Tag Archives: Marta Madureira

Celebrando o 25 de abril na literatura para crianças e jovens

antonio jorge goncalves salgueiro maia o homem do tanque da liberdade

 

“A revolução dos cravos”, entre contos e poemas, ilustrações e fotografias, continua a cativar escritores e ilustradores. As dimensões míticas que se agigantam em torno desse histórico acontecimento e a sua urgente centralidade parecem refletir-se com grande rapidez e Continue reading

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2011 > essencial > literatura > livros > nacionais

 

Uma reflexão e sistematização do que a história fará perpetuar da produção criativa de determinado ano não é, em nosso entender, tarefa que possa ser adequadamente cumprida ainda no decurso desse período ou, sequer, nos dias que se seguem ao seu fim. Por isso, sem as precipitações e as obsessões normativas que regem a quase totalidade das publicações culturais por este mundo dentro, optamos por deixar as obras que mais nos impressionaram e emocionaram em 2011 assentar um pouco da sua intemporalidade nesta primeira meia dúzia de semanas de 2012 – e resumimos, nos próximos dias, o que nos parece ser a essência dessa colheita, os trabalhos aos quais o ano passado merece ficar efetivamente associado. Para inaugurar esta pequena sequência de balanços, a produção literária infantojuvenil de Continue reading

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“Mocho comi”, de Carlos Nogueira e Marta Madureira

 

A terminar o ano de 2011 da melhor forma, a editora portuense Tcharan oferece-nos um título que promete encimar uma coleção de Contos da Tradição Oral portuguesa. Depois do recentíssimo e original “Elefante em loja de porcelanas” (texto de Adélia Carvalho e ilustrações de André da Loba), surgem agora Carlos Nogueira (no texto) e Marta Madureira (na ilustração) formando uma dupla que ousa pegar num dos contos com animais mais conhecidos da nossa tradição: “Mocho comi”. Graças ao trabalho destes dois autores, “Mocho comi” foi transformado num objeto estético que prova que é possível preservar a dicotomia entre Continue reading

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, última semana)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu estilo ao verão de 2011, recebemos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho que ficámos a conhecer melhor aqui no blogue até hoje, momento que marca o fim desta “residência” estival.

Não queremos deixar de formalizar aqui o nosso mais profundo agradecimento à autora pela imensa beleza e inteligência do trabalho que connosco partilhou, bem como pela dedicação absoluta que, semana após semana, devotou ao nosso desafio.

 

Cria Cria: Com o excesso de oferta no campo da ilustração que aconteceu em Portugal (e um pouco por todo o mundo) nesta última década, acha que o mercado ainda consegue ser justo para quem faz os trabalhos de maior valor artístico? O crescimento exponencial da oferta tem sido devidamente acompanhado pelo crescimento da procura? Um ilustrador com talento como o seu pode viver apenas da ilustração? Tem alguns períodos de tempo sem trabalhos novos em mãos? Ou, por outro lado, recusa muitas propostas de trabalho?

Marta Madureira: Houve, de facto, nos últimos anos, uma projeção da ilustração, uma tomada de consciência e afirmação da ilustração como disciplina própria. E isso só pode ser positivo e um indício de que o futuro próximo pode ser animador. Este crescimento, que se reflete numa maior oferta, traz também maior variedade de resultados e estimula os mercados para as mais diversas áreas da ilustração. Eu, que acompanho de perto os futuros profissionais, sinto uma geração efervescente, muitas vezes sem grandes meios, mas com muita vontade de fazer ilustração. E isso repercute-se na procura, que começa a entender a ilustração como uma solução muito viável para os mais diversos suportes de comunicação. Lembro-me de, já há uns anos, os Boolab, produtora espanhola especializada em animação, numa das apresentações do OFFF (International Festival for the Post-Digital Creation Culture) congratularem os clientes por cada vez mais elegerem o recurso à ilustração e à animação como solução para a divulgação dos seus produtos.

A par desta consciencialização, há também a vantagem da ilustração estar cada vez mais associada a um ramo do design gráfico, e assim assumir um papel mais funcional e aplicável a objetos de comunicação. Muito se tem falado desta nova (que já não é nova) abordagem da ilustração e das novas oportunidades que assim se criam. Nos muitos artigos da Computer Arts sobre o assunto, destaco o “Illustration: New opportunities” e o “The illustration revival”, que focam exatamente esse novo estatuto da ilustração.

Paralelamente a isto, a internet veio permitir um alargamento do espaço, que é agora global. Permite que o ilustrador ultrapasse as fronteiras geográficas e alargue o seu leque de clientes e de trabalhos a todo o mundo. E isso é, já por si, um bom panorama. A internet tem servido ainda como grande motor para os novos ilustradores se manterem atualizados e com mais meios para a divulgação dos seus trabalhos.

Em resumo, acredito que sim, que a ilustração está numa boa fase e que há um lugar próprio para todas as suas formas. Aliás, não faria sentido de outra forma a minha dedicação ao ensino, se não acreditasse no seu futuro.

Quanto à segunda parte da questão, há respostas possíveis: não, não vivo financeiramente da ilustração; e sim, posso dizer que vivo da ilustração. A minha ocupação principal é dar aulas, e como tal não tenho a pretensão de fazer dinheiro com os trabalhos que vou tendo em mãos. Mas, ainda assim, tenho a vantagem de dar aulas dentro da área, pelo que posso entender que, sob este ponto de vista, é a ilustração que me sustenta.

Do que vejo e experiencio, penso que poucos ilustradores a tempo inteiro conseguirão viver confortavelmente da ilustração. Conheço poucos que o fazem. Mas esta é uma realidade que, em meu entender, tem tendência a mudar. Tenho tido cada vez mais oferta de trabalho e alguma margem de manobra para escolher os projetos de que gosto. Isso leva-me a acreditar que, num futuro próximo, a ilustração poderá ganhar o estatuto de profissão e permitir ao ilustrador a sua autonomia financeira, como é desejável.

 

Cria Cria: E se, para concluir da melhor forma possível esta estação como ilustradora convidada do Cria Cria, lhe pedíssemos para fazer o nosso retrato, i.e., para ilustrar a sua perceção gráfica do blogue, aceitaria?

Marta Madureira: Um Cria Cria que cria a dobrar. Com criaturas que nascem das conversas e crescem nas conversas sobre bons livros, boas ideias e boas pessoas. Bons voos, bons ventos e boas crias!

 

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 12)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue até ao fim desta estação…

 

Cria Cria: Imagina-se a fazer o que faz agora para sempre? Se não, o que é que pensa que estará a fazer daqui a 20 ou 30 anos? Que objetivos ainda pretende atingir na sua carreira? Se pudesse formular um desejo profissional, qual seria?

Marta Madureira: Este tipo de perguntas são sempre as mais difíceis, porque tenho, confesso, uma grande incapacidade de pensar a longo prazo. Ainda que tenha investido desde sempre esforço e trabalho nesta área, sinto, com toda a honestidade, que sou uma pessoa de sorte. As coisas sempre foram acontecendo naturalmente, sem grandes planos, e, na maioria dos casos, da melhor forma possível. Penso quase sempre a curto prazo, talvez porque tenha quase constantemente muito trabalho em mãos, o que me leva a organizar o tempo em metas curtas.

Mas em resposta às perguntas, sim, imagino-me a fazer o que faço hoje daqui a uns largos anos, e tenho até a esperança que isso aconteça. Não da mesma maneira que faço hoje, mas de uma forma melhorada, ampliada e reformulada, refletindo algum crescimento e maturidade que, espero, venham a acontecer. Embora não faça planos futuros muito alargados, consigo focar-me na principal direção a seguir. Mas nem sempre foi assim. Desde que descobri a ilustração, senti-me seduzida. Mas no início, e ainda em contexto académico, sentia-me desconfortável com esse rótulo. Lembro-me de, no último ano de faculdade, na apresentação do esboço do projeto final, uma professora ter dito: “a Marta fará, claro, um projeto de ilustração”. Naquela altura, não fiquei nada satisfeita. Ora essa, eu era uma futura designer! Agora com a distância de uns anos, reconheço uma série de preconceitos que ainda havia de resolver, nomeadamente o facto de ter estado antes num curso de pintura e me querer afirmar, na altura, como designer.

Depois de acabar a faculdade, fiz alguma resistência à ilustração e comecei a trabalhar em gabinetes de design. E, mais ou menos dois anos depois, comecei a sentir, mais a sério, a falta de um contacto próximo com a área. Nessa altura tentei conciliar o trabalho do dia a dia com trabalhos paralelos de ilustração, para pequenos projetos coletivos e algumas exposições. Quanto mais produzia, melhor percebia que essa era, exatamente, a minha mais valia, onde eu me conseguia distinguir, enquanto autora, dos outros trabalhos que fazia. Não deixava de ser designer, mas tinha a vantagem de também saber ilustrar. Ajudou igualmente perceber que os amigos de faculdade, também eles, se estavam a especializar em diversas áreas do design, uns no campo editorial, outros na identidade, na tipografia, na multimedia, etc. Isso fez-me sentir mais confortável e reconciliar com o estatuto de ilustradora.

De volta à questão, embora não viva preocupada com uma visão alargada do futuro, claro que há coisas que me obrigam a pensar mais a longo prazo. A minha editora com a Adélia Carvalho, a Tcharan, por exemplo, é um projeto a longo prazo que é pensado enquanto objetivo de vida. Por isso trabalhamos, as duas, para um futuro imediato, que nos permita construir e delinear um futuro perdurável. Assim como a minha atividade enquanto professora, na qual tenho feito uma série de investimentos, que só fazem sentido porque me revejo nela nos anos futuros. Um outro projeto a continuar, em conjunto com o Pedro Mota Teixeira, é a série de animação “As máquinas de Maria”, que, depois de passar em televisão, tem já pensada uma série de extensões possíveis.

Os desejos são sempre muitos. Mas muitas das coisas que sempre desejei já se foram concretizando, como é trabalhar entre amigos e fazer o que realmente gosto. Todos os outros grandes desejos passam por continuar esta boa fase e esperar que mais coisas boas aconteçam. Há, depois, desejos mais específicos e a curto prazo, não menos importantes, como por exemplo conseguir acabar a tempo tudo o que me propus fazer até ao final do ano.

 

 

ilustração originalmente publicada no projeto Munstruos, na revista Interact (2009)

 
Marta Madureira: Umas coisas nascem das outras, e comigo a ilustração foi acontecendo assim. Uns trabalhos dão lugar a outros, que se vão transformando noutros. E o resultado é a progressão de um trabalho global que reflete o anterior e que transporta algo mais para o trabalho que se segue. Este projeto, o Munstruos, surge de uma parceria com o Pedro Amado em 2009, a pedido da revista Interact e parte desse mesmo princípio da transformação, da apropriação de caraterísticas do que já existe. O resultado final tem a forma de uma aplicação em Processing (uma linguagem de programação) que cria personagens pela mistura selvagem e aleatória dos seus progenitores. As figuras dos lados são o “pai” e a “mãe”, e a do meio é o “filho”, resultado dessa fusão.

“A incerteza do resultado é provocada pela aleatoriedade da aplicação, que determina números e valores, aos quais se liga uma probabilidade fisionómica mais ou menos plausível. A escolha é aleatória e incentiva a conceção de um ser selvagem, no sentido em que nasce sem cuidado especial.” O utilizador é convidado a interagir com a aplicação, determinando a influência dos progenitores na imagem gerada. A explicação do projeto pode ser vista aqui (no painel “Laboratório”, à direita); e a aplicação aqui (há que ter paciência, porque a aplicação demora algum tempo a carregar). No final da experiência, nasce uma ilustração e uma criatura imprevista.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 11)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Considera ser mais difícil desenhar para crianças ou para adultos? Ou desenha sobretudo para si própria? Que conselho daria a uma criança que se lhe dirigisse exprimindo o desejo de se tornar ilustradora?

Marta Madureira: Para mim é mais difícil ilustrar para adultos. Penso que o meu estilo gráfico se enquadra num imaginário mais próximo do infantil, pela expressão do desenho, pelas formas, pelas cores e pelas ideias que sugiro. Acho que é por isso que me fui encaixando numa tendência de trabalhos mais direcionada para o público infantil. É-me mais fácil ilustrar para crianças porque firmo o meu trabalho não apenas em figuras, mas na relação que essas figuras têm umas com as outras e no significado que extraímos dessa relação. Ou seja, há sempre uma tentativa de recriar um contexto paralelo ao real. O público infantil entende melhor e mais rapidamente um mundo reproduzido do que um adulto. Dito assim parece uma ideia tirada de um livro de pedagogia barata, onde as crianças são a esperança e os adultos uns incapazes, cinzentos e sem imaginação. Não será assim. Até porque a leitura que fazemos das coisas têm o encanto de cada idade e, ainda que numa mesma faixa etária, serão heterogéneas. Mas falo da experiência que fui adquirindo, de forma intuitiva, com um e outro público. Essa experiência diz-me que a interpretação das crianças permite mais. Elas aceitam à partida um contexto irreal que lhes é dado, e de forma natural dão-lhe continuidade. Não sei porque será, mas acho que é porque estão habituadas a brincar, a fazer de conta. Os adultos estão menos abertos ao jogo e mais hesitantes em deixar a realidade. Estou, como é óbvio, a generalizar. Até porque há vários tipos de adulto, mais ou menos informados e interessados. E tudo depende, claro, dos enquadramentos.

Respondendo à segunda parte da pergunta, não desenho para mim. Desenho sempre para os outros. Encaro a ilustração como uma das muitas formas que tenho para comunicar. Receber uma reação é uma forma de completar esse ciclo de comunicação.

Em relação aos conselhos a dar, não os tenho. Sempre fui muito intuitiva neste assunto. Claro que há formas de estimular o “fazer” e o “saber ver” a ilustração. Mas isso faz parte das tarefas de qualquer pai dedicado: educar, mostrar, dar a conhecer, como formas de estimular um futuro adulto esclarecido.

 

ilustração originalmente publicada com o texto “Naked blues”, na revista Op. #9 (2002)

 

Marta Madureira: Como referi em cima, tudo depende dos enquadramentos. Há projetos para adultos muito aliciantes e permissivos, com um género de público motivado para outras interpretações. Não posso deixar de falar, com muito carinho e saudade, do projeto Op. – a revista Op. foi uma das primeiras (que me lembro) a dar espaço de destaque à ilustração. Foi, na minha opinião, um suporte que em muito contribuiu para o crescimento e consciencialização da ilustração em espaço editorial, pela forma como a imagem se integrava no texto e pela diversidade plástica que oferecia. Mais do que o uso da imagem fotográfica, os editores da Op. apostaram na ilustração e num conjunto de autores novos e inexperientes (nem todos, porque já dividíamos as páginas com os ilustres Rui Vitorino Santos, Manel Cruz, André Ruivo, Pedro Zamith e outros), oferecendo-lhe a liberdade suficiente para construírem algo de novo.

Ainda aluna do 2º ano de Belas Artes, a Op. surgiu-me como o espaço perfeito para a minha experimentação e alguma disciplina, pela necessidade de produzir periodicamente e com prazos rígidos. Enquanto escrevia este post, fui rever os números da revista que ainda guardo religiosamente. Olhando-os à distância, nem todas as minhas contribuições revelam maturidade. Mas mostram, sem dúvida, crescimento e muita inocência na forma como começava a tatear na ilustração.

Esta ilustração, para um texto do Rui Miguel Abreu, é sobre “a história de como, há 15 anos, conheci o Legendary Tiger Man, num bar à saída de New Orleans”. Recebi este texto, em 2002, quando estava a estudar em Roterdão. Quando revejo esta imagem vem-me à memória a minha obsessão dessa época por fita-cola. Longe de casa e com poucos recursos, lembro-me que usei um código de barras de uma das muitas caixas de stroopwafels que fomos acumulando lá em casa. Numa manhã de chuva, em cima da bicicleta e com a ilustração por baixo do casaco, lá me enfiei na sala do Borstlap. Digitalizei e mandei. Assim, meia despenteada, como era este texto e como eu era nessa altura.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 10)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Qual foi a coisa mais interessante que aprendeu com a ilustração até hoje? Com quem? Quem é o seu ilustrador favorito? Por que razão? Quem é que imita mais? Sente-se de alguma forma frustrada ou irritada com isso?

Marta Madureira: Aprendo muitas coisas. Todas são tão importantes que é impossível escolher uma. Aprendo coisas técnicas com a experimentação e coisas emocionais com a vivência. Aprendo com a ilustração mas também com as coisas externas à ilustração. Sou um conjunto de recortes do que gosto e do que não gosto, de tudo o que vejo e absorvo. Mas também aprendo, claro,  com muita gente, nomeadamente com os autores da área. Não há só um ilustrador favorito. Há, felizmente, muitos. Alguns deles já fui referindo aqui no Cria Cria. A folha é curta para a minha lista. É normal gostarmos das coisas que os outros fazem (e há tanta gente a fazer coisas boas). Mas há que ter cuidado para não deixar que esse fascínio se torne numa coisa má. A questão da imitação é perigosa. A imitação, no sentido de tentar fazer igual, não me parece nada bem. O deslumbramento que sentimos por um autor ou trabalho deve ser transformado em inspiração, num bom pretexto para querermos fazer, também, coisas únicas. Todos nós temos referências. É até muito saudável porque estarmos atualizados e vermos coisas de qualidade é uma boa maneira de aprender. Mas em todo este processo de observação de autores o que se torna importante é tentar perceber o que é que nos faz gostar de determinado trabalho. A consciencialização do que está bem feito faz-nos focar no essencial, não copiando, mas reciclando essa referência para uma linguagem nossa, nova e singular. Nem sempre é fácil. Às vezes, as coisas de que gostamos entranham-se e inconscientemente acabamos por usá-las. É preciso estar atento e ter a capacidade de o reconhecer. Esta questão é preocupante e é com alguma tristeza que vejo muita gente (alunos inclusive) a confundirem ideias e a tomarem como deles referências, acomodando-se no que já existe, baralhando o próprio trabalho com os seus autores de eleição. É verdade que as nossas ideias crescem porque são construídas em cima de conhecimentos pré-adquiridos. Mas para crescerem verdadeiramente têm que ser originais. E, para mim, a autoria é fundamental.

 

ilustração originalmente publicada no livro “A máquina de fazer palavras” (Porto Editora, 2007)

 

Marta Madureira: Já não é a primeira vez que aqui refiro o meu pai, porque é, efetivamente, uma figura essencial no meu percurso. Se hoje temos atitudes gráficas distintas, houve alturas, no início, em que sentia uma dependência, nunca imposta, mas criada por mim e pela admiração que sempre lhe dediquei. O crescimento para uma maturidade individual não foi fácil, pois a presença diária do seu trabalho tinha sobre mim um grande peso. Hoje, ultrapassadas as agitações, relembro essa época como uma fase necessária para o meu crescimento.

Em 1991, o meu pai ilustrou um livro do escritor José Vaz chamado “A máquina de fazer palavras”. Em 2007, aconteceu uma coincidência engraçada: fui convidada pela Porto Editora, através do professor António Modesto, para (re)ilustrar esse mesmo livro. Embora nessa altura o meu percurso na ilustração já fosse bem distinto do do meu pai, não consegui evitar uma certa insegurança. O livro que o meu pai ilustrara em 1991 foi sempre um dos meus preferidos. Faz parte das minhas memórias. Era, até ao momento, impensável outra versão do livro que não aquela. Principalmente, minha. Como me separar de uma linguagem que sempre dei como absoluta? Como reinventar algo que sempre esteve lá? Como fugir à imitação? Nesta luta tive uma grande ajuda: o meu pai tem, desde sempre, a escola da pintura num registo forte da mancha e da tinta; eu, ainda que mantenha uma costela da pintura, segui a via do design e uma técnica mais ligada ao recorte e à colagem. A partir do momento em que as técnicas são diferentes, as soluções passam a ser desenvolvidas em sentidos distintos. A experiência adquirida até aí permitiu-me ser firme na escolha da técnica, distinta da do meu pai. A minha versão do livro, uma geração depois, saiu completamente diferente. O que lá está é meu. Ainda que, e ainda bem, com restos de 1991.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 9)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: É ilustradora a tempo inteiro, 24 horas por dia? Desenha mentalmente tudo o que vê, estando acordada ou a dormir? E toma notas ou faz esquissos sobre essas visões? O que é que tem de ter sempre consigo para o poder fazer?

Marta Madureira: Não sou ilustradora a tempo inteiro, mas quase tudo o que faço profissionalmente passa pela ilustração. Se por um lado é bom, porque canalizo todo o esforço num só sentido, por outro, corro o risco de me encerrar num único assunto. Tento, por isso, estender o meu interesse a outras áreas vizinhas, como é, por exemplo, o design gráfico, disciplina base da minha formação, que entendo como uma área vasta e multidisciplinar, onde coexiste a ilustração.

Não dependo financeiramente do trabalho de ilustração. O meu trabalho base, ao qual dedico a maior parte do tempo e esforço, é dar aulas. Sou professora no IPCA (Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), onde dou aulas de desenho e ilustração, na licenciatura de Design Gráfico e no mestrado de Ilustração e Animação. Tendo em conta a natureza das aulas que dou, tenho a sorte e a vantagem de fazer o que gosto e de me sentir plenamente preenchida: primeiro, porque a relação com os alunos traz sempre alguma frescura e as aulas são, por norma, uma partilha; depois, porque o trabalho de docência me ajuda a tornar o processo de trabalho criativo mais consciente, e não meramente intuitivo. Quando temos alunos para orientar somos obrigados a pensar no “porquê” das coisas, porque temos, efetivamente, de verbalizar os problemas e as soluções. Isso ajudou-me a construir um vocabulário mais sólido e a tornar-me mais consciente do que faço; e ainda porque a preparação das aulas me obriga a estar permanentemente atualizada e a investigar cada vez mais as vias da ilustração.

Respondendo à segunda parte da questão, o meu desenho é, numa primeira fase, essencialmente mental. Não ando com nenhum caderno de folhas especiais, apenas o suficiente para registar, em palavras, uma ou outra ideia. Tudo acontece no cérebro e no encaixe das ideias. Quando recebo um texto, mesmo que tenha muito tempo para o ilustrar, começo logo por lê-lo. Assim que estabeleço o primeiro contacto, o texto começa a sedimentar-se na minha cabeça e aos poucos, ainda que de forma inconsciente, vai-se agrupando em ideias e montando por si só um imaginário. Só numa segunda fase é que essas ideias passam para o papel. Primeiro em esquissos rápidos de distribuição de mancha e pesos visuais (storyboard, no caso de ser um livro). Só depois em pranchas, mais próximas do que será a ilustração final. Depois da ideia, vem a formalização da mesma. Essa forma vai sendo moldada pela experimentação e quase nunca acaba da maneira que primeiramente idealizei.

 

ilustração originalmente concebida para packaging para conservas José Gourmet (2010)

 

Marta Madureira: As relações afetivas que criamos em ambiente académico são fundamentais. Enquanto alunos, com os colegas e professores. E enquanto docentes, com os alunos que ano após ano vamos conhecendo. Essas relações, quando bem afinadas, proporcionam futuras relações de amizade e de trabalho. E não há nada melhor do que partilhar projetos com pessoas de quem gostamos. Do meu tempo de faculdade, guardo muitos colegas que são hoje amigos. E muitos professores com quem mantenho, até hoje, relações próximas de estima e amizade.

Esta ilustração foi um (dos muitos) convite feito por um professor e amigo, o Gémeo Luís (Luís Mendonça). Faz parte de um conjunto de embalagens desenvolvidas para uma marca inovadora de produtos gourmet, o José Gourmet. O design é da responsabilidade do Luís Mendonça, que entregou cada uma das embalagens de conserva (num total de 12) a um ilustrador. A mim, calhou ilustrar a sardinha em tomate. Este tipo de encomenda tem contornos diferentes do que os que normalmente associamos a um trabalho “tradicional” de ilustração. Mas a contextualização de imagens em ambientes diversos é cada vez mais uma realidade e um potencial futuro para a ilustração. A diversidade de suportes e as diferentes aplicações da ilustração a meios distintos confirma que a área não é estanque e valoriza-a enquanto objecto de comunicação.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 8)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos recebido Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

 

Cria Cria: Por que é que acha que as pessoas desenham? E por que é que a Marta desenha? Ainda sente a mesma motivação que tinha quando começou a ilustrar?

Marta Madureira: Há diferentes formas de abordar o desenho. Desenho artístico, desenho como conhecimento, desenho técnico, desenho ilustrativo, etc. São inúmeras e muito diversas as configurações e as motivações do desenho. No caso particular da ilustração, penso que o que nos leva a desenhar é a vontade de criar imaginários paralelos. Algo que só existe em palavras e que nós, ilustradores, formalizamos em imagens, tendo em conta a nossa interpretação e as nossas vivências. Porque neste tipo de abordagem ao desenho, não há como negar, há muito de pessoal. Não se trata apenas de executar um desenho (com toda a criatividade que essa tarefa exige), mas também de idealizar o seu contexto. Assim, através de referências quase sempre literárias, os ilustradores fabricam imagens. Numa perspetiva pessoal, acho (porque não é assim tão claro racionalizar o que fazemos) que o que me leva a ilustrar é exatamente esse poder momentâneo de construir imagens. Estas imagens têm uma forte apetência para comunicar com os outros. O leitor fará uma interpretação do texto através das imagens que o ilustrador criou. Este tipo de abordagem ao desenho ilustrativo pode ser visto como uma tradução onde o ilustrador é o intermediário e uma mais valia num processo de comunicação que se torna assim mais rico pelas sugestões da imagem.

Ao longo destes ainda curtos anos de trabalho tento que o tipo de desenho que faço evolua. Há uma vontade incondicional de crescer de trabalho para trabalho e de não estagnar naquilo que já foi feito. E, paralelamente, as motivações que me levam a ilustrar ganham também novas perspetivas. Tenho sentido que o trabalho não é só o que fazemos mas também as relações pessoais e profissionais que esse trabalho nos proporciona. Fundado nestas relações, surgiu a necessidade de evoluir, não apenas no trabalho focado na ilustração, mas também na configuração global do processo, desde a escolha do texto à finalização do livro. É dessa vontade que surge a Tcharan, uma editora que criei com a Adélia Carvalho no final de 2010, direcionada para a literatura infantojuvenil. Percebemos que as duas juntas, a Adélia enquanto escritora e dona de uma livraria, a Papa-Livros, e eu, enquanto ilustradora e designer, conseguiríamos as ferramentas necessárias para nos arriscarmos na edição. Depois de um ano de experiência, dois livros editados e três a serem lançados até final do ano, o balanço é muito positivo e faz cada vez mais sentido. O projecto Tcharan permitiu criar um espaço onde nos aproximamos mais dos nós próprias, com a liberdade necessária para as escolhas que consideramos melhores. Trouxe ainda uma nova e boa sensação. Como editora, passei para o outro lado, o de observar a ilustração. Temos o privilégio de poder convidar para trabalhar connosco as pessoas que sempre admirámos. Ao gosto de ilustrar junta-se agora o gosto de fazer bons livros com bons amigos. E gostar, genuinamente, de ilustração.

 

ilustração originalmente publicada no livro “A crocodila mandona” (Tcharan, 2010)

 

Marta Madureira: “A crocodila mandona” é o primeiro livro da Tcharan. Neste primeiro objeto, quisemos materializar o ponto de partida da editora enquanto projeto meu e da Adélia Carvalho. Assim, as ilustrações são minhas e o texto é da Adélia. É normal que o início de um novo projeto de ilustração demore. Mas nunca um livro me custou tanto a começar como este. A responsabilidade de ser o nosso primeiro, estava a ser demasiado pesada. Comentários de amigos, como “o primeiro tem que ser especial”, “o primeiro é o vosso cartão de visita” e “o primeiro vai ser sempre lembrado”, ainda que de entusiasmo e força, acabaram por contribuir, de forma involuntária, para um início de trabalho angustiante, mais ainda do que o normal. Depois de uns dias à deriva, forcei-me a focar no essencial. Não há livros melhores ou mais importantes. Cada trabalho é único. E, como em todos os livros, consegui finalmente parar, fechar os olhos e sentir-lhe o pulso.

O texto da Adélia sugere um jogo tradicional. Lembrei-me, desde a primeira vez que o li, de um jogo que jogava em pequena, o “minha mãe dá licença”, onde o jogador vai avançando ou recuando, dependendo da vontade da “mãe”. Também no texto de “A crocodila mandona”, a crocodila Dalila permite, ou não, a passagem para o outro lado do rio, dependendo da prenda que lhe é oferecida, numa repetição constante da frase “Senhora crocodila, posso passar? / E o que trazes no bolso para me dar?” Construí, então, o conceito do livro à volta da ideia de um Jogo da Glória. O corpo da crocodila estende-se ao longo das páginas do livro como se fosse o tabuleiro do jogo que o leitor vai percorrendo, atento aos obstáculos (picos, buracos, escadas, etc.) que a crocodila vai colocando no caminho. Esse corpo/caminho da crocodila vai sendo metamorfoseado de acordo com o que o texto vai sugerindo: ora é um caminho de folhas e uma possível armadilha para o leitor; ora é um menino fantasiado de leão; ora é uma perna vitoriana com sapatinho de verniz; ora é, como na imagem, um cachecol de penas macias.

Tcharan! Não posso deixar de referir com alguma vaidade que o livro foi Menção Especial do Prémio Nacional de Ilustração 2010, um bom presságio para a estreia da nossa Tcharan.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 7)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infantojuvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria:  Zanga-se com as suas ilustrações? E elas consigo? Tem uma relação saudável com todas as ilustrações que vai terminando e juntando ao seu portefólio? Fica sempre satisfeita com os resultados do seu trabalho?

Marta Madureira: Sim, zango-me continuamente com as minhas ilustrações. Especialmente quando estão em processo de crescimento, como referi no post anterior. Mesmo quando estou prestes a acabar um trabalho, a relação nem sempre é pacífica. No momento em que finalizo um livro, por exemplo, nunca o reconheço como bem acabado. E quando vai para impressão, vai ainda com uma mágoa de quem não fez tudo o que devia. Nos dias seguintes, depois de chegar da gráfica, há uma fase de reconhecimento e de habituação. O tempo e o iniciar de novos projetos trazem-me a distância suficiente para o avaliar como “espetadora”, ou seja, fora de mim enquanto autora. É um exercício de desprendimento que gosto sempre de fazer, olhar como se fosse a primeira vez: “o que acharia eu deste livro se o visse numa qualquer prateleira?” Já depois de acabados, impressos e arrumados, há trabalhos de que gosto e outros de que não gosto. Há os que me arreliam todos os dias por não ter sido capaz de lhes dar a volta. Mas também os que aprecio, onde reconheço um bom momento, impossível de repetir. Mas em todos vejo defeitos que, não dramatizando, considero normais. Especialmente em trabalhos de continuidade, como é o livro, onde em vez de uma só imagem se trabalham várias, ao mesmo tempo, e a relação entre as páginas. Este processo de construção do livro é mais complexo do que uma ilustração isolada e exige um controle maior sobre o todo. Nestes casos, é sabido, ficam sempre coisas por resolver. Algumas de que tenho consciência no momento de ilustração, outras de que só me apercebo posteriormente, depois do trabalho impresso. Acontece ainda, mais vezes do que o desejável, o prazo apertar. Este tipo de pressão em nada ajuda na clareza necessária ao fecho do trabalho, e acaba por precipitar alguns erros. Especialmente nas questões formais que vou adiando durante a realização do trabalho, para depois corrigir, e que a falta de tempo faz esquecer. Na maioria das vezes são coisas que só eu vejo. Um traço repetido, uma cor não calibrada, uma textura estourada… Mas a verdade é que estão lá e ficarão a moer para sempre.

Acontece também uma coisa muito curiosa, que tenho vindo a constatar: o meu gosto, em relação às ilustrações que faço, é diferente do gosto da maioria das pessoas que as vê. Normalmente as imagens que elejo como as melhores não são as escolhidas pelos outros. Chamo-lhes os meus “patinhos feios”. São imagens que não estão em sintonia com o mundo, mas que compenso com a minha estranha relação de empatia.


ilustração originalmente publicada no livro “A aldeia encantada” (Ambar, 2007)

 

Marta Madureira: Este não é, com certeza, o meu melhor livro. Pelo menos para mim. “A aldeia encantada” é um livro de 2007 que quase não reconheço como meu. Poderia dizer que foi por ter sido feito há já algum tempo, mas o mesmo não acontece com “A boca no trombone”, um outro livro ilustrado nesse mesmo ano. É um livro que tem recebido boas críticas. A Cristina Valadas, pintora e ilustradora que muito admiro, disse-me, há uns dias, que tinha descoberto este meu trabalho recentemente e que o considerava um dos meus melhores. Não posso deixar de me sentir orgulhosa, mas preferia que tivesse sido com um outro qualquer livro, com o qual me identificasse mais. Creio que é um bom exemplo do meu desfasamento de gosto que mencionava no início da resposta. Não me reconheço em grande parte da linguagem e considero um livro de transição, sem grande peso no meu portefólio. Que me perdoe o José Vaz (acho que nunca lhe fiz esta confissão), autor deste texto tão poético. A culpa é, sem dúvida, minha, por não ter conseguido fazer justiça a um texto tão inspirador. Felizmente, temos outros livros em conjunto, mais merecedores do seu talento.

A ilustração que escolhi deste livro é um dos meus “patinhos feios”. Apresento-vos a Celestina e a Abu, bruxa e coruja mimadas, concentradas na grande missão de destruir o Pai Natal.

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“A crocodila mandona” e “O país das pessoas de pernas para o ar”, da Tcharan

 

Dois livros inauguram uma nova editora, a Tcharan, da ilustradora Marta Madureira e da escritora Adélia Carvalho. “A crocodila mandona”, primeiro trabalho da dupla neste contexto (depois de se terem cruzado no “Livro dos medos”, publicado pela Trampolim em 2009), mereceu uma Menção Especial no Prémio Nacional de Ilustração 2010, da Direção Geral do Livro e das Bibliotecas. Percebe-se por que razão. O texto em verso encaixa-se no âmbito das lengalengas e histórias acumulativas rimadas, típicas do universo popular de tradição oral, ou, se quisermos, pode ser uma espécie de jogo atualizado do “Bom barqueiro” (“Linda falua”, para outros), em que a teatralidade dos diálogos curtos e incisivos entre as diversas personagens que vão surgindo ecoam outras histórias, como “O coelhinho branco e a formiga rabiga”, por exemplo. Se este texto, enquanto reescrita da tradição, funciona como exercício de memorização ou jogo de expressão dramática, oferece-se, nas páginas finais, também como proposta didática, convidando à criação de novas personagens e novas rimas, nas modalidades escrita e desenho.

Quanto a “O país das pessoas de pernas para o ar”, é uma reedição de um texto de 1973, de um autor consagrado, Manuel António Pina. É delicioso reler este Manuel António Pina, que aqui, descarado, nos alimenta com colheradas cheias de doce humor, roçando o nonsense, brincando com as palavras, com as personificações, com as escolhas dos nomes das personagens, com o excesso de copulativas, com as repetições, com as frases, em sintáticos desarranjos, construindo “childlike styled narratives”.

 

“Uma vez a Sara tinha um passarinho. O passarinho chamava-se Fausto. Era branco e amarelo e chamava-se Fausto. O nome dele era Fausto.”

 

São quatro as histórias: “O país das pessoas de pernas para o ar”, a primeira, seguindo-se “A vida de um peixinho vermelho”. Depois, duas pequenas narrativas tendo o menino Jesus como protagonista: “O menino Jesus não quer ser Deus” e “O bolo do Menino Jesus”. Quem conhece as histórias que as crianças inventam e escrevem, não consegue evitar um sorriso. E, pensando no que se escrevia e se publicava para crianças no início dos anos 70, compreendem-se melhor as ousadias de Manuel António Pina:

 

“Um bolo estava na montra da pastelaria, todo coberto de açúcar. O menino Jesus ia a passar, levado pela mão por S. José e aquele bolo pensou:

– Queria que este menino me comesse. Ele é Deus, queria que ele me comesse com a boca dele. Ia para dentro dele, e depois ia para o estômago dele; e depois ele fazia a digestão, e eu ia para o sangue dele, ficava para sempre dentro do sangue dele. Transformava-me no sangue do menino Jesus e andava dum lado para o outro dentro do corpo do menino Jesus. Com um bocadinho de sorte, talvez até aparecesse na chaga do lado.

Aquele bolo pensou estas coisas, como seria bom o menino Jesus comê-lo, e ficou triste.”

 

Ousadias também as da ilustradora, que recorrendo a técnicas mistas nos surpreende com o seu sentido de equilíbrio gráfico entre texto e imagem, nos encanta com o cuidado nos detalhes, com a subtileza do seu humor e plena compreensão do texto.

Uma entrada “tcharan!” para a Tcharan.

 

livro “A crocodila mandona”, de Adélia Carvalho com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2010

[a partir dos 4 anos]

 

 

livro “O país das pessoas de pernas para o ar”, de Manuel António Pina com ilustrações de Marta Madureira

Tcharan, 2011

[a partir dos 5 anos]

 

 

Paula Pina

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 6)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 
Cria Cria: Tem pesadelos com as suas ilustrações? E sonhos bons? Os seus momentos de criação são, por norma, felizes? Ou são difíceis?

Marta Madureira: Sonho muito. Tanto, que acordo cansada. Tenho sonhos muito bons e sonhos maus. Mas por norma são epifanias minhas, separadas das preocupações reais. Não me lembro sequer de sonhar com trabalhos de ilustração que tenha em mãos, e estaria a mentir se dissesse que aproveito esse meu imaginário para ilustrar. Não acontece, pelo menos, de forma consciente. O que acontece, sim, é que cada projeto em que estou envolvida se transforma numa espécie de realidade paralela. O tal “entrar” no texto de que falava na semana passada é exatamente isso, entrar num ambiente de sonho em que o tema é o texto. E quando entramos nessa ilusão, começamos a viver à sua medida, com as suas regras. É quase comparável à ideia de um filme, que por norma acaba bem, mas tem também os seus momentos de dificuldade. E é aqui que respondo à segunda parte da questão: os meus momentos de criação são um misto entre ansiedades e satisfação. Quando recebo um trabalho, o primeiro contacto é de satisfação: “que bom, que texto perfeito, tantas ideias!” Esta fase, diga-se, é muito breve. Uma segunda fase, bem mais lenta, é quando passo das ideias para o visível. Esta fase é de muito esforço. E, penso que por isso, faço sempre grande resistência para a começar. O primeiro desenho é continuamente medonho, acho-me a pior ilustradora do mundo e penso sempre: “no que me fui meter?” Faço dezenas de versões da mesma ideia, sempre perdida e sem saber por onde recomeçar. Só depois de muito insistir é que aparece o “clique”. O “clique” é um momento especial. É também o bilhete para a terceira fase, de puro proveito e bem estar. É quando me ambiento ao texto e passo a viver dentro dele. É neste momento que acontece todo o resultado final no livro. O “clique” não aparece necessariamente na primeira ilustração. Acontece de repente, quando já estou esgotada e quando menos espero. Depois do “clique” tudo se torna claro. É a parte boa. Tão boa, que continua a valer a pena começar de novo. Este percurso faseado em emoções acontece sempre, desde que me lembro. A diferença é que, com a idade e com a experiência, consigo passar por ele de forma mais serena.

 

ilustração originalmente publicada no “Livro dos medos” (Trampolim, 2009)

 

Marta Madureira: Escolhi este livro porque acho que responde, de alguma forma, às perguntas desta semana, nomeadamente nas soluções visuais. É um livro que tem um texto belíssimo da Adélia Carvalho sobre sonhos que são pesadelos e é um livro que ensina a transformar os pesadelos em sonhos hilariantes. Ilustrá-lo foi ter o privilégio de conviver com monstros excêntricos em danças únicas de “entra pela gaveta e sai pela janela”. O próprio texto já é, por si, muito visual e as ilustrações tentam acompanhá-lo através do non sense próprio dos sonhos.

Em todos os livros que fiz até hoje consigo identificar a ilustração que fez o “clique”, a que deu mote a todas as outras. Neste trabalho, o primeiro “clique” aconteceu nesta imagem, depois de muita luta, na quarta ilustração do livro e na oitava versão deste bicho papão. Nada melhor do que entrar nesta parte do sonho para conhecer em primeira mão o bicho papão que adora cantar e comer sabão. Com tanta aptidão para a cantoria, só poderia estar no banho a transformar a música em bolinhas de sabão.

Este livro é direcionado para o público infantil e tem-nos trazido, a mim e à Adélia, surpresas muito engraçadas. Que as crianças veem coisas que a maioria dos adultos não vê, já não é novidade. Mas elas também acrescentam, na sua leitura, significados extra. Em conversa com algumas dessas crianças, uma perguntava: “e por que é que o monstro tem uma torneira na barriga?” E a resposta pronta de outra foi: “não vês que é o sítio por onde o bicho papão faz xixi!?” Mas é claro, como é que não me lembrei disso?!

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 5)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Como é que faz para se lembrar de coisas que ainda não existem? Como é que trabalha a imaginação?

Marta Madureira: A definição de ilustração é ainda hoje pouco esclarecida, porque ao longo dos tempos foi tendo diferentes funções. Num primeiro estado, a ilustração cumpria a função de cópia do real. O aparecimento da fotografia, que oferece de forma mais eficaz o que a primeira tentava fazer até aí, proporciona à ilustração novas perspetivas, direcionando-a para abordagens menos realistas e progressivamente simbólicas. A ilustração distingue-se de outras manifestações visuais pelo facto de estar associada à interpretação de um tema, na maior parte dos casos, de um texto. Essa relação com o texto, mais do que física é semântica: a ilustração descodifica o texto através de artefactos visuais, mas, mais do que isso, redimensiona-o. Assim, a prática da ilustração não é a mera transposição do texto para um suporte imagético, mas uma forma de tradução do mesmo. A ilustração, como eu a entendo, parte do real, mas trabalha sobretudo com o irreal. Acho até que é esse o ponto essencial que me faz gostar tanto de ilustrar. Enquanto professora (dou aulas de ilustração a alunos de licenciatura e mestrado no IPCA – Instituto Politécnico do Cávado e do Ave), o maior desafio das primeiras aulas é fazer com que os alunos percebam a ilustração como uma libertação visual e não como submissão ao que já existe. É tentar estimulá-los para a vasta possibilidade de criarmos o nosso próprio imaginário. E a experiência diz-me que só quando um aluno entende esta perspetiva é que começa a gostar, a empenhar-se e a descobrir a verdadeira expressividade da ilustração.

A imaginação existe em cada um de nós de forma muito particular. Mas torna-se mais visível quando estimulada pelo trabalho, pelo esforço que fazemos em entrar no universo para o qual estamos a ilustrar. É preciso entranhar esse envolvente ao ponto de começarmos a falar a mesma linguagem e nos deixarmos contaminar. No meu processo de trabalho há uma espécie de sinergia entre o que o texto me dá e a forma como lhe respondo. Essa resposta é dada segundo o meu ponto de vista, que surge, exatamente, da minha imaginação, da forma particular como penso e descodifico as coisas. É nessa minha conversa com o texto que vou ao mais fundo de mim encontrar as respostas. O segredo está em não reprimir essa lufada de imaginação e resistirmos às vias mais fáceis, que são as ideias pré-concebidas. Há ainda uma grande vantagem: neste imaginário, quem manda sou eu. Uma perna pode ser maior do que a outra, os braços podem arrastar pelo chão, um olho pode ser quadrado e a cabeça ter o tamanho de um alfinete. Por que não? Quem proíbe?

Não posso deixar de referir uma das minhas autoras favoritas, a Sara Fanelli, mestre nesta arte de transformar o mundo, por imagens, num imaginário singular.

 


ilustração originalmente concebida para a série de animação “As máquinas de Maria” (Pedro e o Gato, 2008)

 

Marta Madureira: Este projeto, “As máquinas de Maria” é um objeto de animação que começou por ser uma ilustração. Depois, evoluiu para uma curta metragem de animação e posteriormente, no seu formato atual, é uma série de animação infantil, para televisão, com 26 episódios (um projeto conjunto com o meu bom amigo e colega Pedro Mota Teixeira). Esta série de animação conta o dia a dia da Maria, uma menina que tem como passatempo preferido inventar máquinas para resolver os problemas mais simples que a rodeiam. Em torno deste conceito, fui criando um imaginário correspondente, alicerçado nas características psicológicas da personagem principal e na sua obsessão pelas máquinas. A própria Maria é o reflexo físico dos seus traços psicológicos: os olhos são roldanas e as articulações do corpo são feitas com parafusos. Esta estética estende-se ao resto das personagens, como é o caso do Tex, o cão, onde as patas são substituídas por rodinhas. Ele próprio pode ser visto como uma das invenções da Maria. É a partir deste imaginário que surgem a “máquina de afastar nuvens”, a “máquina de envelhecer sapatos”, a “máquina centopeia”, a “máquina de fazer crescer” e “a máquina de viajar sem sair do sítio”, entre outras.

Este projeto tem ainda a característica de os textos (argumentos) terem sido escritos por mim, o que faz com que muitas vezes a imagem e o texto surjam em simultâneo. Creio que é um dos meus maiores exercícios de imaginação, talvez porque seja o que dura há mais tempo (é um projeto que existe desde 2008) e essa continuidade permite-me uma intimidade reforçada e sedimentada com o objeto. Cada vez que tenho que trabalhar em mais um episódio, bato à porta:

– Ora se faz favor, menina Maria, vou entrar!

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 4)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível, Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Tem segredos ou técnicas especiais no seu método de trabalho que nos possam ajudar a desenhar melhor?

Marta Madureira: Cada um tem uma forma particular de desenhar. O que torna esse desenho especial é o facto de explorarmos, dentro do nosso registo, uma solução original. Por exemplo, há muita gente a trabalhar com papel, mas ninguém a desenhar com papel como a Yulia Brodskaya. Embora utilize um material comum, percebe-se uma expressão pessoal conseguida pelo conhecimento das caraterísticas físicas do papel, a fim de tirar o máximo partido do mesmo. E o resultado final é um trabalho autoral. Quer isto dizer que, na minha opinião, o desenho passa pela destreza técnica mas também, em grande parte, pela forma como cada qual explora o material. Até porque, no trabalho de ilustração, tão importante como um desenho bem executado são a composição, as formas, os pesos visuais, a ideia, etc. Existem desenhos muito bons tecnicamente que não são boas ilustrações. E há excelentes ilustrações que têm abordagens ao desenho menos convencionais, como é o caso do trabalho de Christian Voltz, que desenha com objectos e arame. Mas o contrário também acontece, ilustrações com abordagens mais tradicionais ao desenho, como são os trabalhos da Lisbeth Zwerger e da Joanna Concejo (em duas gerações distintas), onde a destreza técnica e o uso de figuras mais realistas em nada direciona para uma ilustração literal. Bem pelo contrário, são histórias muito bem contadas, tal é a destreza das autoras para a construção de imagens simbólicas.

Independentemente do tipo de desenho, importa adequar a técnica ao conteúdo a ilustrar. A escolha do material deve ter em conta o tema. Quando assim acontece, o resultado sai fortalecido. Como é o caso, por exemplo, da ilustração “Boxer” de Herr Mueller, onde o uso do material amassado sugere uma sensação mais real.

Mas respondendo de forma mais objetiva à pergunta, no meu caso em concreto, não tenho segredos bem guardados. O desenho vem da experiência e da perícia com que se manipulam os materiais. No primeiro post referi que por desenho entendo tudo aquilo que é passível de registo. Dentro da minha linguagem plástica, que passa em grande parte pelo desenho de tesoura, tento sempre encontrar formas diferentes de desenhar, numa procura contínua de materiais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Matilde Rosa Araújo – Um olhar de menina” (Trinta Por Uma Linha, 2010)

 

Marta Madureira: Esta ilustração pertence ao livro “Matilde Rosa Araújo – Um olhar de menina”. Foi um trabalho que me deu prazer em muitos sentidos. Porque me juntou pela segunda vez (e assim fortaleceu a minha relação) com a autora do texto, a Adélia Carvalho. Porque é uma homenagem sentida à Matilde Rosa Araújo, escritora da minha infância, que graças a este livro reencontrei, na pessoa e nas personagens que voltei a ler. E porque, enquanto trabalho de ilustração, me permitiu experimentar sem limites. Uma experimentação proporcional às sensações que me chegavam do texto. Tentem lá encontrar: este livro é feito de tangerinas da terra dos meus avós, cascas e sumo de laranja; tem flores frescas e flores secas; tem café em forma de terra; tem tinta nos dedos; tem água, azeite e vinagre numa nuvem e numa onda; e tem arroz no meio das árvores. Ainda hoje lhes sinto o cheiro.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 3)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível (apesar das descaradas imitações que pontualmente vão surgindo na área…), Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Acha que tem estilo? Ou acha que tem um estilo próprio? Acha que é “especial”?

Marta Madureira: Estilo próprio, acho que sim. Não de um forma racional, mas intrínseca ao meu gesto e à minha forma de pensar. Ainda assim tento contrariar a monotonia que o uso de um só estilo pode criar. Até porque a ilustração não funciona por receita. Cada trabalho pede formas específicas e abordagens plásticas diferentes, adequadas ao ambiente sugerido pelo texto. E, dentro deste raciocínio, uma ilustração será tão mais distinta de outra quanto mais diferente for o texto que a inicia. Mas fugir à submissão de um estilo nem sempre é fácil. Quando, por exemplo, faço dois trabalhos muito seguidos ou até mesmo em simultâneo, há uma tendência para contaminar os dois com uma mesma estética. Assim, sempre que possível, evito trabalhar em mais do que um projeto ao mesmo tempo. E, sempre que possível, tento respeitar um espaço de tempo intermédio entre dois trabalhos, que me garanta a distância necessária para o desprendimento sobre o que já foi feito. Ainda assim, acho – tenho a certeza – que há uma marca gráfica à qual não se consegue fugir. E que em parte é o que me define enquanto ilustradora. Acho até natural que assim aconteça. Desde que o estilo de cada um não se torne completamente soberano.

Se sou especial, não, não sou. Sou uma pessoa com muita sorte por estar rodeada de pessoas especiais. São essas pessoas especiais que me ajudam a consolidar o que sou emocionalmente e, como tal, também profissionalmente. Tenho a sorte de estar rodeada das pessoas que sempre quis. E tenho também a sorte de ter como amigos excelentes profissionais, maioritariamente da mesma área, em quem confio, com quem conto e partilho cada trabalho antes de o tornar público. Na maior parte das vezes, o trabalho final é o resultado das conversas e conselhos que tenho com essas pessoas especiais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “As letras de números vestidas” (Trampolim, 2010)

 

Marta Madureira: Um dos grandes proveitos que tiro do trabalho de ilustração é poder fazer declarações de amor públicas às pessoas que me são especiais. São uma espécie de mensagens subliminares, não explícitas para a maioria dos leitores, mas subentendidas por alguns. A tentativa de comunicar por imagens por si só já é um desafio. Mas torna-se ainda mais apetecível quando entramos nesta espécie de jogo que passa pela troca de cumplicidade entre o ilustrador e um recetor conhecido. Este tipo de imagens, que comunicam com qualquer um mas que chegam ainda mais longe às pessoas emocionalmente envolvidas, trazem uma leitura dicotómica. São uma espécie de “piscar o olho” às pessoas mais próximas. Esta ilustração, retirada do livro “As letras de números vestidas”, de 2010, a partir do texto de João Pedro Mésseder, é um “piscar o olho” ao “N”. Para reforçar esta dupla mensagem, usei elementos fisionómicos reais: o nariz do lado esquerdo é meu e do lado direito é do “N”. Para muitos será mais uma ilustração na continuidade do livro. Para os mais próximos, é um “piscar de olho”.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 2)

Sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, temos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível (apesar das descaradas imitações que pontualmente vão surgindo na área…), Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 
Cria Cria: Sente o seu cérebro crescer quando está a desenhar ou quando está a criar alguma coisa?

Marta Madureira: Sim. Quando ilustro, quando vejo, quando ouço, quando faço seja o que for. Em conversa com a ilustradora Teresa Lima, ela dizia-me que o que lhe agrada no trabalho de ilustração é o facto de ter um tema. Concordo. Uma das grandes vantagens é que não somos nós a procurar o assunto. O assunto é-nos dado. Isso à partida abre um leque de objetos muito mais vasto, muito para além do meu círculo de interesses pessoais. Na maior parte dos casos, esses assuntos que não são meus são semi-desconhecidos ou até mesmo desconhecidos, são diversos e são vastos. Para ilustrar sobre eles tenho que os procurar, o que me torna, automaticamente, recetiva ao conhecimento. No trabalho de ilustração, a parte da pesquisa, a procura do “mais” sobre o assunto, é fundamental. Quanto mais souber sobre o tema, mais variadas serão as perspetivas que tenho dele, e mais eficaz será, de todos os pontos de vista, a sua solução imagética. Tendo como base este pressuposto, que acredito e experiencio vivamente, muito tenho crescido desde que comecei a ilustrar, onde cada projeto é pretexto. A título de exemplo, não posso deixar de referir os trabalhos que fiz para a Op., com os quais ouvi Tom Zé ou li Enrique Vila-Matas e Hannah Arendt. A diversidade de assuntos é mais do que bem vinda, e a procura dos mesmos é um processo que, além de necessário, é frutífero. Nunca experimentei ilustrar segunda vez o mesmo assunto em momentos diferentes. Mas seria uma forma interessante de medir o meu crescimento.


ilustrações originalmente publicadas no livro “O menino Jesus da Cartolinha” (Campo das Letras, 2006)

 
Marta Madureira: Estas ilustrações são mais uma resposta à pergunta. Pertencem ao livro “O menino Jesus da Cartolinha”, de 2006. Com este trabalho percebi a importância de crescer no assunto. Foi também o livro que me juntou pela primeira vez à escrita (essa escrita cheia de raça) do Vergílio Alberto Vieira. Quando li o texto, em verso e com alusões diretas a sítios e histórias, não soube por onde começar. Pouco consegui encontrar sobre o assunto e o que havia na internet era vago e quase sem referências visuais. Precisava de saber mais. E, num dia de final de verão, fui ao encontro desse menino, rumo a Miranda do Douro. Vim com muitas imagens. De pessoas, de talha dourada, de santos, de paisagem, de comida e de sensações. Muitas delas viriam a servir de base gráfica para as personagens do livro. O brinco da velha, por exemplo, ou o cajado do Constantim, são recortes de fotografias que trouxe de Miranda. Ainda hoje percebo a forma deste livro como um reflexo da minha vivência no local. O conjunto de um processo criativo e pessoal, com um outro, de entendimento do assunto. Só assim foi possível traduzir visualmente a velha vidente, idosa e amarrotada pela “vantagem” da idade.

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Marta Madureira (ilustradora convidada, verão 2011, semana 1)

Com a abertura oficial do verão, que hoje se celebra mais ou menos por todo o hemisfério norte, celebramos igualmente a abertura de um novo espaço regular nas páginas virtuais desta nossa Cria que Cria: sazonalmente, convidaremos um ilustrador com obra particularmente louvável na área infanto-juvenil para rever o essencial do seu trabalho publicado até à atualidade. Uma vez por semana, esse criador responderá a uma pergunta do Cria Cria e, em paralelo, selecionará e comentará uma ilustração do seu espólio que, por um motivo ou por outro, queira destacar.

Para inaugurar este ciclo e trazer um pouco do seu refrescante estilo a este verão de 2011, teremos Marta Madureira, autora com dezenas de livros publicados e ilustrações espalhadas por diversas revistas (esteve connosco na Op. desde a edição #6, no início de 2002, p.ex.) e outros suportes. Dona de uma marca formal inconfundível (apesar das descaradas imitações que pontualmente vão surgindo na área…), Marta Madureira tem cerca de uma década de trabalho que merece toda a nossa admiração e carinho. Um corpo de trabalho para conhecer melhor aqui no blogue ao longo desta estação…

 

Cria Cria: Como (e quando) é que surgiu o desenho na sua vida? E como (e quando) é que o desenho começou a “transformar-se” em ilustração?

Marta Madureira: Desde que me lembro. O meu pai é ilustrador. Trabalhava para a Porto Editora e fazia as ilustrações dos manuais escolares. Lembro-me de acompanhar o trabalho dele em casa, no meio dos desenhos em esquisso e, depois, na escola, muito vaidosamente, os mostrar aos amigos, já impresso nos livros. Desde logo defini belas artes ou pintura como objectivo, penso que com forte influência do ambiente que vivia em casa. Quando entrei para o curso de pintura fui percebendo, ao longo dos primeiros anos, que aquela não era a minha vocação. E a convivência com os outros cursos de belas artes fez-me perceber que design de comunicação talvez fosse o caminho. Assim, depois de três anos, resolvi mudar de curso. E o que eu pensava que iria ser um mudar de direção foi um convergir. Foi nesse primeiro ano que descobri a ilustração e percebi os seus mecanismos, que passam pelo desenho, mas também pela comunicação visual. O conceito de “desenho”, por exemplo, é tão vasto quantas as suas possibilidades de registo. Qualquer material que permita o registo de algo num qualquer suporte, pode ser desenho. Estou-me a lembrar de autores como Erik Nordenankar que construiu o “The biggest draw in the world” através de GPS, ou como Mark Khaisman (www.khaismanstudio.com) que desenvolveu uma técnica de desenho realista através de fita-cola, só para enumerar alguns nomes onde o conceito de desenho é trabalhado a níveis muito pouco convencionais. Mas não deixam, no entanto, de ser desenho. E depois há o conceito. Uma ilustração não deve nunca viver subjugada ao texto. Deve completá-lo e ajudar nessa fascinante tarefa de contar uma história. Com letras, mas também com imagens e metáforas visuais.

 

ilustração originalmente publicada no livro “Canção dos dias por vir” (Edições Eterogémeas, 2002)

 

Marta Madureira: A primeira imagem, a imagem para iniciar este ciclo seria sempre uma escolha difícil. Há uma primeira tentação: querer mostrar logo tudo. Mas a ilustração que escolhi não o mostra, nem me identifica (ou já identifica muito pouco). É no entanto uma imagem à qual não posso fugir. Marca o meu ponto de partida e pertence ao meu primeiro livro editado, “Canção dos dias por vir”, pelas Edições Eterogémeas (www.eterogemeas.com), em 2002, pelas mãos do professor, ilustrador e amigo Gémeo Luís (www.gemeoluis.com). Um facto curioso: a metodologia deste primeiro trabalho foi inversa ao normal. Primeiro criei a sequência de imagens e posteriormente surgiu o texto, por Ana Roiz (José António Gomes). Temos então, como se deseja, duas histórias. A do ilustrador e a do escritor.

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