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“Biblioteca Fnac Kids – 100 livros que crescem contigo”

biblioteca fnac kids 100 livros que crescem contigo

 

Uma ideia, quando é válida, pode e deve repetir-se. É esse o caso do simpático guia “Biblioteca Fnac Kids – 100 livros que crescem contigo“, num formato prático e sintético, que a Fnac acabou de lançar, aparentado com aqueloutro, saudoso já, elaborado pela equipa do Projeto Gulbenkian / Casa da Leitura. Se nem sempre os critérios de seleção são irrepreensíveis, se faltam ilustradores de relevo ou uma revisão de texto mais cuidada, assumidas as Continue reading

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Filed under Ilustração, Literatura

Passatempo “O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle

 

O Cria Cria tem para oferecer, com a amável colaboração da Kalandraka, dez exemplares do novíssimo livro de Eric Carle, “O artista que pintou um cavalo azul”, à venda desde ontem. Para se candidatar a receber um destes álbuns, basta que seja um dos primeiros dez leitores a responder corretamente às seguintes questões:

1) Indique o ano em que foi pintado “Blaues pferd I”, a tela de Franz Marc que inspirou Eric Carle a fazer o livro “O artista que pintou um cavalo azul”.

2) Indique os títulos de outros dois livros de Eric Carle que tenham sido editados pela Kalandraka em Portugal.

3) Indique a morada (url) da nova página de Facebook do blogue Cria Cria.

As respostas devem ser enviadas para op@oporium.net, com a referência “passatempo Eric Carle” no assunto. Não se esqueça igualmente de referir os seus dados pessoais: nome, morada completa para envio do livro, email e telemóvel.

Este passatempo é válido apenas para subscritores do Cria Cria. Se ainda não subscreveu, poderá fazê-lo no espaço reservado para o efeito que encontrará aqui ao lado, na coluna da direita.

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“O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle

 

Com arreliante regularidade nos chegam aos ouvidos histórias (verídicas) que atestam o canibalismo estético e estreiteza de visão a que estão sujeitas, ainda hoje, muitas crianças e jovens. Correndo o risco da canícula, variados trejeitos faciais e insuficiência respiratória que a repetição de semelhantes narrativas habitualmente nos provoca, optamos pela cataplasma consoladora do comprazimento estético que a novíssima obra de Eric Carle, “O artista que pintou um cavalo azul”, oferece, elencando, em formato teatral, sem mais, algumas “pérolas de sabedoria estética e pedagógica” que temos colecionado ao longo dos anos, logo seguidas de imagens das obras de dois artistas – Franz Marc, homenageado, e Eric Carle, autor da homenagem:

 

Ato I

Cena 1

(numa sala de aula)

Professor – Agora vamos pintar por dentro esta linda vaca, tão nossa amiga, que nos dá, vá lá, digam em coro, nos dá… o leite, o queijo, a… a…

Aluno (de braço no ar) – Já sei!… A Becel! A Becel!…

Professor (franzindo o sobrolho) – Não, não é a Becel. Isso é uma marca. A vaca dá-nos a manteiga.

Aluno (tristonho) – Oh! Mas eu pensava que…

Professor (decidido) –  Vá lá. Vamos então pintar as vacas amigas do homem.

Aluna (pondo timidamente o braço no ar) – Professor! Posso dizer uma coisa? A vaca não é minha amiga. A minha mãe diz que a lactose do leite me pode matar…

Professor (irritado) – Pronto! Então, a vaca não tem culpa que a menina seja alérgica. Pinte mas é a vaca, vamos.

(…)

 

Cena 2

Professor (agarrando num dos desenhos) – O que é isto? Isto não é nenhuma vaca. As vacas são brancas, com manchas pretas. Não existem vacas amarelas…

Aluno (prestes a chorar) – Mas eu não sabia… Nunca vi nenhuma. Só fui duas vezes à terra dos meus pais, a Monte Real, e era muito pequeno, não me lembro bem… Pensava que as vacas podiam ser amarelas…

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Die gelbe kuh”, 1911

 

Ato II

Cena 1

(numa sala de jardim de infância e pré-escolar)

Educadora – Os vossos desenhos estão muito bonitos. Agora é o vosso grupo. Mostrem lá aos colegas da sala o que estiveram a pintar a partir da história que eu contei.

Crianças 1, 2 e 3 (mostrando uma pintura) – Pintámos um céu e um cavalo e uma raposa que…

Educadora – Hã? Os cavalos não são azuis, pois não? E as raposas são… vermelhas, não é? Está uma pintura muito, muito… imaginativa, não acham meninos? Mas para a próxima têm de pintar os animais da cor certa, está bem? E o céu não é cor de laranja, pois não meninos? Digam lá à Ana de que cor é o céu… É azul!

Criança 1 (acusadora) – Foi ela, Ana, foi ela! (Virando-se para a colega) Eu bem te disse que as raposas não deviam ser roxas.

Criança 2 (na defensiva) – Pois, mas tu também não sabias. E foste tu que pintaste o cavalo de azul, não foste? E também está errado, não é?

Criança 3 (perplexa) – Mas eu já vi muitos céus cor de laranja e cor de rosa… Oh Ana, mas por que é que o céu não pode ser cor de laranja e cor de rosa? Por que é que não pode?

Educadora (atrapalhada) – Bem, não pode porque… porque… bem, pode mas… Quem quer que eu leia outra vez a história do Elmer?!

(…)

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blauschwarzer fuchs”, 1911

 

Eric Carle presta, com a obra “O artista que pintou um cavalo azul”, lançada nesta semana pela Kalandraka, uma explícita e devida homenagem a Franz Marc (1880-1916). Recorrendo às colagens, como é seu apanágio, em papel de seda colorido, Carle apresenta neste livro um catálogo de animais. A narrativa, de primeira pessoa, e a autoreferência adjetival, serve de base à enumeração de coloridas criaturas que se segue, recorrendo-se ao tipicamente infantil conetor frásico “e”, sempre destacado na segunda das duas páginas em que surge o animal: “Sou um artista e pinto… um cavalo azul e… um crocodilo vermelho e… uma vaca amarela e… um coelho cor de rosa e… um leão verde e… uma raposa roxa e… um urso polar preto e… um burro às bolinhas. Sou um bom artista.”

Repare-se no final humorístico, culminar de um percurso em que aos animais se atribuem cores incomuns, incongruentes com a sua natureza física. E é no burro que todas as cores da paleta se encontram. Atente-se igualmente no facto de ser a pintura do cavalo azul, aquela a cujo começo, de céu amarelo, assistimos no início do texto, a mesma que se apresenta logo de seguida, e se reproduz na última página, tendo a afirmação final “sou um bom artista” como legenda. O artista, menino pintor, olha-nos, de frente, manchado de tinta, orgulhoso do trabalho realizado.

 

Eric Carle, 2011

 

Franz Marc, “Blaues pferd I”, 1911

 

Em dezembro de 1910, numa famosa carta, Marc atribuía valores emocionais às cores: “O azul é o princípio masculino, adstringente e espiritual. O amarelo é o princípio feminino, gentil, alegre e espiritual. O vermelho é matéria, é brutal, é pesado e é sempre a cor a opor e a ser ultrapassada pelas outras duas.” Em meados de 1911 começa a criar a série de quadros de animais que o tornariam famoso. Morto precocemente, durante a I Guerra Mundial, a sua obra destaca-se talvez menos por ser particularmente representativa das caraterísticas do expressionismo alemão, movimento ao qual ficou associado, mas pelas suas conceções estéticas e empenho associativo em defesa da arte abstrata.

Pode ler-se, na nota biográfica final da obra, a seguinte afirmação de Eric Carle: “O meu leão verde, o meu burro às bolinhas e outros animais pintados com cores ‘erradas’ nasceram realmente nesse dia há 70 anos.” Que dia foi esse? O dia em que, ainda pré-adolescente, um professor de arte chamado Krauss, elogiou o seu estilo livre e lhe deu a conhecer, em segredo, reproduções coloridas da obra de Franz Marc, proibidas pelo regime nazi. Foi um professor esclarecido e corajoso que mudou a vida de Eric Carle. Educadores, professores e pais esclarecidos e corajosos: procura-se.

 

 

livro “O artista que pintou um cavalo azul”, de Eric Carle
Kalandraka, 2011
[a partir dos 18 meses]

 

Paula Pina

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“O Senhor Cavalo-Marinho”, de Eric Carle

 

“Toda a gente sabe que são as mães que trazem os filhos dentro da barriga. Os bebés formam-se no ventre das mães, crescem, e depois saltam cá para fora – para a luz. Por isso dizemos que as mulheres dão à luz.

O que pouca gente sabe é que há uma exceção. Existe uma espécie de animal em que é o pai que cria os filhos dentro da barriga e é ele que os entrega à luz: o cavalo-marinho. Como é que isto aconteceu? É essa a história que hoje vos quero contar: uma incrível história de amor.”

Não, não é assim que começa a narrativa de “O Senhor Cavalo-Marinho”, escrita e ilustrada por Eric Carle. Mas é exatamente assim que José Eduardo Agualusa (belissimamente acompanhado por Henrique Cayatte, na ilustração e design) dá início à sua história “O pai que se tornou mãe”, um dos contos integrados no livro “Estranhões e bizarrocos”, publicado em 2000 pela Dom Quixote. Na verdade, o que Agualusa nos propõe é uma explicação maravilhosa sobre a origem de um fenómeno original na natureza, tão ao jeito dos ancestrais contos etiológicos que forneciam mágicas e míticas razões para muitos enigmas e interrogações. Por que é que as girafas têm o pescoço comprido? Por que é que a água do mar é salgada? Por que é que existem animais venenosos? Por que é que o leopardo tem o pelo malhado?

 

 

Eric Carle tornou-se mais conhecido em Portugal graças ao clássico “A lagartinha muito comilona” (1969), reeditado pela Kalandraka em 2007 – depois da estreia, pelo Círculo de Leitores, em 1990 -, com o título “A lagartinha comilona”. Mestre da colagem, do recorte, da transparência e da aguarela, perito no uso de diferentes texturas e materiais, Carle oferece-nos em “O Senhor Cavalo-Marinho” um livro etéreo, que brinca às escondidas com o leitor: aos peixes multicolores em fundo branco pontuado por ligeiras ondulações de pincel molhado em aguarela diluída, juntam-se os efeitos translúcidos das folhas de acetato, que criam a ilusão de um verdadeiro cenário aquático.

A nota da contracapa, dirigida aos leitores, explicita o objetivo didático: a vontade de partilhar o conhecimento sobre um aspeto invulgar da natureza, patente aliás ao longo de todo o percurso artístico do autor. Mas se a base de construção do livro é científica, oferecendo uma lição sobre a natureza, nunca se perde o prazer do jogo, graças à introdução do gadget da camuflagem em acetato, em que juncos, um recife de coral, algas e rocha escondem e desvendam peixes diversos, originais ou bizarros. Por outro lado, a expressividade comunicativa do olhar dos peixes e as variações encantatórias de cores e de posições compensam inteligentemente a singeleza dos diálogos. É o respeitável Senhor Cavalo-Marinho que nos acompanha numa visita guiada pelo fundo do mar, descobrindo outros peixes que, tal como ele, tomam conta dos ovos e das crias, numa narrativa estruturada pela repetição e pela alternância, entre peixes que se camuflam, e os que não o fazem: são esses que transportam ovos.

 

 

Depois de acompanhar a viagem aquática da barriga cada vez mais redonda do Senhor Cavalo-Marinho, não haverá quem não saiba nomear os peixes que, tal como ele, tomam conta dos ovos preciosos e dos filhotes recém-nascidos. Este é, certamente, um livro sobre o amor paternal, sobre a devoção masculina, sobre o papel dos pais, mas Carle dedica-o uma mãe muito especial, a sua: Johanna Oelschläger Carle.

Vejam as guardas: tantos cavalinhos marinhos, não é? Que bela ideia para papel de parede, dirão de imediato aqueles com olho para a decoração. Mas atenção: alguém reparou no pequeno filhote, o único virado ao contrário? Claro que só lendo o livro todo, claro que só mesmo na última página da história descobrimos porquê: “Um dos bebés virou-se para trás e tentou voltar para dentro da bolsa. – Isso é que não! – disse o Senhor Cavalo-Marinho. – Eu gosto muito de ti, mas agora já estás preparado para seguir o teu caminho sozinho.” Não será esta uma das mais difíceis tarefas da educação? Por esta razão “O Senhor Cavalo-Marinho” é “uma incrível história de amor”.

 

livro “O Senhor Cavalo-Marinho”, de Eric Carle
Kalandraka, 2011
[a partir dos 3 anos]

 

Paula Pina

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