaves do carro da mãe, um carrinho ou uma boneca dos miúdos, uma das peúgas escocesas do pai, o anel de brilhantes da avó, a letra de uma canção, as palavras “obrigada”, “bom dia” e “adoro-te”, a paciência para contar histórias depois de um dia de trabalho, a vontade de viver. A minha tarefa é Continue reading

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O bebé, Criatura #006

O pai era eletricista, mas fazia biscates. A mãe tinha arranjado um trabalho temporário, numa fábrica de enfeites de Natal. Um dia, de madrugada, ainda o escuro assustava lá fora, a mãe saiu do duche e, olhando a sua barriga de grávida ao espelho, reparou que, do umbigo, saía um brilhozinho. Esfregou bem com a toalha e Continue reading

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Laboratórios Professor Damásio e Polvorosa Lda., Criatura #005

 

– Que horas são?
– Quase 9.
– 9 da manhã ou 9 da noite?
– O que lhe parece?
– Se soubesse não perguntava.
– Parece-lhe que é de manhã?
– Não é isso que interessa. Se são 9, são 9 da manhã. Se são 21 horas, são da noite. Aliás, a terminologia inglesa a.m. e p.m. é utilíssima nestes casos e acho sinceramente que o…
– É de noite.
– A sério? Não sabia. Passo os dias todos aqui enfiado e não sei se é dia ou noite, se chove ou se faz sol. Considero também que seria possível arranjar um sistema de medição que…
– Fez sol. Agora está a chover.

(…)

– Já está pronto? Não tem a cor certa. Junta mais umas gotas da solução A2ZE com NaNO3. Creio que isso será suficiente para agitar as partículas.
– Assim?
– Hum?
– Assim? Já misturei a solução toda e continua com uma cor esquisita.
– Fizeste o quê?
– Misturei e dissolvi a solução, como me disse para fazer…
– O quê? O que fizeste? Seu…
– Eu fiz exatamente o que me disse para fazer. Misturei a solução A12E com…
– A A2ZE?!… Não… não… não…
– Mas…?
– Baixa-te. Isto vai explodir!

(…)

– Explodiu mesmo.
– Não serves para assistente. Estás despedido.

(…)

– Parou de chover.
– O quê?
– Parou de chover. Se olhar através do buraco que ficou no teto, vê-se a lua. E parou de chover.
– Hã?!
– Está cheia.
– Hum? Olha… pois está. E é amarela…
– Tem a cor certa.
– Pois tem. Tem mesmo a cor certa.

 

Paula Pina, com ilustração de Cesária Martins

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Fazedor de Matérias, Criatura #004

 

– Bzzzoinc?
– Falácia nº 29146, assumo.
– Os sonhos nascem da cabeça.
– 13%6tg32@hj…
– Estou a voar. Lá, lá, lá, lá, lá!
– Não bebas essa porcaria.
– Um feixe de complexidades, tudo o que é partes sem todo!
– Blá! Blá! Blá!
– … Rappellez-moi!… peu connu… merveille.
– Pling, ziiim?
– Quando é que consegues fazer o que te explico?
– Esquerda, cima, direita, direita, frente, frente, salta, salta, salta…
– Got it! Yes! Passei de nível.

 

Paula Pina, a partir de uma ilustração de Cesária Martins

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Tubantropo, Criatura #003

– Chega-te para lá, por favor.
– Hum!?
– Eu disse para te chegares para lá!
– Hã?
– Afasta-te, já disse!
– Não posso.
– Preciso de ar, de muito ar. Sou um Tubantropo, ou não?
– Sim, mas não posso.
– Não podes? Não podes como?
– Não posso, não podendo. Não vês?
– Não vejo o quê?
– Não tenho espaço.
– Claro que tens espaço. Não tens é vontade!
– E tu tens é vontades a mais…

(…)

 

 

– A tua barriga está a fazer barulhos esquisitos.
– Não ouço nada.
– Também não cheiras lá muito bem.
– És tu que me alimentas, não és? Então, és tu o responsável.
– Não tenho culpa que tenhas problemas de digestão.
– A minha digestão está ótima. Em compensação, estou com imenso calor. Chega-te para lá.
– Ah, agora és tu!
– Sou eu o quê?
– Quem precisa de espaço.
– Não preciso de espaço. Tenho calor. Está calor aqui dentro.
– Se tens calor, é porque precisas de espaço.
– Não. Posso ter calor e não precisar de espaço.
– Claro que precisas.
– Claro que não. Tenho calor porque é verão e está calor.
– Tens calor porque precisas de espaço! Fazes-me calor!
– Não.
– Sim.
– Não!
– Sim!
– NÃO!
– SIM!
Etc.

(duas horas depois…)
– Tenho calor…
– …
– Tenho mesmo muito calor…
– …
– Ai, ai… (suspiro)
– Tmbmmmmmrrllloorr…
– O que é que disseste?
– Tmbmtenhclllrrorr…
– O quê? Não percebo!
– EU DISSE: “TAM-BÉM TE-NHO CA-LOR!”
– Hã?
– “Hã” o quê? Estou com calor, pronto.
(silêncio)
– Queres que te abane?
– Não! Não sei. Bem…talvez só um bocadinho.
– …
– Melhor?
– Sim. E tu?
– Okay.
– Okay.
– Okay.

 

 

Paula Pina, com ilustração de Cesária Martins

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Filoclora, Criatura #002

Vivo em recantos de jardins, em pátios abandonados, em quintais desalinhados, em pracetas esquecidas pelos (vossos) senhores vereadores. Muitas vezes, precisamente porque há por aí muita gente (da vossa) que pensa que os jardins onde crescem ervas e arbustos em selvagem liberdade não merecem respeito, atiram para cima de mim toda a espécie de lixo. Por isso, sou obrigada a usar um chapéu. Na verdade, é um chapéu-estufa, que me protege e mantém regular a temperatura das ervas maravilhosas que crescem na minha cabeça, na minha cabelerva.


Já me criticaram pelo “naperon ridículo” que me ornamenta os lábios. Passo a explicar: a minha boca absorve tudo o que é inútil, tudo o que se deita fora. Por isso, é mais do que uma simples boca: é um verdadeiro sistema de limpeza. Não é maquilhagem, não é decoração, não é adereço. É um filtro. Tudo o que entra em mim transforma-se, e volta a sair, reciclado, em arbustos e erva, em oxigénio e vento. Aliás, uma das grandes vantagens da minha existência é a possibilidade de me incorporarem no vosso sistema diário de limpeza pessoal de maus sentimentos, de palavras feias, de atos desagradáveis.

Tenho também dois olhos-copo, com os quais vejo (na verdade, vejo sempre tudo), mas que utilizo sobretudo para fazer a recolha de água, ou melhor, daquela água que ninguém mais quer: das frescas gotas de orvalho matinal às gotículas de suor por cima do lábio superior dos meninos que jogam à bola, dos salpicos de lama dos automóveis aos esguichos dos repuxos mal direcionados, das pingas que escorrem das penas das asas dos passarinhos que se banham nas poças do passeio, às lágrimas da senhora idosa que viu partir a neta para o estrangeiro.

Perguntam-me muitas vezes por que é que tenho um olho negro. Na verdade, isso só significa que quem olha para mim não me olha realmente. Se repararem, à noite, quando está frio, quando o céu está escuro, aterrorizado de tempestades, quando acontecem coisas tristes ou coisas que não entendemos, quando alguém fica magoado, quando só vos apetece ficar encolhidos, sossegados, escondidos num buraco, o meu olho direito escurece logo. Pelo contrário, quando o sol brilha e pelo ar passam aragens repentinas e mágicas, e tudo se movimenta, quando esvoaçam aves e crianças, quando as nuvens passam ligeiras buscando outras nuvens ao longe, quando as pessoas assobiam e cheira a pão quentinho, quando o menino e o avô param para ver um carreiro de formigas, o meu olho direito ilumina-se. E em cada um dos meus olhos está o seu oposto, ciclicamente, branco e negro.

Sou rápida, voo para todo o lado, e em todo o lado fico bem. Podem chamar-me sempre que ficarem com o coração nas mãos, quando vos cair o coração aos pés, quando tiverem de fazer das tripas coração. Posso abanar-vos com o meu coração de leque, limpar-vos do susto ou desgosto, fazer-vos uma tisana reconfortante com as ervas que trago na cabeça. Peço-vos que me chamem, de preferência, antes de ficarem com um coração duro como pedra. Outra coisa muito importante: quem vê a minha cara, verá o meu coração.

O quê? Como? Ah, estão agora a dizer-me que há muitas pessoas que não sabem o meu nome… Sou uma filoclorokapelecefalo-hidrocriotermotaquinanofagoscópia, mas podem tratar-me por Filoclora.

 

 

Paula Pina, a partir de uma ilustração de Cesária Martins

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See Seaclop, Criatura #001

Tenho, no meio da cabeça, um olho aberto para o outro lado de mim. Quem quer que seja que olhe para mim, olha sempre através de mim e vê-se… a si próprio. Pois, olhamos e pensamos que o olho é o nada, que é o buraco. Que é o vazio. O problema é que no vazio é que está tudo.

As mães das vossas crias andam constantemente a dizer: “Ai, que feio! A meter o dedo no buraco do nariz!”. Por isso é que eu acho que elas não iriam gostar lá muito de mim. Porque eu, oh, eu estou sempre a dizer: “Anda, vá lá! Enfia o teu dedo no meu olho!” Aliás, aqueles meninos formidáveis, que andam sempre a enfiar os seus dedos pequeninos nos sítios mais improváveis (para grande vergonha, preocupação e desconsolo dos seus progenitores), são mesmo, de entre os da vossa espécie, os meus prediletos. Para esses, o meu olho não é um nada-buraco-vazio. É um botão, um interruptor. Quando carregam, pfffzzoing!,  a minha cabeça-ecrã dispara imagens – pouco nítidas de início, decerto. Mas se fixarem o olhar no ponto negro da minha boca durante um minuto e 10 segundos (esse é o segredo!), as escamas de peixe que me cobrem a cabeça transformam-se nas ondas do mar. Atenção, não na imagem das ondas do mar! Transformam-se nas próprias ondas do mar, essas mesmas, as molhadas, as feitas de água, as mesmas que embalam os barcos ou os engolem em espumas, movimentos e sons aterradores, as mesmas que vêm morrer aos teus pés em laçadas de espuma quando passeias à beira-mar. Os meninos podem até enfiar o dedo no meu olho nessa altura, porque ele sairá molhado e salgado (ou, como já aconteceu recentemente, escuro e oleoso, por causa da poluição e dos derrames de petróleo, acho eu).

 

 

Muitos tentaram vestir-me, compor-me, ataviar-me, enjaular-me. Posso até ser escovado, penteado e alisado. Podem até achar que fico bem de papillon preso a meio pescoço (e fico, modéstia à parte). Mas não resulta durante muito tempo, lamento informar-vos. Dura pouco mais do que os segundos de um disparo de fotografia. A fatiota desfaz-se em suspiros de giz e o pêlo eriça-se ou retorce-se em sinuosos caracóis, indomáveis, inesperados. Na verdade, nunca me preocupei muito com isso. Sou como sou e pronto.

Já me explicaram que na minha árvore genealógica tenho ciclopes, gigantes de um só olho no meio da testa, o que faz todo o sentido. Mas também me disseram que devo ter tido um antepassado minotauro e uma avó sereia. Já me chamaram robô e até, vejam bem, lobo! Lobo?! Quando me chamaram isso só me lembrei da história da menina Capuchinho Vermelho e do lobo disfarçado de avozinha, e deu-me uma imensa vontade de rir. Eu, lobo, com este olho? “Oh Avó, porque tens uns olhos tão grandes?”… Bah!! Eu, lobo, com esta boquinha? “Oh Avó, porque tens uma boca tão grande? Para te comer melhor! – disse o lobo saltando da cama”. No meu caso, só se a menina Capuchinho fosse sorvida por uma palhinha!

Há depois a questão das orelhas. Na verdade, são meio orelhas, meio antenas, meio chifres. Servem para ouvir, para captar e transmitir, como quaisquer orelhas e antenas normais. Mas quando as arrebito e as estico, e se transformam em chifres, servem para mais algumas coisas: para secar roupa, enfiar argolas e deixar recados em folhas de papel… Não percebo bem por que razão, mas uma vez uns senhores muito finos, com umas roupagens brilhantes e uns gorros vermelhos e verdes enfiados na cabeça, viram-me passar, ali para os lados do Campo Pequeno, ia eu a meio de uma importante transmissão para um projeto, de orelhas espetadas portanto, e desataram aos saltos e correrias. Até houve uns que se puseram, de mão na anca, aos gritos: “Eh touro! Eh touro!”. Isto de ser como sou e ter este tipo de orelhas pode ser complicado para alguns de vós, não é? Há realmente criaturas da vossa espécie que são tão ignorantes que não sabem que eu sou um Petramarfilocrocéfaseeseaclop (See Seaclop, para os amigos), construtor e desconstrutor (de muros, paredes e outras construções, reais ou inventadas, muralhas de cubos e castelos de Lego), ao vosso dispor.

 

 

Paula Pina, a partir de uma ilustração de Cesária Martins

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